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Arquivo mensal: agosto 2010

O homem para frente aos dois filhos. Seus olhos – duas esferas, vácuo irrefletido do abismo que, naquele momento, era sua alma. Sua mão envolvia o metal frio que, num momento, aniquilaria um dos dois. Assim tinha ordenado aquele senhor estranho – repulsivo!, foi a primeira impressão que saltou-lhe ao pensamento -, que, com um sorriso sarcástico, articulava lentamente as ordens: mate um deles ou todos, todos mais você, serão mortos. “Mas que estranha, que sádica ordem a desse homenzinho desgraçado!”, pensava o homem, enquanto, já perdido, vertia algumas lágrimas – de angústia, desespero; de humanidade.

“E assim termina a parábola”, diz o velho, encarando o interlocutor, agora pensativo, “que concentra a totalidade da odisséia humana”. Eram dois ao redor de uma mesa velha de bar: o velho, que narrara a estranha história: barba prateada e rosto enrugado. Vestia-se com cuidado, mas com roupas já gastas. O outro, bem mais novo, encontrava-se próximo aos vinte anos. Vestia-se com elegancia, dotado de estatura mediana e a face bem barbeada abrigava a uma expressão de intranquilidade.

“Mas… Como?”, diz depois de um silêncio meditativo, o mais novo.

“É simples: há as escolhas. Também há a impossibilidade de fugir delas, como das circunstâncias.”

“E por que o homem repulsivo não era assassinado?”

“A repulsa que ele desperta vem justamente daí: ele é a manifestação do insuperável. O personagem nem imagina matá-lo porque o sabe: se o fizesse, viram outros, seria só um adiar do julgamento; mas este viria, e as penas… Ah, as penas…”

O mais novo estava visivelmente inquieto. Sua cara retorcia-se e contorcia-se em um balé que evocava um estado de espírito de assombro inimaginável. Pensava – seus esforços eram todos no sentido de engendrar uma fuga, um plano de escapatória para o condenado da anedota. Se fizesse isso, ele, também, seria salvo. Todos seriam! E toma a palavra:

“Considerando que o homem devesse fazer mesmo a escolha, assim então poderia lavar as mãos de sua escolha. Uma força que estava além de seu domínio o obrigara a matar um filho, e ele poderia fazer a escolha usando o cálculo científico: analisaria dados, quais as perspectivas de cada um dos dois etc., etc.; a Natureza escolheria o mais apto, assim como já aconteceria d’alguma forma! Não há culpa, não há responsabilidade em seu assassínio!” – O discurso foi proferido em tom rápido, acelerando-se conforme avançava. As últimas palavras já uniam-se umas às outras lembrando grunhidos. Mas o Velho não vacila, e responde:

“Ah, sim, os cálculos… Primeiramente esse homem cometeu um assasinato: seu crime será imperdoável para ele mesmo, na medida em que reconhecer o absurdo em que consiste tirar a vida de um outro humano. Não há lógica que ampare o apagar de uma vida. E a escolha foi feita com critérios: todos arbitrários; essa pretensão para a exatidão é má fé.”

“Como?”

“O homem recebeu um desígnio do Destino: que era o de matar um de seus filhos. Mas a partir daí, toda a responsabildade era sua. Tentando transferir sua escolha para outra instância – para o impessoal cálculo científico – ele não se isenta: primeiro, escolheu a instância que teoricamente receberia sua responsabildade. Dentre muitas, ele escolheu aquela: a culpa por escolher o Juiz é, portanto, dele. Em segundo, há apenas o desejo mesquinho de não sofrer com a reação de seus atos. É um ato de pobreza espiritual e fraqueza, que não salva sua existência da culpa, e ainda acresce de covardia, que completará a equação da angústia.”

Ele estava certo. o mais novo sabia; de alguma forma ele pressentia aquilo. Mas não desistiria: iria até o fim. E disse:

Resta-lhe o suicídio. Meter a bala na própria têmpora causara na morte – que já inevitável – dos filhos; mas sem existir não poderá mais conviver com o inferno que se seguirá.”

