Matadores de Criancinhas

Somos um país conservador. Atestam isso as opções políticas históricas de nosso povo. Aqui o fascismo foi brando, e também o comunismo – Ferreira Gullar defenderia esse caráter: não o conservadorismo propriamente dito, mas essa falta de extremos no Brasil. Somos o país de Macunaíma, disse ele, mas pelo menos nunca daremos luz a um Hitler.

As eleições, que avivaram o debate público, voltam a deixar evidente esse nosso traço: a opção de “mudança” é o centro-direita do partido verde. A oposição esquerdista inexiste, passou toda para a “modernice” do tal “ecocapitalismo”. Mas o que salta aos olhos é a plataforma de lançamento da, então causa perdida, PSDBista: um apelo desesperado para o (falso) moralismo do nosso senso comum; nosso machismo, nossa hipocrisia. Pondé disse que a questão do aborto é retórica; disse que quem é pró-aborto está apenas desumanizando o feto. No texto ele também alerta para o problema da cientificidade como moral; tudo bem, até aí temos um ponto, sabemos que essa “cientificidade” não tem nada de certo, e muitas vezes descamba no terror, no fascismo, racismo etc. Basta lembrar o racismo científico e outras empreitadas europeias pela história. No entanto, por que seria o feto, a priori, um humano? Desumanizar – a palavra deixa implícito que, antes de mais nada, o feto, um dia, foi humano. Ora, no senso comum sem dúvida isto está correto. Mas qual é a tarefa do pensamento, da filosofia? Não é justamente transcender essa gama de preconceitos naturalizados, arraigados a nós por imposição? Heidegger lembra Hegel e diz: “Considerada sob o ponto de vista do saudável entendimento humano, a filosofia é, nas palavras de Hegel, o “mundo às avessas”“. Além de tudo, considerando conceitos históricos, pra muita gente o líquido seminal já continha “pequenos homenzinhos”; ou seja, o esperma já era um humano. Trata-se então de pensar a fundo sobre isso. Eu, de minha parte, não dou um parecer definitivo. Só afirmo que dou muita risada quando vejo gente falando sobre “matar criancinhas”.

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1 comentário
  1. Guilherme disse:

    Sobre a questão do apelo ao (falso; muito bem colocado) moralismo, eu me pergunto até que ponto devemos vincular nossa escolha aos nossos princípios morais etc., já que, não necessariamente por ser de determinado partido, ou ter determinada origem, ou mesmo por discursar num sentido que nos agrada, certo candidato governará de uma maneira que venha a nos agradar.
    Por outro lado, se apenas observarmos suas propostas, poderemos incorrer no erro de votar num candidato que promete mundos e fundos para ser eleito e que não aplicará tudo aquilo que prometeu, seja porque foi uma artimanha bem tramada para conseguir votos e não representa aquilo que ele deseja realmente fazer, seja porque a máquina pública e conjunto de interesses e influências que um presidente sofre não permitirá que ele logre êxito nas suas intenções.
    Ademais, não acho que estas questões sejam separadas (ideologias políticas e valores morais), e, na verdade, não creio ser possível olhar para o candidato e o partido que representa como se olha para um robô, avaliando objetivamente tudo o que ele tem a apresentar.
    Enfim, como seres humanos alçados ao poder, tudo na política me soa falso (ou pelo menos com grande potencial para isso).

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