O Mesmo e o Mesmo


Borges evoca, em “O Fazedor”, uma cartografia tão avançada que os mapas seriam de mesmo tamanho das regiões mapeadas; seriam, portanto, a própria região. Na forma de relato, a questão da possibilidade do conhecimento se coloca. Apreender algo – dominar – é engendrar uma representação atentando para os aspectos técnicos e matematizados. Nesse quesito, somos platônicos: o “cavalo em geral” é mais real do que o cavalo, indivíduo que se coloca à nossa frente, sensorialmente. A questão borgiana é que a radicalização do rigor na representação leva de uma categoria de identidade à outra. Isto é, na definição Aristotélica, “é” pode funcionar como igualdade absoluta, ou como marca predicativa da coisa ela-mesma, o que fica claro em:

a) “João é João“; Nesse caso, joão é, em todos os sentidos, João. São a mesma coisa, portanto idênticos, como o mapa.

b) “João é comandante do exército“; já nesse caso, joão não é a mesma coisa que “comandante do exército”, antes este cargo é atribuído a ele, podendo, inclusive, ser levado a outros indivíduos também. É uma característica que exige um sujeito, ou seja, não tem existência material por si.

Relaciona-se isto ao caso do cavalo: avista-se um animal. Alguém aponta e diz: “é um animal”; o rigor procede para: “é um mamífero”; depois: “é um mamífero de 4 patas”; etc.; o processo, ad infinitum, resulta em um absurdo, que é, “esse indivíduo é esse indivíduo”. (O que nos remete ao rigor científico de Deus, quando responde a Moisés: “Eu Sou Aquele que Sou“.)

A conclusão inescapável se apresenta de duas formas: a impossibilidade do rigor no conhecimento analítico e empírico, que se limita a esboçar “mapas” imperfeitos e incompletos de um mundo maior, com finalidade utilitarista; ou o absurdo da completude desse mesmo conhecimento, que resume a si próprio em uma sentença simples: “o que é, é“.

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2 comentários
  1. Primrose disse:

    Esse post é só pra ativar caraminholas nas nossas cabeças. Discussões são sempre produtivas. Espero não estar falando uma quantidade incrível de merdas :]

    Citando minha aula de Fenomenologia II:
    “O que é uma cadeira mais uma cadeira ?
    Nosso pensamento positivista diria que, oras, 1cadeira + 1cadeira são 2 cadeiras.
    Mas o que percebo é apenas a presença de uma cadeira mais uma cadeira”

    O rigor do conhecimento deve se pautar na tentativa da não-generalização ou da Representatividade em sua máxima universal?
    Como sintetizar na seguinte fórmula todo o fenômeno comportamental?
    Estímulo antecedente discriminativo –> Resposta –> Estímulo subsequente Reforçador

    As coisas são suas relações, seu inconsciente, ou a junção de suas partes?
    Devemos Explicar, Analisar ou Descrever? O que é mais avançado, mais Verdadeiro ou mais Útil ao CONTROLE do mundo que exibimos tanto ser nosso?
    Controlar com qual finalidade? Afirmando que o dito ‘louco’ é assim devido um ‘pareamento infeliz’ de estímulos e que deve ser corrigido e inserido novamente nos padrões de certo/bom/justo?
    Ao fazer isso não estou legitimando as práticas dogmáticas do meio em que vivo e que tanto critico?

    Tenho muitas outras perguntas, mas elas só fazem um grande nó na minha psique… Depois te conto.

  2. Igor disse:

    Caramba, quanta coisa! Você devia começar a escrever, também… haha Lamento não poder responder as suas perguntas. Achei que a principal, e que eu gostei muito, é essa:

    “Devemos Explicar, Analisar ou Descrever?”

    Acho que tudo; e nada também. Pode parecer vago e pseudo-sábio, mas não é: nenhum se esgota, mas a soma de todos também não resolve a ek-sistência. 😛
    No fim ficamos por aí, pensando. Mas o importante é esse: ficar por aí, pensando.

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