Alguns esclarecimentos acerca do debate religioso etc.

1. Da motivação da minha suposta insurreição “odiosa” contra a cristandade.

A) Em primeiro lugar, devo dizer que considero anacrônica toda a discussão acerca da (in)existência de um Deus antropomorfizado, nos moldes cristão, judaicos, maometanos etc. Não vejo ninguém que tome essa discussão como um verdadeiro problema e, ouso dizer, tem a mesma pertinência de um grande debate acerca da validade ou não do fetichismo africano, ou mesmo dos sincretismos entre as duas religiões. Ninguém o faz, senão com fins “antropológicos”, no segundo caso; é presumível que só se faça no primeiro por uma conjunção de fatores que não cabe a mim esmiuçar aqui.

B) Tomando a proposição anterior: por que, então, tenho eu mesmo endossado essa querela? Eu mesmo aceito de bom grado minha ignorância e minhas infinitas limitações, quando pretendo discutir, sempre viso aquele estado de comunicação ideal proposto por Habermas: almejo um entendimento sempre. Tenho notado, no entanto, que esse debate é a expressão de uma série de “patologias sociais” (no vocabulário habermasiano, já que emprestei o outro termo), que as pessoas que se propõe a discutir isso não querem chegar a uma verdade porque já tem, previamente estabelecidas, um monte de certezas das quais não arredarão por motivo algum. Assim qualquer discussão não é uma disputa de melhores argumentos, senão uma competição de egos inflados, recalques e coisas outras. Afirmo isso porque um cristão não ousa suspender sua crença, ou pô-la em dúvida, senão assumir uma postura de auto-defesa que visa, acho eu, mais do que convencer o outro, convencer a si mesmo. E o mesmo vale para o outro lado, os evolucionistas ou os que simplesmente se preocupam muito em ficar negando Deus. Concluiu Borges com sucesso que, nesses casos, o próprio Deus confundiria esses contrários, de tão semelhantes; é possível que João de Panonia e Aureliano tenham muito mais semelhanças do que diferença – se é que há alguma.

Expresso, portanto, todo meu repúdio quanto a esse tipo de debate, volto à pergunta do primeiro parágrafo: por que tenho me inserido no debate? É simples: o moralismo que paira sobre os ares brasileiros me enoja. Cada um tem para si as crenças absurdas que mais lhe aprouverem; agora, imputar como normal geral, que existe uma divindade lá que tem infinita sabedoria e bondade, mas se sente terrivelmente ofendida se duas pessoas do mesmo sexo resolvem trocar carícias, é algo que não engulo. Aliás, haja Amor!, se elas pedirem desculpas muito bem pedidas e prometerem que nunca mais farão coisas do tipo, o bondoso Regente não vai as condenar, junto a todas que não quiseram parar porque, bem, gostaram daquilo, a uma eternidade de sofrimentos inimagináveis. É, haja Amor! Que isso sequer passe pela cabeça d’alguns hoje em dia, não me incomoda tanto – só um pouco, admito, mas não o suficiente para me motivar a escrever linhas e linhas de texto -, o que me incomoda é a instrumentalização desse tipo de coisa pela política que, enfim, supõe-se que será aplicada a todos.

2. Dado o quadro, do porquê desse texto, das minhas motivações etc.

A) Não tenho interesse algum em teologia. Não creio na possibilidade da explanação do Universo – de seu início, constituição e funcionamento – imagino que possa ou não ter início e isso pouco importa. Não sou crente na razão: nem na teológica, nem na científica. Não acho válido o cartesianismo, que devamos derivar toda nossa cosmovisão de uma série de coisas, retrocedendo a uma causa primeira, que a tudo abarca e a tudo explica. Não pretendo estender esse debate porque prefiro gastar meu raciocínio com problemas que estão pouco claros para mim e que podem vir a trazer qualquer fruto.

B) Não acho que a política dê conta da vida do homem, tampouco acho que seja possível fazer o “Reino dos Céus” – esse anseio infantil – na Terra. O mundo é frio e deserto. Prefiro, no entanto, que todos possam ter suas crises existenciais bem alimentados, e se alguém se insurgir contra esse princípio, aí sim, acho justo qualquer esforço no sentido de um debate – mesmo que improfícuo -.

C) Supondo-se que tudo que eu falei esteja errado, que Deus exista e que Cristo seja sabe-se lá o que acham os cristãos que ele é. Não considero a sério essa proposição, devo deixar claro. Mas minha posição é: pouco me importa. Queimarei no Inferno mas não pedirei uma vez sequer perdão a um pai déspota e neurótico.

