2011 foi um ano histórico para o Corinthians: a construção de um estádio próprio foi anunciada quase simultaneamente à classificação para a derradeira libertadores, da qual se sagraria campeão invicto no ano seguinte.

Não era um copo cheio, porém. Os pessimistas – os que aguçam o olho para o invisível – ousaram lembrar que o clube que antes liderou um histórico movimento democrático, agora campeão, já não dava mais aulas de espírito cívico. Au contraire. Parcerias estranhas (e quem falou contra Kia Joorabchian, quando ele trouxe Carlitos Tevez para o ataque do alvinegro?), corrupção etc. Os imbróglios não pagam a dor de pesquisá-los a fundo. E os jogadores: não que Sócrates um dia tenha sido a regra – Pelé que o diga -, mas há uma certa tristeza (nostálgica, é verdade), de um tempo onde jogador de futebol e acefalia não eram sinônimos quase perfeitos (Paulo André, o pintor francofalante e jazzófilo, que me perdoe; a inteligência socrática é mais do que isso: afiada).

Vencemos a América, e nosso estádio será visto por todo o mundo. Teria sido ainda melhor sem os pactos fáusticos, mas sabe-se lá se se pode vencer sem vender-se ao diabo.

Leio¹ que há uma coisa chamada trânsito de Vênus. É um evento astronômico de alguma raridade: ocorre apenas em pares, separados por oito anos de idade; depois, voltam a ocorrer em pouco mais de um século. O último par ocorrido se iniciou em 2004. A segunda passagem deu-se em Junho de 2012. Por sua previsibilidade incontestável, sei que nunca presenciarei a passagem do planeta “através” do Sol: o próximo par tem o início marcado para 2117. Não sei qual motivo – curiosidade, raridade, falta do que fazer; uma conjunção de alguns desses – me levaria a desejar me unir ao seleto clube que poderia afirmar: “vi um Trânsito de Vênus”, frase que para a maioria dos interlocutores aludiria, no máximo, à Marginal na hora do rush. Acredito que deva ter algo a ver com um anseio em ter algo seu, algo que ninguém saiba como é e, portanto, seja um bem existencial completamente privado. Por esse motivo pessoas colecionam selos raros, escalam o Monte Everest, assistem filmes iranianos e praticam marcha atlética ou pentatlo moderno. Para alguns, torcer para o Flamengo ou comentar o Big Brother não dá conta do recado; fazer coisas desse gênero é, justamente, perder a própria (ilusão de) individualidade na massa inautêntica dos lugares comuns. É por isso que estereótipos de torcedores de futebol são tão incisivos: o indivíduo é apenas mais um, igual a todos os outros. Um louco no bando. Os observadores do Trânsito de Vênus, por outro lado, são raros, seletos, superiores. Equiparam-se, no máximo, aos afortunados que conseguiram avistar um caboré-miudinho. Muito embora o bando das aves supere em grande medida o avistamento do fenômeno astronômico, o segundo tem a vantagem da ubiquidade.

Enfim, saber que não mais comporei o curioso clube me deixa triste. É daquelas limitações que, só por existirem, nos fazem sentir realmente pequenos, ridículos, limitados etcétera. Curiosamente, li na mesma publicação onde me informei acerca do acontecimento que nunca verei, uma descrição bem humorada de um tabloide de Abu Dhabi que anunciava, em um dia qualquer, 12 Ferraris na seção de classificados. Uma delas atendia pela módica quantia de 540 mil reais. A chance que um dia eu venha a ter essa quantia disponível na conta do banco, a tomar por minhas escolhas profissionais, beira o zero. Ainda sim, mesmo que um dia eu tivesse a somatória – através da sorte na loteria, talvez – acredito que dificilmente gastaria todo esse considerável pedaço em um enlatado italiano para assim poder me colocar, singelamente parado, ao lado de um Gol 1999, irmãos no já citado trânsito que assola a marginal. De qualquer forma, o sentimento é completamente diverso: eu posso ter essa Ferrari. Quer dizer, não há nenhum cálculo astronômico – conduzido pelos Maias ou pelo MIT – que me afirme, categoricamente: você não terá uma Ferrari 458 Italia nunca, tão somente porque a fábrica expele apenas um veículo a cada 100 anos, o próximo estando agendado para, precisamente, 2112. Não sei se por defeito de fabricação ou por qualquer outro motivo, mas minha massa encefálica entende a situação como só uma das muitas coisas que eu poderia fazer, ao lado de capitanear a seleção brasileira de Polo ou atravessar a Muralha da China de patinete. Esses pequenos possíveis-impossíveis, entendo-os como completamente possíveis. Tão possíveis quanto qualquer outra coisa trivial, como ir visitar o Cristo Redentor, e que me privo de fazer por puro capricho. Durmo tranquilo assim, imaginando todos os futuros contingentes que me aguardam, sorridentes. Infelizmente, os astrônomos me garantem que entre eles não consta o Trânsito de Vênus. Ao contrário dessas histórias comoventes de idosos que decidem, à beira da morte, fazer uma lista de desejos e realizá-los, risco possibilidades da caderneta dos possíveis, mesmo que antes as ignorasse completamente. É essa a angústia do homem.

