A arte milenar de encher o saco

Há mais de dois mil anos atrás, na Grécia, um homem andava pela polis questionando os supostos sábios. Esse homem – Sócrates – adivinhava a ignorância de seus conterrâneos; ironizava-os, dir-se-ia que por pura diversão. Só pra encher o saco.* Terminaram por matá-lo, fazendo-o tomar cicuta. Foi odiado porque apontou incongruências em todos. Isso: ninguém estava a salvo de sua acidez. Transcorrido todo esse tempo, e ainda possuímos nossos Sócrates; mas, principalmente, ainda possuímos nossos crentes na sua própria sabedoria.

O que minhas leituras de tempos idos, recheadas de Carl Sagan, me ensinaram melhor foi o ceticismo. Claro, como bom aluno levei-as às últimas consequências: questionei a própria crença no “logos” e no discurso científico propostas por ele. Tentei – e tento – me instruir; mas quanto maior é o esforço nesse sentido, mais fica patente a cegueira que forma as doutrinas. Paralelamente, adquiri, então, um gosto excepcional: o de encher o saco. Conversando com um comunista, serei neoliberal ferrenho; conversando com um neoliberal, apontarei com veemência as contradições do capital. É verdade, seria muita pobreza intelectual e muito cinismo ficar estático no marasmo da iconoclastia; não: preciso também dos meus próprios ideais. Cuido para que eles não tomem proporções muito grandes: haja visto – maior a altura, maior a queda.

*Hão de me questionar os exegetas de Platão acerca desse suposto humor de Sócrates. Eu peço perdão, a erudição aqui não é muito mais que galhofa.

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