Alteridades

Porque venho notando isso: a minoria se revolta por sua condição de suposta inferioridade, e a situação se inverte; uma defesa que se pautava, por suposto, na heterogeneidade cai no próprio quadro que criticava, ou, pelo menos, no avesso dele.

Estou sendo muito vago: saiamos do nível do abstrato. Fulaninho é ateu. Ateus sofrem preconceito dos crentes ignorantes (tadinhos deles, os crentes, pela ignorância, e os ateus, pelo preconceito). Então eles fundam um grupinho de repúdio à esse preconceito etc., etc. O problema é que isso evoluí até uma hora em que se nota: o preconceito inverteu-se de lado, e está tão arraigado quanto estava antes. Que absurdo! Mas esse exemplo não era exatamente do que eu tinha em mente, só me veio a ideia porque lembrei e pensei que fazia muito sentido. O que quero falar é dos caras legais, os chamados “progressistas”. Um rapaz inflamou um discurso contra fulano, pensador polêmico, porque ele é um idiota e “quer ficar pregando Deus! E ninguém além dele quer esse Deus!”. Ora, eu, como ateu, estou à margem dessa questão, mas o problema do fulaninho foi sua indignação. Minha memória me lembrou: um dia antes ele havia vindo notificar suas “preocupações sociais” e divulgar uma visita a uma escola num assentamento sem-terra. Essas coisas de gente legal e progressista. Veja que eu, como lúcido – ou cínico, escolham o que preferirem – também nada tenho a ver com essas “preocupações sociais”. O que me incomoda é fulaninho pensar que o propagandismo ideológico dele – que não é reconhecido assim, logicamente – é do bem; quem se preocupa com Deus é do mal. Quem é do bem não fuma, é vegetariano, bissexual (mas não gosta desses “rótulos de sexualidade”), adora cultura brasileira – que é maracatu, não racismo etc. etc. Muitas vezes votam na Marina Silva ignorando o fato de que o PV está no mesmo nível de “direita” (sinônimo de maldade) de, sei lá, o PSDB. Mas tudo bem, porque a Marina Silva era pobre e gosta de bichinhos e plantinhas. Enfim, enfim; são divagações. Aonde quero chegar com isso? Não sei, talvez seja isso: que a maioria das pessoas é bem burra e, sobretudo, intolerante. E que a tolerância dificilmente se encontra em gente “do bem” (tampouco a solução é virar “do mal”, fique bem claro).

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3 comentários
  1. Primrose disse:

    Sinto o mesmo algumas vezes!

  2. kiko disse:

    É. O Richard Dawkins é um otário. Falei.

    (na verdade eu só comentei algo para notificarem-me dos comentários recentes e dos novos artigos por e-mail.
    Ignoro se havia a possibilidade de ganhar este privilégio sem comentar.Não que seus textos não mereçam comentários…)

    Enfim, abraços

    Para ser sincero, nem considero o dito-cujo tão otário.

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