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Arquivo mensal: outubro 2010


“A criança que eu fui não viu a paisagem tal como o adulto em que se tornou seria tentado a imaginá-la desde a sua altura de homem. A criança, durante o tempo que o foi, estava simplesmente na paisagem, fazia parte dela, não a interrogava, não dizia nem pensava, por estas ou outras palavras: “Que bela paisagem, que magnífico panorama, que deslumbrante ponto de vista!” […]”

(Saramago, J.; As Pequenas Memórias)

1. Da motivação da minha suposta insurreição “odiosa” contra a cristandade.

A) Em primeiro lugar, devo dizer que considero anacrônica toda a discussão acerca da (in)existência de um Deus antropomorfizado, nos moldes cristão, judaicos, maometanos etc. Não vejo ninguém que tome essa discussão como um verdadeiro problema e, ouso dizer, tem a mesma pertinência de um grande debate acerca da validade ou não do fetichismo africano, ou mesmo dos sincretismos entre as duas religiões. Ninguém o faz, senão com fins “antropológicos”, no segundo caso; é presumível que só se faça no primeiro por uma conjunção de fatores que não cabe a mim esmiuçar aqui.

B) Tomando a proposição anterior: por que, então, tenho eu mesmo endossado essa querela? Eu mesmo aceito de bom grado minha ignorância e minhas infinitas limitações, quando pretendo discutir, sempre viso aquele estado de comunicação ideal proposto por Habermas: almejo um entendimento sempre. Tenho notado, no entanto, que esse debate é a expressão de uma série de “patologias sociais” (no vocabulário habermasiano, já que emprestei o outro termo), que as pessoas que se propõe a discutir isso não querem chegar a uma verdade porque já tem, previamente estabelecidas, um monte de certezas das quais não arredarão por motivo algum. Assim qualquer discussão não é uma disputa de melhores argumentos, senão uma competição de egos inflados, recalques e coisas outras. Afirmo isso porque um cristão não ousa suspender sua crença, ou pô-la em dúvida, senão assumir uma postura de auto-defesa que visa, acho eu, mais do que convencer o outro, convencer a si mesmo. E o mesmo vale para o outro lado, os evolucionistas ou os que simplesmente se preocupam muito em ficar negando Deus. Concluiu Borges com sucesso que, nesses casos, o próprio Deus confundiria esses contrários, de tão semelhantes; é possível que João de Panonia e Aureliano tenham muito mais semelhanças do que diferença – se é que há alguma.

Expresso, portanto, todo meu repúdio quanto a esse tipo de debate, volto à pergunta do primeiro parágrafo: por que tenho me inserido no debate? É simples: o moralismo que paira sobre os ares brasileiros me enoja. Cada um tem para si as crenças absurdas que mais lhe aprouverem; agora, imputar como normal geral, que existe uma divindade lá que tem infinita sabedoria e bondade, mas se sente terrivelmente ofendida se duas pessoas do mesmo sexo resolvem trocar carícias, é algo que não engulo. Aliás, haja Amor!, se elas pedirem desculpas muito bem pedidas e prometerem que nunca mais farão coisas do tipo, o bondoso Regente não vai as condenar, junto a todas que não quiseram parar porque, bem, gostaram daquilo, a uma eternidade de sofrimentos inimagináveis. É, haja Amor! Que isso sequer passe pela cabeça d’alguns hoje em dia, não me incomoda tanto – só um pouco, admito, mas não o suficiente para me motivar a escrever linhas e linhas de texto -, o que me incomoda é a instrumentalização desse tipo de coisa pela política que, enfim, supõe-se que será aplicada a todos.

2. Dado o quadro, do porquê desse texto, das minhas motivações etc.

A) Não tenho interesse algum em teologia. Não creio na possibilidade da explanação do Universo – de seu início, constituição e funcionamento – imagino que possa ou não ter início e isso pouco importa. Não sou crente na razão: nem na teológica, nem na científica. Não acho válido o cartesianismo, que devamos derivar toda nossa cosmovisão de uma série de coisas, retrocedendo a uma causa primeira, que a tudo abarca e a tudo explica. Não pretendo estender esse debate porque prefiro gastar meu raciocínio com problemas que estão pouco claros para mim e que podem vir a trazer qualquer fruto.

