arquivo

Arquivo mensal: setembro 2010

Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

C. Drummond de Andrade


A memória de longa data tem uma estrutura curiosa. Em primeiro lugar, é sinestésica: uma música nos desperta o gosto de uma comida, o cheiro de um lugar, o rosto de uma pessoa; uma música, muitas vezes, traz toda uma situação à tona. Mas o traço mais digno de nota, que eu percebi enquanto passava algumas imagens muito antigas na cabeça, é o tom de caricatura, de tragicômico, que tudo na memória tem. Evoco alguém que conheci – e não mais vi – há muito tempo. O que surge não é um rosto definido, tampouco uma forma, uma estrutura; o que aparece é um envólucro amorfo de traços… Traços exagerados e únicos. Fulaninho tinha cabelo grande e vermelho, por exemplo – é só isso que lembrarei dele: o cabelo grande e vermelho, pairando numa cabeça ideal, platônica, de ninguém.

O passado possui algo de poderoso, de sublime. Lembranças paralisam e, por vezes, destroem a possibilidade do presente por seu caráter ideal. Sempre que me lembro de um tempo remoto sou afetado por aquela sensação vaga de nostalgia. Houveram anos de minha curta existência que, sem dúvida, foram pintados pelas cores angústia, por sofrimento e isolamento; não obstante, recordo deles com uma certa… Saudade. Como se naquela época não conhecesse eu as verdadeiras problemáticas. Tudo isso é mentira; primeiro, porque já as conhecia em certa medida; segundo, porque não existem as “verdadeiras problemáticas“, senão problemas, quase sempre com a mesma intensidade.

Mas qual a função de nossa memória? Erico Verissimo escreve, na boca de uma de suas personagens, em “Olhai os Lírios do Campo”, que “O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória.” Talvez – muito provavelmente – ele estivesse certo. Mas também, o mundo não existiria sem ela. O que constitui alguém? É a carne, envólucro da insubstancial alma? São as coisas e as pessoas que o cercam? São considerações abstratas; títulos, profissões, reconhecimento? Talvez uma pessoa seja um todo maior que todas essas partes, mas é certo postular que, sem a “cola” que as liga, a memória, o subjectum simplesmente não existe. Sei disso porque assisti a degeneração da memória de uma familiar muito próxima, por causa do Mal de Alzheimer. À época, em reflexões que eram pesadas para a idade, talvez, mas precisavam ser feitas, pensei que aquela pessoa que eu conhecera simplesmente não existia mais. Por que? A resposta era simples: havia um corpo, havia um cérebro, havia, sim, um monte de características que diziam que era a mesma pessoa. Biologicamente, a concordata era irrecusável. Quando Descartes sonda a essência insondável da cera, diz que se a derretermos, todas as características que poderíamos atribuir à cera dura já não existem mais. E no entanto ela é tão cera quanto era antes. Ouso afirmar que esse conteúdo eidético, essa essência insondável de uma pessoa, esteja de alguma forma na memória. Digo isso porque lidamos com as coisas, talvez, por causa de um modelo dicotômico: a faculdade do juízo, o bom senso; somado ao baú de lembranças – verdadeiras ou não – que nos dão uma ideia de como prosseguir, aquela sabedoria cravada à carne que não vem de livro ou professor. Isso pode soar talvez demasiado exagerado, trágico, ou qualquer coisa assim, mas há um ponto central que deve ser verdadeiro: uma pessoa que não sofreu, que não abaixou a cabeça e imaginou a impossibilidade da superação da melancolia; quem não passou por isso – quem de alguma forma nunca atravessou esse “vale de lágrimas” – é necessariamente mais imaturo, menos preparado, e menos humano. Porque é preciso ser ferido para entender o ferimento e o ferir.

P.S. Ressalto que a conclusão não é qualquer apologia à melancolia ou à depressão: mas o fruir desses estados com vistas à tornar-se melhor, como no aforisma nitzscheano.

P.P.S.

“Memóire”, por Magritte: Etéreas, irreais e sangrentas; assim são as recordações.


“Mystery and Melancholy of a Street”, de Chirico: a memória é composta de sombras evanescentes, é um cenário sempre cheio que, no entanto, está sempre vazio. Eternamente inacabado.


“O próprio tumulto das ruas tem algo de repugnante, algo que revolta a natureza humana. Essas centenas de milhares de pessoas de todas as classes e situações, que se empurram umas às outras, não são todas seres humanos com as mesmas qualidades e aptidões e com o mesmo interesse em serem felizes?… E, no entanto, passam correndo uns pelos outros, como se não tivessem absolutamente nada em comum, nada a ver uns com os outros; e, no entanto, o único acordo tácito entre eles é o de que cada um conserve o lado da calçada à sua direita, para que ambas as correntes da multidão, de sentidos opostos, não se detenham mutuamente; e, no entanto, não ocorre a ninguém conceder ao outro um olhar sequer. Essa indiferença brutal, esse isolamento insensível de cada indivíduo em seus interesses privados, avultam tanto mais repugnantes e ofensivos quanto mais esses indivíduos se comprimem num espaço exíguo.”

(ENGELS, F.; Die Lage der arbeitenden Klasse in England.)


[…] Olhai, as árvores são; as casas
que habitamos, resistem. Somente nós passamos,
permuta aérea, em face de tudo. E tudo conspira
para que silenciemos: o pudor, ou
quem sabe que indizível esperança.

