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Arquivo mensal: julho 2010

É uma sensação interessante ler coisas do passado. Por uma pasta de textos antigos que achei aqui, encontrei alguns quem nem lembrava mais: era com se estivesse lendo outro escritor. Um deles foi este poema, escrito no período que compreende o final de 2008 e começo de 2009, não preciso quando. Sei que é desta época apenas porque esta foi a única de minha vida onde tentei (falhei) escrever poesia. Enfim, ei-lo (relendo, não achei de todo mal):


Mal

Matei, o pai; afoguei,
o irmão; pouco caso fiz
da mãe. O amigo:
apunhalei – pelas costas! -.
Envenenei os homens
a comunicação agora rota
em vão tentam reconciliação.

Sinceras lágrimas
verti – de alegria!-
vendo queimar toda a construção.
Demolida a Igreja, Governo,
Banco, Escola e Hospital.
Cidade invisível,
Tijolos quebrados e sangue.

Jesus na cruz; o dinheiro:
uma bebedeira, pandemônio, prostíbulo.
A minha cruz era mais forte,
(quão penoso era suportá-la!)
pesada, sempiterna. Chamava-se
lucidez, e dizia:
-Não existem culpados, mas responsáveis.

Soneto Inglês No. 1

“Quando a morte cerrar meus olhos duros
– Duros de tantos vãos padecimentos,
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?
Vejo-te agora alheia, e tão distante:
Mais que distante – isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,
Que o não terás, porém teu abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.
Um dia chorarás… Que importa? Chora.

Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.

(BANDEIRA, M.; Estrela da Vida Inteira)

Alfredo James Pacino, o “Al Pacino”, ganhou apenas um Oscar em sua longa carreira no cinema e, não, não foi n’O Poderoso Chefão. O filme, menos conhecido, mas não anônimo, era Scent of a Woman (Perfume de Mulher). Desnecessário comentar sua atuação: é impecável em cada mínimo detalhe; não se restringe à cegueira, que não é posta em dúvida em um momento sequer, mas na incorporação física da dor que sua personagem sente.

Não me cabe aqui ficar esmiuçando o enredo, mas comentá-lo: cada um dos dias em Nova Iorque, com a perspectiva de se matar no último, Slade esgota a borra da vida; vive cada dia como se fosse o último, extraíndo do mundo tudo que muitos sonharam mas nunca ousaram. Porque as coisas, todas elas, devem ser conquistadas. E, no entanto, como no soneto de Vinícius, ele não alcança a felicidade: vê o mundo podre, a moral da hipocrisia, a falta de coragem, de valor, o caráter sub-reptício como objetivo. Não há sentido viver num mundo assim, onde já não há espaço para as relações humanas; onde a cegueira, literalmente, toma conta de si; mas aos outros é que falta o tato de enxergarem a podridão do entorno. Mas o suicídio pressuposto não é consolidado: aonde menos se espera, num estudante que fora contratado para tomar conta dele por um final de semana, brotam sentimentos de compaixão, de integridade manifesta, enfim, de humanidade. Alguém mais crítico atentaria ao fato do garoto ser pobre, trabalhador; enquanto os colegas canalhas são endinheirados. É verdade, mas não se trata de uma apologia franciscana da pobreza: mesmo Charlie, o garoto pobre, sofre para estar em uma escola que o elevará, talvez, a esse painel elevado da sociedade; seus objetivos não são sequer questionados no filme, senão os meios para chegar a eles.

O filme não é perfeito: Charlie é recompensado por sua integridade, seria esse otimismo algo para suavizar, para comover? Talvez; sendo realista, é possível que sua integridade não fosse recompensada, mas punida. Talvez não: milagres também acontecem. Mas isso pouco importa, aos que verdadeiramente se predispuseram a sentir o filme, a comoção não vem no final, mas em cada um dos momentos onde os dois juntos redescobrem a vida, ou melhor, engendram um novo sentido – belo – para ela.

Os blogues são como animais: nascem, crescem, morrem. No início, mil promessas os permeiam; a idade traz vivência e monotonia; terminam suas vidas num arroubo de energia, de raiva. Um suicídio improvável. Na verdade, não sei se são todos assim: os meus são.

Primeiro veio o Several Species of Small Furry Animals Gathered in a Cave Grooving With a Pict, baseado na música homônima do Pink Floyd. Não obstante a grandeza do nome, durou uns 3 posts; que foi o tempo de perceber que eu não teria nenhum comentário, excetuando-se, talvez, os das pessoas para quem eu mandasse o link por msn.

Algum tempo depois, o Áporo. Naquele período conturbado, toda luz que via emanava de vaga-lumes: era intermitente, fugidia. Uma transição presidia o momento. Enfim… Ele passou: achei que era hora de tentar algo novo. Então veio o Undiscover’d Country – nome em homenagem ao príncipe dinamarquês da peça de Shakespeare -, mas é claro que a mudança não podia ser deliberada assim: ele se saiu igualzinho ao Áporo; porque, é claro, eu era o mesmo. De novo, os mesmos arroubos emocionais o derrubaram. O escrever na internet era uma batalha forçosamente perdida, um feto natimorto.

Porém, como contradição ambulante que sou, fui obrigado a voltar atrás. Olho pro futuro: algo acontecerá e eu deletarei, furioso, esse blogue. Pode ser daqui alguns meses, alguns anos, quem sabe… Mas não importa: eu escrevo porque me é natural; assim como o artista da fome jejua porque não gosta de comer.