Emplastro Brás Cubas


Quem já leu as Memórias Póstumas conhece o miraculoso emplastro, panaceia redentora da humanidade. Só faltou – ironicamente – ser inventado.

Machado era clarividente: olho ao redor e vejo por todo lado emplastros pululando. Ele mesmo, em uma crônica, datada de 5 de outubro de 1885, fala com malícia da tal religião – tão popular nos dias de hoje, ao contrário de Machado, infelizmente – que viera corrigir todos os males que as outras não podiam: o espiritismo. No fim, ele mesmo se encontra com o Diabo, e o anjo decaído é sagaz. Diz:

“Tirou uma e mostrou-me o anúncio de um medicamento novo, o rábano iodado, com esta declaração no alto, em letras grandes: “Não mais óleo de fígado de bacalhau”. E leu-me que o rábano curava todas as doenças que o óleo de fígado já não podia curar — pretensão de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alusão ao espiritismo.”

Possivelmente nem rábano, nem fígado de bacalhau tinham poder curandeiro algum. Mas o ponto não é a medicina: é a redenção do homem em 10 passos simples. No caso, quero me referir mais diretamente à política. Uns apregoam que a Grande Revolução virá, e enfim reinará a paz, liberté, égalité, fraternité. Já outros acham bobagem o comunismo (esse monstrinho ateu que, dizem até, tem pacto com o Lúcifer em demônio; além de, é claro, matar criancinhas etc.); a verdadeira caridade é dar esmola para mendigos. Mas vejam, leitores agora já espantados com meu cinismo, não condeno a caridade nem faço apologia da desigualdade; só faço questão de atentar para minha pequenez – não como justificativa da omissão – mas como incapacidade de inventar o tal emplastro, ao invés de proclamar sua invenção enquanto uns morrem de fome. Baudelaire tinha lampejos de inteligência aguda, em seu poema-em-prosa, “Espanquemos os Pobres”, ele satiriza com acidez o tal tipinho que acredita que cada homem é culpado, e tem total condição de se reerguer, do seu destino miserável.

Quando idealizei esse pequeno texto, havia pensado numa crítica incisiva a dois opostos, que nomearia eventualmente. Chegando ao final, agora, penso que será melhor dar nomes figurativos à essas gentes: chamá-los-ei de Rábano e Fígado de Bacalhau. Os dois – que dizem ser a cura definitiva para a pobreza – tropeçam na mesma impotência dos remédios machadianos. São, de fato, o tal Emplastro do nosso ilustríssimo Brás Cubas.

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