¹”A Marcha de Vênus“, na Piauí de Julho de 2012, quando já era tarde demais para observar a passagem do planeta.

Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras: ‘e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.‘”

(Raduan Nassar; Lavoura Arcaica)

Para a música, é comum estar mais próxima da literatura do que da pintura. O espaço da música é o tempo; as notas, isoladas no instante, ganham sentido na medida em que são precedidas e prosseguidas por outras, compondo uma narrativa. Ter a forma de narrativa não significa poder ser traduzível em palavras, mas ter acontecimentos que ganham sentido nesse fluxo do tempo, que parecem levar a “algo”.

O interessante da música do saxofonista americano Jon Hassell é subverter essa ordem, tornando a música espacial. Ouvindo-o tocar, não consigo intuir uma história com começo, meio e fim; antes, os sons parecem representar objetos emergindo em um cenário. No começo de cada música, já se tem toda ela: no sentido de que todo o ambiente já está ali. O que acontece é uma lenta exploração de cada parte, uma detalhada observação das possibilidades de cada fresta do solo, de cada folha.

P.S. Meu conhecimento técnico de música é zero, esse texto é mais uma notinha sobre uma impressão completamente subjetiva a um show. Não pretendo nada além disso.

En fait je n’étais pas capable de formuler mon expérience, mais, après coup, je ressentais qu’elle pouvait correspondre à des questions comme: ‘Que suis-je?’ ‘Pourquoi suis-je ici?’ ‘Qu’est-ce que c’est que ce monde dans lequel je suis?’ J’éprouvais un sentiment d’étrangeté, l’étonnement et l’émerveillement d’être là. En même temps, j’avais le sentiment d’être immergé dans le monde, d’en faire partie, le monde s’étendant depuis le plus petit brin d’herbe jusqu’aux étoiles. Ce monde m’était présent, intensément présent. Bien plus tard, je devais découvrir que cette prise de conscience de mon immersion dans le monde, cette impression d’appartenance au Tout, était ce que Romain Rolland a appelé le ‘sentiment océanique’. Je crois que je suis philosophe cette temps-là, si l’on entend par philosophie cette conscience de l’existence, de l’être-au-monde.
[…]

J’ai commencé à percevoir le monde d’une manière nouvelle. Le ciel, les nuages, les étoiles, les ‘soirs du monde’, comme je me disais à moi-même, me fascinaient. Mettant le dos sur l’appui de la fenêtre, je regardais vers le ciel la nuit, en ayant l’impression de me plonger dans l’immensité étoilée. Cette expérience a dominé toute ma vie. […] Tout d’abord, cette expérience a été pour moi la découverte de quelque chose d’émouvant et de fascinant qui n’était absolument pas lié à la foi chrétienne. Elle a donc joué un rôle important dans mon évolution intérieure. Par ailleurs, elle a fortement influencé ma conception de la philosophie: j’ai toujours considéré la philosophie comme une transformation de la perception du monde.

(Pierre Hadot, La Philosophie comme manière de vivre.)

“Yo vi la historia totalmente al revés. Yo vi en el minotauro al poeta, al hombre libre, al hombre diferente al que la sociedad, el sistema encierra inmediatamente. A veces los mete en clínicas psiquiátricas y, a veces, los mete en laberintos. En ese caso era un laberinto. Teseo, en cambio, es el perfecto defensor del orden. Entra en el laberinto para hacerle el juego a Minos, al rey, es un poco el gangster del rey que va allí a matar al poeta.”

(Cortázar, J.)