Noite

Foi assim: subitamente ele apareceu, como que do nada, e me coagiu a tomá-lo entre os braços. Porque há livros que escolhemos, há livros que recebemos, há livros, também, que descobrimos; mas há, por fim, um último tipo, mais singular: aqueles que nos escolhem.

Assim foi com Noite, romance de Erico Verissimo. O Sábado se arrastava. Depois de estudar um pouco durante a tarde, saí para andar e, olhando livros à toa na prateleira de uma livraria, subitamente achei esse. A capa, cinzenta e o título – resumido, potente – chamaram minha atenção. Por fim, decidi que iria lê-lo sem falta por obra do acaso: dizia-se no prefácio que era fortemente inspirado no conto de E. A. Poe, “Man of the Crowd“, conto que eu mesmo lera naquela semana, e que recebeu comentários célebres de Baudelaire à Walter Benjamin. Não bastasse isso, havia também outra “inspiração”: Crime e Castigo. Comprei-o.

O livro, de fato, é genial. Numa cidade sem nome, mas que se parece muito com Porto Alegre, um homem se vê perdido em meio a multidão. Não sabe quem é. Sente culpa. Haveria cometido um crime? As andanças pela noite da metrópole conduziram o Desconhecido – assim Erico o nomeia – pelos mais diversos locais: passando por hospitais, velórios e prostíbulos, conhecerá a morte e sua companheira, a vida. Andança realizada do lado de companheiros nada óbvios: um Anão-Corcunda desenhista, que pode até insinuar de alguma forma Toulouse-Lautrec e o enigmático Mestre, dândi e gentleman que relaciona-se com maestria com todos.

Para fora do enredo, a narrativa desdobra-se também de modo alegórico: o homem, em meio a multidão incessante, já não sabe mais quem é. Ao contrário do enigmático senhor de Poe, ele busca na própria multidão encontrar sua face perdida, seu eu. E através das relações que estabelece, vai retomando uma memória de uma personalidade confusa, em fragmentos. Aqui a influência da psicanálise é notável: e veremos como os recalques voltam a luz: como a relação problemática com a mulher tem raízes profundas; o amor incondicional pela mãe, o medo do pai…

Nessa massa disforme que é a cidade, os papéis óbvios evanescem e, num mar de sonhos fraturados, erra temerosa a consciência. Buscamos, fadados ao fracasso, nossa identidade, nesse mar morto do impessoal.

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