B) Não acho que a política dê conta da vida do homem, tampouco acho que seja possível fazer o “Reino dos Céus” – esse anseio infantil – na Terra. O mundo é frio e deserto. Prefiro, no entanto, que todos possam ter suas crises existenciais bem alimentados, e se alguém se insurgir contra esse princípio, aí sim, acho justo qualquer esforço no sentido de um debate – mesmo que improfícuo -.

C) Supondo-se que tudo que eu falei esteja errado, que Deus exista e que Cristo seja sabe-se lá o que acham os cristãos que ele é. Não considero a sério essa proposição, devo deixar claro. Mas minha posição é: pouco me importa. Queimarei no Inferno mas não pedirei uma vez sequer perdão a um pai déspota e neurótico.

D) Dizem por aí que o discurso “ateu-comunista-marxista-comedordecriancinhas” é cheio de ódio. Isso, muitas vezes, é verdade. Também o é, em igual ou maior proporção, o discurso religioso: intolerante, hipócrita etc. etc. – isso ignorando qualquer estatuto ontológico, e falando apenas em “moral”.

E) Não sou niilista.

F) Não sou marxista.

G) Não sou nietzscheano.

H) Não sou ateu, o ateu de alguma forma ainda se preocupa com Deus. Nietzsche, em sua negação obstinada do platonismo, se insere no mesmo paradigma dele.

I) Não sou a favor do aborto, tampouco sou contra.

J) “Amai-vos uns sobre os outros.”

K) O Monty Python é bastante clarividente ao julgar a constituição disso tudo:

A vigília, na madrugada, é desespero;
angústia cristalizada
nas horas que a compõe.
O terror do infinito espreita quem não sucumbiu ao ocaso.

Poderá a luz, que se pressente,
levar para longe o séquito de terríveis demônios
que teimam em não me deixar?

Ignoro o futuro – o relógio bate ritmado,
mas o tempo é estático. Extático.
Os olhos fundos refletem o abismo, que contempla de volta.
Estarei fitando o abismo, ou o abismo é que olha a mim?

Anseio pelo fim do suplício.
Rastejo pelo chão e não encontro salvação possível.
Outros idolatram suas figuras de Terracota,
já não me resta mais nada senão o silêncio.
O dia não mais vem – a madrugada é uma metáfora do eterno.

Enfim, fuga: morro.
Ressuscitarei, talvez.
A aurora, avatar da fênix, irrompeu, rasgando a capa de medo da noite.

Há mais de dois mil anos atrás, na Grécia, um homem andava pela polis questionando os supostos sábios. Esse homem – Sócrates – adivinhava a ignorância de seus conterrâneos; ironizava-os, dir-se-ia que por pura diversão. Só pra encher o saco.* Terminaram por matá-lo, fazendo-o tomar cicuta. Foi odiado porque apontou incongruências em todos. Isso: ninguém estava a salvo de sua acidez. Transcorrido todo esse tempo, e ainda possuímos nossos Sócrates; mas, principalmente, ainda possuímos nossos crentes na sua própria sabedoria.

O que minhas leituras de tempos idos, recheadas de Carl Sagan, me ensinaram melhor foi o ceticismo. Claro, como bom aluno levei-as às últimas consequências: questionei a própria crença no “logos” e no discurso científico propostas por ele. Tentei – e tento – me instruir; mas quanto maior é o esforço nesse sentido, mais fica patente a cegueira que forma as doutrinas. Paralelamente, adquiri, então, um gosto excepcional: o de encher o saco. Conversando com um comunista, serei neoliberal ferrenho; conversando com um neoliberal, apontarei com veemência as contradições do capital. É verdade, seria muita pobreza intelectual e muito cinismo ficar estático no marasmo da iconoclastia; não: preciso também dos meus próprios ideais. Cuido para que eles não tomem proporções muito grandes: haja visto – maior a altura, maior a queda.

*Hão de me questionar os exegetas de Platão acerca desse suposto humor de Sócrates. Eu peço perdão, a erudição aqui não é muito mais que galhofa.