D) Dizem por aí que o discurso “ateu-comunista-marxista-comedordecriancinhas” é cheio de ódio. Isso, muitas vezes, é verdade. Também o é, em igual ou maior proporção, o discurso religioso: intolerante, hipócrita etc. etc. – isso ignorando qualquer estatuto ontológico, e falando apenas em “moral”.

E) Não sou niilista.

F) Não sou marxista.

G) Não sou nietzscheano.

H) Não sou ateu, o ateu de alguma forma ainda se preocupa com Deus. Nietzsche, em sua negação obstinada do platonismo, se insere no mesmo paradigma dele.

I) Não sou a favor do aborto, tampouco sou contra.

J) “Amai-vos uns sobre os outros.”

K) O Monty Python é bastante clarividente ao julgar a constituição disso tudo:

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14 comentários
  1. Kikinho disse:

    Bocinha causando!

  2. LM disse:

    – Os ateus… eu já tive medo deles — começou Makar. — Mas isso foi há algum tempo. Logo descobri que não passam de uns pobres coitados atrapalhados. Existem ateus de todo tipo: ricos, pobres, ignorantes, estudiosos… Alguns passam a vida toda lendo livros e procurando respostas e, quanto mais leem, mais se perdem em perguntas e não conseguem decidir nada. Outros não se dão conta de nada além de si, e nem mesmo de si; outros ainda só querem saber de farra, vivem na leviandade e não conhecem a sensibilidade. De um modo geral, são todos indecisos, atrapalhados, e procuram um sentido, uma razão nas coisas mais diversas, nos lugares mais recônditos. Alguns interpretam tudo o que veem, ou leem apenas aquilo que lhes convém, que se encaixe em sua filosofia particular. Há ainda um grande tédio. O homem do povo come o pão que o diabo amassou, dorme sobre uma cama de palha e ainda assim está alegre, encontra beleza ao redor. O rico se enche de comida e bebida, consome o bom e o melhor, regozija-se… mas vive entediado. O estudioso já caminhou por todas as ciências, mas vive afogado em tédio. Por que, vocês me perguntam? Porque não conseguem enxergar a simplicidade da beleza ao redor. A beleza está no mundo, e eles não a enxergam! Não querem, pois não estão dispostos a viver Deus e as agruras que isso representa. Negam a luz sem saber; mas o homem não vive sem se curvar, se ajoelhar. Então eles procuram um ídolo para respeitar e admirar, mesmo que seja imaginário. São idólatras, não ateus! Mas sei que há os ateus de verdade, e esses são muito mais perigosos, pois se fingem de filhos de Deus. Um ateu desses eu nunca encontrei, mas eles existem.

    — Fala de Makar Ivánovitch, o sábio ancião de “O Adolescente”, de Dostoiévski.

  3. Igor disse:

    Bom texto. Eu faria algumas considerações:

    Isso aqui define muito mais um religioso – ou um ateu obstinado em negar deus, já que são semelhantes, como eu mesmo já disse antes -, do que alguém que não se preocupa com Deus ou deuses:

    “De um modo geral, são todos indecisos, atrapalhados, e procuram um sentido, uma razão nas coisas mais diversas, nos lugares mais recônditos. Alguns interpretam tudo o que veem, ou leem apenas aquilo que lhes convém, que se encaixe em sua filosofia particular.”

    Depois há uma idealização do “homem do povo” meio ingênua. Não, não é de puras alegrias que vive o “homem do povo”; não é sem dúvidas, nem nada desse tipo. Esse homem é, em última instância, homem – também é atormentado etc. etc. Depois, elogios da ignorância são sempre confusos – ora, se pensar causa mal, melhor seria nem ter nascido; não ter nascido e se comportar como um tolo (até porque isso não existe: ninguém acredita em papai noel forçosamente, porque acha que sua vida seria melhor se o fizesse).

    Você, mesmo, não acredita nisso. Se acreditasse não estaria lendo Dostoiévski; estudando literatura, filosofia.

    De qualquer forma, eu insisto em não me enquadrar em “ateu”, justamente por um ponto desse diálogo, e que Chesterton notou bem: que o problema não é não acreditar em Deus, mas que isso geralmente acarreta uma outra fé em outra coisa qualquer. Sim, é verdade; mas não vejo como isso de modo algum justifica a fé “originária”. Mas enfim, como fiz questão de dizer, não acredito em ciência, ou qualquer coisa do tipo: não vamos elucidar o universo, apologias às “coisas simples” não levam a um Deus cristão, nem a nada disso. Temos, é verdade, que acreditar em algo. Acreditemos então nas pessoas: não numa bondade irreal, nem numa ingenuidade purificadora; acreditemos, simplesmente, que somos uns bichos amedrontados e que, no fim, não possuímos tantas diferenças assim. Morreremos da mesma forma.

