Algumas Considerações Sobre a Memória

Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

C. Drummond de Andrade


A memória de longa data tem uma estrutura curiosa. Em primeiro lugar, é sinestésica: uma música nos desperta o gosto de uma comida, o cheiro de um lugar, o rosto de uma pessoa; uma música, muitas vezes, traz toda uma situação à tona. Mas o traço mais digno de nota, que eu percebi enquanto passava algumas imagens muito antigas na cabeça, é o tom de caricatura, de tragicômico, que tudo na memória tem. Evoco alguém que conheci – e não mais vi – há muito tempo. O que surge não é um rosto definido, tampouco uma forma, uma estrutura; o que aparece é um envólucro amorfo de traços… Traços exagerados e únicos. Fulaninho tinha cabelo grande e vermelho, por exemplo – é só isso que lembrarei dele: o cabelo grande e vermelho, pairando numa cabeça ideal, platônica, de ninguém.

O passado possui algo de poderoso, de sublime. Lembranças paralisam e, por vezes, destroem a possibilidade do presente por seu caráter ideal. Sempre que me lembro de um tempo remoto sou afetado por aquela sensação vaga de nostalgia. Houveram anos de minha curta existência que, sem dúvida, foram pintados pelas cores angústia, por sofrimento e isolamento; não obstante, recordo deles com uma certa… Saudade. Como se naquela época não conhecesse eu as verdadeiras problemáticas. Tudo isso é mentira; primeiro, porque já as conhecia em certa medida; segundo, porque não existem as “verdadeiras problemáticas“, senão problemas, quase sempre com a mesma intensidade.

Mas qual a função de nossa memória? Erico Verissimo escreve, na boca de uma de suas personagens, em “Olhai os Lírios do Campo”, que “O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória.” Talvez – muito provavelmente – ele estivesse certo. Mas também, o mundo não existiria sem ela. O que constitui alguém? É a carne, envólucro da insubstancial alma? São as coisas e as pessoas que o cercam? São considerações abstratas; títulos, profissões, reconhecimento? Talvez uma pessoa seja um todo maior que todas essas partes, mas é certo postular que, sem a “cola” que as liga, a memória, o subjectum simplesmente não existe. Sei disso porque assisti a degeneração da memória de uma familiar muito próxima, por causa do Mal de Alzheimer. À época, em reflexões que eram pesadas para a idade, talvez, mas precisavam ser feitas, pensei que aquela pessoa que eu conhecera simplesmente não existia mais. Por que? A resposta era simples: havia um corpo, havia um cérebro, havia, sim, um monte de características que diziam que era a mesma pessoa. Biologicamente, a concordata era irrecusável. Quando Descartes sonda a essência insondável da cera, diz que se a derretermos, todas as características que poderíamos atribuir à cera dura já não existem mais. E no entanto ela é tão cera quanto era antes. Ouso afirmar que esse conteúdo eidético, essa essência insondável de uma pessoa, esteja de alguma forma na memória. Digo isso porque lidamos com as coisas, talvez, por causa de um modelo dicotômico: a faculdade do juízo, o bom senso; somado ao baú de lembranças – verdadeiras ou não – que nos dão uma ideia de como prosseguir, aquela sabedoria cravada à carne que não vem de livro ou professor. Isso pode soar talvez demasiado exagerado, trágico, ou qualquer coisa assim, mas há um ponto central que deve ser verdadeiro: uma pessoa que não sofreu, que não abaixou a cabeça e imaginou a impossibilidade da superação da melancolia; quem não passou por isso – quem de alguma forma nunca atravessou esse “vale de lágrimas” – é necessariamente mais imaturo, menos preparado, e menos humano. Porque é preciso ser ferido para entender o ferimento e o ferir.

P.S. Ressalto que a conclusão não é qualquer apologia à melancolia ou à depressão: mas o fruir desses estados com vistas à tornar-se melhor, como no aforisma nitzscheano.

P.P.S.

“Memóire”, por Magritte: Etéreas, irreais e sangrentas; assim são as recordações.


“Mystery and Melancholy of a Street”, de Chirico: a memória é composta de sombras evanescentes, é um cenário sempre cheio que, no entanto, está sempre vazio. Eternamente inacabado.

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6 comentários
  1. Primrose disse:

    Adorei, sério. A memória é incrível.
    Queria escrever bem e constantemente, assim como você escreve.
    Só me responde uma dúvida que nem o dicionário me respondeu quando essa palavra surgiu no meu texto. O que é eidético?

  2. Igor disse:

    Olha o dicionário, quéris. =*

    Zueira hahah, eidético é o que se relaciona à essência (no dicionário: “1. Filos. Que se relaciona com a essência das coisas.”).

    E a frequência é relativa, mas eu nem escrevo bem. ;o

  3. Primrose disse:

    Hummm. Cú doce você, ein?
    hahahaha

  4. Igor disse:

    E “cu” não tem acento. Rárárá.

  5. Guilherme disse:

    Cu doce você, hein?

  6. Primrose disse:

    Já te disse que pra mim cú tem acento e, como tenho um ego narcisista e só considero coisas minhas, ele continuará pra sempre assim, mané! hahaha
    Até o Guilherme concordou com a sua cudocice FD

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