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Arquivo mensal: novembro 2010

É preciso admitir que a guerra contra as drogas fracassou e que as consequências “indesejadas” dessa luta foram desastrosas na América Latina. Por isso, continuar com esse combate é ridículo, afirma o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em artigo publicado neste domingo (6/9) pelo jornal dominical britânico The Observer.”

(6/9/2009) – Fonte.

Como ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: “ama teu próximo” é uma hipocrisia. “Conhece-te” é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. […] Eu falo sempre de mim já que não quero convencer, eu não tenho direito de arrastar outros em meu rio, eu não obrigo ninguém a me seguir e todo o mundo faz sua arte à sua maneira, se ele conhece a alegria que sobe em flechas para as camadas astrais, ou a que desce das minhas de flores de cadáveres e de espasmos férteis.

(Tristan Tzara; Cabaret Voltaire, Manifesto Dadá)

Tinha o hábito de jantar, às vezes, em uma padaria perto de casa. Pois bem, de uns tempos pra cá, deu no dono de gostar de arte. Primeiro brotou, numa parede escondida no fundo, uma cópia horrenda do Narciso de Caravaggio. A pintura é péssima, parece que o autor colou uma impressão da original e deu algumas pinceladas por cima. O importante é que, algum tempo depois, apareceu um quadro instigante. Primeiro, porque a técnica de cópia, dessa vez, parecia que de fato era uma impressão com pinceladas por cima: alguns trechos eram quase “pixelados”. Além do que, a pintura era um surrealismo ungido de mística medieval – estranhíssimo e instigante. Por algumas vezes contemplei o quadro de perto, me perguntando o que seria. Sugeriram-me que podia ser Dalí. Procurei, e não era. Desisti da busca quando desisti da padaria – que insistia em colocar no cardápio coisas que nunca haviam lá.

Dia desses baixei no “um que tenha” um album do Oswaldo Montenegro cujas músicas eram inspiradas em pinturas. Ouvindo, de repente achei uma muito interessante. Fui ver o nome: “O Jardim das Delícias”. Procurando na internet achei-a: um tríptico (painel triplo) com uma alegoria bizarra de uma interpretação bíblica. O primeiro quadro, na esquerda, Deus – representado como um homem de barba e túnica avermelhada – benzia Eva sob os olhos atônitos de Adão. Ambos nus. Alguns animais estranhos enfeitavam o Éden, dentre eles um peixe-pato que lê com interesse um livro (seria um pensamento metafisicamente interessante imaginá-lo lendo a Bíblia). Afora os animais mitológicos, não há muito interesse nesta parte. Já a central, consideravelmente maior que as outras, é fantástica. Cheia de homens, mulheres, monstros e morangos gigantes, a cena retratada parece um Procurando Wally orgiástico. Os seres humanos que enchem a região fluvial, todos nus, experimentam uma espécie de comunhão erótica com a natureza, travestida da mais pura inocência. As alusões sexuais são todas pintadas sem qualquer malícia, e mais parecem brincadeiras. Em algumas delas posso até imaginar Bosch rindo enquanto pintava; esta por exemplo:


[“mas que belo vaso!”]

Fica difícil achar qualquer maldade nisso, mas a terceira parte vem para sentenciar que alguém não se agradou com toda a festa. Era o quadro da esquerda, aquele mesmo que eu havia visto na padaria, que revelava as aspirações mórbidas de seu dono: a representação era do inferno (ou seria o Juízo Final? Confesso que não saberia precisar), a vingança por toda a libertinagem sem consequências do meio. A inventividade do pintor era sem igual, para retratar os tormentos sofridos pelo homem, compôs um negro cenário cheio de objetos musicais e utensílios variados. Veem-se: homens com patins de gelo, uma espécie de lagarto grávido que brande um tabuleiro de gamão, um alaúde gigante, um par de orelhas gigantes perfurados por uma flecha (estaria aí a invenção do piercing?) e entrecortados por algo que só poderia dizer ser uma prancha de surfe etc. Também, nota-se a predileção de Bosch por enfiar coisas no reto, não bastasse as tentativas jocosas no painel central, desta vez as cenas são menos agradáveis.


[separados no nascimento?]

Brincadeiras à parte, o painel é bastante interessante. Vale uma olhada cuidadosa, que pode ser feita aqui, nesta versão gigante. A sugestão, principalmente para o painel do meio, é vê-lo ouvindo o tema de Oswaldo, composto para ele. Coloquei-o disponível aqui.

Contudo, o homem nem sequer poderá experimentar e pensar este recusado enquanto vaguear em torno da simples negação da era. Misturada de humildade e de arrogância, a fuga para a tradição nada consegue, tomada por si mesma, a não ser o fechar de olhos e a cegueira diante do instante histórico.

Só no perguntar e configurar criadores, a partir da força da meditação genuína, é que o homem saberá, isto é, guardará na sua verdade, aquele incalculável. Essa meditação descola o homem vindouro para aquele Entre no qual ele pertence ao ser e, no entanto, permanece um estranho no ente.

(HEIDEGGER, Martin; A Época da Imagem de Mundo)

À mesma destinatária do Nº 1, que ganha esse anonimato dada a minha ignorância relativa a ordem dos M e do F (que um dia, espero, será remediada).

Cara, eu fico pensando nisso às vezes. Me dá um certo desespero ver como mudo constantemente, como pulo de uma coisa para outra em tempos ínfimos. Assim, tudo que eu começo já tem, de antemão, uma fantasmagoria latente. Eu seguro as coisas como fantasmas, já que a experiência me diz que elas não duram muito (por culpa minha, na maioria dos casos). Minha inconstância me aflige. Mas talvez – talvez, quem sabe – ela seja só um sinal de que eu ainda não havia achado uma paixão com a força suficiente para me manter a ela atrelado.

Mas talvez agora eu a tenha achado. E isso que eu escrevi, além do óbvio caráter auto-analítico, foi também uma espécie esquizofrênica de declaração de amor.

P.S.: Esse texto foi originalmente publicado (com apenas algumas sutis diferenças) como resposta ao excelente post do Guilherme, aqui (espero que não se incomode da citação do seu blog recôndito, até porque eu também não tenho muitas visitas).

Pensando, relendo meus textos, conversando e ouvindo outros, me ocorreu algo que não tinha pensado sobre meus textos e esse blog. É que de certo modo, me parece que talvez eles falem mais sobre mim do que sobre os assuntos que se propõe a falar. Claro, toda obra é um pouco autobiográfica; acho que as grandes obras são aquelas em que as dores do autor se confundem com os anseios da própria humanidade.

Tendo constatado isso, por um momento considerei subverter a ordem de comentários sobre assuntos e tornar este espaço mais pessoal. Essa consideração foi breve e logo depois a descartei. Acho que não me sinto disposto a publicar angústias muito íntimas para quem quiser vê-las. É um conteúdo muito valioso e delicado, e me sentiria irremediavelmente exposto fazendo-o. É em parte por isso que eu não mantenho perfis em redes sociais. Poderia também mascarar essas coisas sobre metáforas cruas, fazendo fábulas de meus tormentos. Mas rejeito isto porque essas máscaras são sempre tolas e não tem muito valor, me parecem só formas de esconder o que se sente em forma de (má) literatura. Freudianamente isto estaria errado, já que toda arte – a má e a boa – é sublimação de desejos reprimidos. Não sei se concordo com Freud nesse quesito.

Enfim, o propósito desse post é só externar essa constatação, de modo a me purgar desse demônio que vinha me atormentando: o de ver minha face em todos os quadros que pinto. Até mesmo nas naturezas mortas.