O velho sorri. Já havia imaginado a suposta saída, e disse, tranquilo:

“Matando-se, ele abdica da sua liberdade, portanto é isento de sua culpa. Mas matar-se é, também, uma escolha; é, portanto, um ato de liberdade – escolhe-se o crime, e essa escolha é consciente. Antes de apertar o gatilho, a responsabilidade o dominará de tal modo que seu sofrimento, que viria no porvir, vai se condensar todo em um ponto do tempo: momento de insuportável agonia.”

E, depois de um instante, emenda ainda:

“A liberdade – fogo de Prometeu -; nosso único bem, nossa irresistível maldição.”

“Considerada sob o ponto de vista do saudável entendimento humano, a filosofia é, nas palavras de Hegel, o “mundo às avessas”.”

(HEIDEGGER, M.; O Que é Metafísica?)

À I. M. F.


Amiga!, querida!, companheira!
Quero cantar para ti hoje.
Quero cantar, não como se canta a uma amante,
porque não o és,
mas como se canta a um anjo ou a uma criança –
Porque um anjo e uma criança são a mesma coisa, bem o sabes -.

Quero cantar a ti hoje
Porque do Hades me tirasse.
E é sabido: que a pior morte é aquela que
em vida se dá.
Mas tu me deste a mão,
e sopraste, suavemente, de volta
a minha alma, a energia infinita
e misteriosa das estrelas que,
sozinhas,
explodem multicolores nas trevas da noite.

(14/08/2010)



“Quem, se eu gritasse,
entre as Legiões dos Anjos me ouviria?
E mesmo se, inesperadamente, um deles
me acolhesse ao coração,
eu sucumbiria perante sua existência mais forte.
Pois o belo não é senão, o princípio do espanto
que mal conseguimos suportar.
E ainda assim o admiramos, pois,
sereno, deixa de nos destruir.”

Rilke; R. M.

O castelo me circunscreve. Em meio a neblina, emergem do chão pálidos segmentos de muro. Os corredores labirínticos aprisionam minha alma, são uma materialidade da cisão definitiva com o mundo dos homens. Pelos corredores vagam fantasmas, sombras evanescentes. Eu sou, também, sombra. Minha voz se perdeu há um tempo inatingível.

Mas ei-la, que se apresenta como contraste, como dialética: a Luz. E minhas profundas trevas são por ela atraídas, e a fusão inevitável se dá no campo do incomunicável. Os olhos, onde se lê o mistério azul-celeste. E juntos percorremos o eterno palácio; e por jardins e por salões, cantamos, mudos, o insondável – o Ser.

A rua e os prédios conjugam-se ao céu, como que formando uma massa de tons cinzentos. O ar é úmido e o clima, frio. Eis uma teoria que me ocorreu agora: o frio guarda uma maior sensação de… realidade. Acredito nessa tese! Ainda sim… Rousseau dizia que o calor é que era o clima que despertava o amor entre os homens; o frio gerava a força, a compaixão por necessidade. Mas, bem, ele mesmo dizia amar a humanidade, um homem de regiões frias! Eis todo o absurdo dessa teoria.

Caminho na rua como uma máquina: autômato, à parte a “realidade exterior”, mas imerso em um grau maior de realidade, subjetivo. Uma criança metida num gorrinho marrom, e um agasalho, fita o nada segurada pelos braços da mãe. Quanta verdade nesse olhar! Nem que quiséssemos, nós, homens feitos, poderíamos ensinar algo a ela. O contrário: ela é que poderia nos ensinar… tudo! A verdade só existe numa criança, depois tratamos de corrompê-la. Mas ela passa, tudo passa na rua, são imagens… Imagens que se insinuam na minha memória como uma marca de carimbo com pouca tinta. Ali dois lixeiros nas roupas laranja-fosforescente tiram folhas do chão; ali uma mulher sorri a um homem que passa, sorrindo de volta; todos passam, caminhando reto para algum lugar que ignoro.

Ah!, se me fosse dado agora abarcar a humanidade toda num gesto! Seria um abraço comovido, com a pureza e as lágrimas sinceras de uma criança!