1.

Sim, amigos!, – irmãos, por que não?! – atingiu-me a luz divinal da crença Nele. Sinto, finalmente, que irrompe a aurora de minha vida, batizada nas aleluias angelicais que vibram no ar. Sim, só agora vivo realmente, porque reconheci que, sim, sou carne e alma, e só tenho um Senhor. Ah!, os tempos de lascívia e crueldade ateia, de desmesura, de maldade verdadeira… Sinto-os arder tal chaga de Cristo, enchem-me o espírito de vergonha e horror. Só porque Deus é Amor – haja Amor! – que sinto-me confiante nessa nova-velha doutrina: sim, não devo temer porque, pecador, me arrependo e beijo-Lhe os metafóricos pés; e, sim, Ele, em sua infinita Bondade há de me perdoar e acolher-me ao Seu reino celeste, onde regojizarei em meio ao rebanho de fiéis ovelhas, de felizes ovelhas!

Houve um tempo – e hoje vejo isso com a clareza e distinção digna dos céus – em que eu fui acometido por um sem número de calúnias, de mentiras desalmadas que visam tão somente a corrupção do espírito. A midiática ditadura que contamina a família brasileira em seu próprio seio… Os levantes homossexuais, abortistas, assassínos, pedófilos, ateus e, por que não?, bobocas! Mas a Palavra me ensinou a amar: amo infinitamente todos esses que compõe esses verdadeiros panteões diabólicos. Amo-os, sim, e por isso desejo apenas seu melhor: que o gay se regenere e venha a constituir uma família saudável… Brasileira! Que possa transmitir algo que não devassidão, que tenha seus filhos e sua mulher, e que tenha, também, acima de tudo o Deus pai, que o ama também. Que o ateu volte as costas para esse absurdo que é negar o evidente Pai celestial, e componha, também, uma família de servos do Senhor: que todos se deem as mãos e bradem juntos: “Hosanna! Hosanna!“.

2.

A política… Ah, a César o que é de César. Mas, convenhamos, a fome, a doença, a miséria, não são testes de nosso Regente Divino? Não são necessárias as dores para purificar o homem? Ora, é claro que são! E acrescento: pouco convém ao portador da Santíssima Fé se ocupar com tais bobagens; em verdade digo: deveria ser abolido esse tipo de debate, coisa pagã e pouco valorosa para os virtuosos de espírito, que prescindem o pão material, porque alimentam-se de pão celestial. Basta dessa ditadura estatal: absurdamente querem impor ao fiel saúde, “educação” – entre aspas porque o que é a educação senão a doutrina dos Santos Padres, que obviamente sequer é pensada no currículo demoníaco dessas escolas – etc., etc. É mister que destruamos o Estado! Prescindimos dos agentes coercitivos: quando todos os homens tiverem aceito a Cruz e a Salvação viveremos em harmonia plena; questões que dizem-se “políticas”, tais como o assassínio que é o aborto, sequer serão discutidas: o “sexo” – que hoje é lascívia e sodomia que perverte e deforma a tradição – será praticado apenas após a instituição do Sagrado Matrimônio. Reinstituição, na verdade, porque a falência desse pacto sob a Égide Divinal está constatada; hoje em dias jovens “ficam” sem saber as consequências desse ato terrível e libidinoso. No futuro, quando a Doutrina estiver cuidadosamente apregoada do Oiapoque ao Chuí, as relações conjugais serão cristãs.

Disse, uma vez, o Poeta português:

“que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.”

E, hoje ainda, a elegia pode ser aplicada à brasileira. Mas “onde mora o perigo, cresce também a salvação”, como nas palavras de Hölderlin. Finalmente um artigo decente comentando o aborto! E, porque decente, só podia terminar assim:

“Alguém, a esta altura, perguntará: “Afinal, você é contra ou a favor da descriminalização do aborto?”. Não sou nem a favor nem contra. Muito pelo contrário. Mas muito mesmo.”

(O artigo em questão foi veiculado na Folha de São Paulo, na coluna de Contardo Calligaris na Ilustrada de quinta feira, 21 de outubro de 2010.)