Lágrimas de Homem

Alfredo James Pacino, o “Al Pacino”, ganhou apenas um Oscar em sua longa carreira no cinema e, não, não foi n’O Poderoso Chefão. O filme, menos conhecido, mas não anônimo, era Scent of a Woman (Perfume de Mulher). Desnecessário comentar sua atuação: é impecável em cada mínimo detalhe; não se restringe à cegueira, que não é posta em dúvida em um momento sequer, mas na incorporação física da dor que sua personagem sente.

Não me cabe aqui ficar esmiuçando o enredo, mas comentá-lo: cada um dos dias em Nova Iorque, com a perspectiva de se matar no último, Slade esgota a borra da vida; vive cada dia como se fosse o último, extraíndo do mundo tudo que muitos sonharam mas nunca ousaram. Porque as coisas, todas elas, devem ser conquistadas. E, no entanto, como no soneto de Vinícius, ele não alcança a felicidade: vê o mundo podre, a moral da hipocrisia, a falta de coragem, de valor, o caráter sub-reptício como objetivo. Não há sentido viver num mundo assim, onde já não há espaço para as relações humanas; onde a cegueira, literalmente, toma conta de si; mas aos outros é que falta o tato de enxergarem a podridão do entorno. Mas o suicídio pressuposto não é consolidado: aonde menos se espera, num estudante que fora contratado para tomar conta dele por um final de semana, brotam sentimentos de compaixão, de integridade manifesta, enfim, de humanidade. Alguém mais crítico atentaria ao fato do garoto ser pobre, trabalhador; enquanto os colegas canalhas são endinheirados. É verdade, mas não se trata de uma apologia franciscana da pobreza: mesmo Charlie, o garoto pobre, sofre para estar em uma escola que o elevará, talvez, a esse painel elevado da sociedade; seus objetivos não são sequer questionados no filme, senão os meios para chegar a eles.

O filme não é perfeito: Charlie é recompensado por sua integridade, seria esse otimismo algo para suavizar, para comover? Talvez; sendo realista, é possível que sua integridade não fosse recompensada, mas punida. Talvez não: milagres também acontecem. Mas isso pouco importa, aos que verdadeiramente se predispuseram a sentir o filme, a comoção não vem no final, mas em cada um dos momentos onde os dois juntos redescobrem a vida, ou melhor, engendram um novo sentido – belo – para ela.

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