  4. Igor disse:

    Ah, e Lorena, você não acredita em Deus. Digo isso com convicção: sua fé é no Dostoiévski.

  5. LM disse:

    O que prova que você tem, talvez, convicções em excesso. Dostoiévski foi uma das chaves – a principal, é verdade – que abriram para mim o significado real de Deus, mas ele não teria surtido qualquer efeito se eu não tivesse experimentado Deus em minha própria vida. Sim, eu acredito em Deus — pode me riscar da sua lista de pessoas legais. Ainda tenho muitas dúvidas, o que aponta para a complexidade disso que não podemos simplesmente chamar de “um assunto”.

    Espero que você tenha uma vida farta e que nunca perca o interesse pelos significados do mundo.

    Bye-bye.

  6. LM disse:

    Admito que fiquei irritada. Como é que se pode falar com “convicção” sobre a fé dos outros? Mas eu não deveria ter ficado irritada. Me desculpe.

  7. Igor disse:

    Eu é que estou irritado, irritadíssimo na verdade, mas não é com você, é o rumo que isso tudo tomou. Perdão se te ofendi de alguma forma, não foi a intenção. Falei com ‘convicção’ da sua fé, embora tenha sido mais uma ironia, uma provocação, do que uma coisa séria, propriamente dita. Você se irritou, provavelmente com razão. Agora, veja, TODO o tempo falam com convicção sobre mim; que eu não entendo o que é isso ou aquilo, que eu não sei isso ou aquilo, que eu falo tal coisa por causa da idade, ou da influência. Foi, sim, uma besteira minha o comentário último ali, mas não foi nada inédito, também.

    Mas tanto faz, já percebi que falar o que se pensa pode ser muito problemático. Você falou “pode me riscar da lista das pessoas legais”, como se isso não acontecesse comigo o tempo todo, por causa dessa intolerância; e vale lembrar que eu NUNCA acreditei em Deus, e nem por isso desconsiderei qualquer pessoa que o fizesse. Que as minhas críticas – recentes – sobre a coisa são só motivadas pela ignorância e o narcisismo. E, sim, eu acho ignorantes e narcisistas diversos comentários “religiosos”, assim como você acha ignorante meu entender da religião (que eu não entendo o que seja, ou que seja uma coisa que diferente da que eu penso). E não acho isso por serem religiosos; gosto de muitos escritores católicos, como você bem o sabe. Então não faz sentido toda essa coisa de “pessoas legais” sendo que o preconceito parte do outro lado, e o que eu fiz foi “revidar”, da pior maneira possível, talvez, porque, por não ser cristão, não acredito nessa coisa de “dar a outra face”. Pelo menos meus ideais se alinham com minhas ações, no caso.

    E, fim: isso aqui – o post – era JUSTAMENTE para encerrar essa discussão antes que algo do tipo acontecesse. Porque não tenho o mínimo interesse nela, e sei, por experiência, que estressa todo mundo; porque todos levam esse tipo de coisa pro pessoal. Assim como aconteceu. Que fiquem bem claras minhas motivações, e agora vocês podem me incluir na lista dos acadêmicos idiotas – embora eu mesmo deteste a academia – ou esquerdistas lunáticos; não importa mais, mesmo. Tanto faz.

  8. LM disse:

    Calma, moço. Essas conversas são espinhentas, mas têm seu potencial de utilidade. Não acho que “tanto faz” no que diz respeito ao que tiramos delas. Nem estou ofendida de algum modo. Repito que precisamos nos juntar em um momento mais apropriado para botar todos os assuntos em dia… por aqui, não rola.

    Bater de frente é bom, reforça as relações.

    Beijo

  9. Igor disse:

    Minha belíssima namorada me exortou a vir aqui pedir desculpas menos irritadas pra ti… hahah. Mentira, nós só discutimos tudo isso e eu achei apropriado já que me estressei à toa. Então… Sorry. E concordo contigo. Até breve. =p

  10. Primrose disse:

    Ei! Eu não te exortei a fazer nada!
    Mané! =P

  11. Guilherme disse:

    caralho, seu niilista /fiu

    Já que eu cheguei tarde pra discussão (e como você aparentemente nem tinha essas pretensões né), me ensina como botar o link do blog no nome que eu esqueci =P

  12. Igor disse:

    Vai no “users”, depois em “personal settings”. Vai ter uma opção, lá pra baixo, “website”. Aí você bota o endereço do seu blog novo aí. E muda também o “primary blog” pra esse. 😛

    • Guilherme disse:

      você deveria fazer isso, inclusive.

  13. Igor disse:

    Nah, o meu tá errado propositalmente.

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