(RILKE, R. M.; Elegias de Duíno)


Esta vida é um hospital em que cada doente está possuído pelo desejo de mudar de leito. Esse queria sofrer diante da estufa e aquele acredita que iria se curar do lado da janela.

Parece-me que eu sempre estaria bem onde não estou, e essa questão da mudança é uma das que discuto sem cessar com a minha alma.

[…]

Enfim, minha alma explode e, sabiamente, me grita:
“Qualquer lugar! Qualquer lugar! Desde que fora deste mundo!”


(BAUDELAIRE, C.; Anywhere Out of the World; Pequenos Poemas em Prosa)

Porque venho notando isso: a minoria se revolta por sua condição de suposta inferioridade, e a situação se inverte; uma defesa que se pautava, por suposto, na heterogeneidade cai no próprio quadro que criticava, ou, pelo menos, no avesso dele.

Estou sendo muito vago: saiamos do nível do abstrato. Fulaninho é ateu. Ateus sofrem preconceito dos crentes ignorantes (tadinhos deles, os crentes, pela ignorância, e os ateus, pelo preconceito). Então eles fundam um grupinho de repúdio à esse preconceito etc., etc. O problema é que isso evoluí até uma hora em que se nota: o preconceito inverteu-se de lado, e está tão arraigado quanto estava antes. Que absurdo! Mas esse exemplo não era exatamente do que eu tinha em mente, só me veio a ideia porque lembrei e pensei que fazia muito sentido. O que quero falar é dos caras legais, os chamados “progressistas”. Um rapaz inflamou um discurso contra fulano, pensador polêmico, porque ele é um idiota e “quer ficar pregando Deus! E ninguém além dele quer esse Deus!”. Ora, eu, como ateu, estou à margem dessa questão, mas o problema do fulaninho foi sua indignação. Minha memória me lembrou: um dia antes ele havia vindo notificar suas “preocupações sociais” e divulgar uma visita a uma escola num assentamento sem-terra. Essas coisas de gente legal e progressista. Veja que eu, como lúcido – ou cínico, escolham o que preferirem – também nada tenho a ver com essas “preocupações sociais”. O que me incomoda é fulaninho pensar que o propagandismo ideológico dele – que não é reconhecido assim, logicamente – é do bem; quem se preocupa com Deus é do mal. Quem é do bem não fuma, é vegetariano, bissexual (mas não gosta desses “rótulos de sexualidade”), adora cultura brasileira – que é maracatu, não racismo etc. etc. Muitas vezes votam na Marina Silva ignorando o fato de que o PV está no mesmo nível de “direita” (sinônimo de maldade) de, sei lá, o PSDB. Mas tudo bem, porque a Marina Silva era pobre e gosta de bichinhos e plantinhas. Enfim, enfim; são divagações. Aonde quero chegar com isso? Não sei, talvez seja isso: que a maioria das pessoas é bem burra e, sobretudo, intolerante. E que a tolerância dificilmente se encontra em gente “do bem” (tampouco a solução é virar “do mal”, fique bem claro).

Foi assim: subitamente ele apareceu, como que do nada, e me coagiu a tomá-lo entre os braços. Porque há livros que escolhemos, há livros que recebemos, há livros, também, que descobrimos; mas há, por fim, um último tipo, mais singular: aqueles que nos escolhem.

Assim foi com Noite, romance de Erico Verissimo. O Sábado se arrastava. Depois de estudar um pouco durante a tarde, saí para andar e, olhando livros à toa na prateleira de uma livraria, subitamente achei esse. A capa, cinzenta e o título – resumido, potente – chamaram minha atenção. Por fim, decidi que iria lê-lo sem falta por obra do acaso: dizia-se no prefácio que era fortemente inspirado no conto de E. A. Poe, “Man of the Crowd“, conto que eu mesmo lera naquela semana, e que recebeu comentários célebres de Baudelaire à Walter Benjamin. Não bastasse isso, havia também outra “inspiração”: Crime e Castigo. Comprei-o.

O livro, de fato, é genial. Numa cidade sem nome, mas que se parece muito com Porto Alegre, um homem se vê perdido em meio a multidão. Não sabe quem é. Sente culpa. Haveria cometido um crime? As andanças pela noite da metrópole conduziram o Desconhecido – assim Erico o nomeia – pelos mais diversos locais: passando por hospitais, velórios e prostíbulos, conhecerá a morte e sua companheira, a vida. Andança realizada do lado de companheiros nada óbvios: um Anão-Corcunda desenhista, que pode até insinuar de alguma forma Toulouse-Lautrec e o enigmático Mestre, dândi e gentleman que relaciona-se com maestria com todos.

Para fora do enredo, a narrativa desdobra-se também de modo alegórico: o homem, em meio a multidão incessante, já não sabe mais quem é. Ao contrário do enigmático senhor de Poe, ele busca na própria multidão encontrar sua face perdida, seu eu. E através das relações que estabelece, vai retomando uma memória de uma personalidade confusa, em fragmentos. Aqui a influência da psicanálise é notável: e veremos como os recalques voltam a luz: como a relação problemática com a mulher tem raízes profundas; o amor incondicional pela mãe, o medo do pai…

Nessa massa disforme que é a cidade, os papéis óbvios evanescem e, num mar de sonhos fraturados, erra temerosa a consciência. Buscamos, fadados ao fracasso, nossa identidade, nesse mar morto do impessoal.