Rastros de Ódio – Algumas Considerações Políticas


Eu gostava – gostava, no passado – da coluna do Pondé quando ele falava de filosofia, literatura; gostava de ler seus comentários sobre Dostoiévski, Kafka e Beckett. É uma pena que, como vem acontecendo recentemente, ele tenha passado a ser mais um desses apologistas do conservadorismo ignorante. Não digo que tudo que é chamado “conservadorismo” é ignorante – seria ignorância minha! -; é ignorante quando se torna um discurso arrogante, direcionado não para uma discussão, mas para promover o ódio entre alguns. Digo isso porque leio religiosamente a tal coluna; recentemente o nível do debate é esse: “sou contra o aborto E falo línguas”. Sim, a questão não é ser contra o aborto – é sê-lo e ressaltar uma suposta intelectualidade que é usada de escudo. Não é de “bom tom” ser contra o aborto, isso é verdade; mas também é verdade que esse tipo de defesa não tem um alcance muito grande. Alguns ressentidos devem ter vibrado: “sim, nosso time tem intelectuais!”

Endossar uma querela desse tipo é mais fácil do que realizar um exercício de pensamento. É o que acontece na defesa do republicanismo americano. Obama era um falso messias, e o momento de fraqueza de seu partido, revelado pelas eleições de 2010, torna o ataque perfeito. É claro que a uma política dicotômica “bem e mal” é sempre ignorante. É o que acontece no meio político Brasileiro; onde, é bom ressaltar!, o mal não é o PSDB: cada lado elege o outro como representante de Lúcifer. Assim, já há um primeiro deslize quando Pondé afirma que o partido Republicano é estigmatizado como mal; ora, é óbvio que, para um lado, eles sejam de fato; assim como são malignos os Democratas aos olhos de outra ala da população. Se não fosse isso, nem haveria disputa. Mas, é claro, ele faz referência ao meio “intelectual”, que taxa de ignorantes e reacionários os defensores da “mais pura mentalidade americana de amor à liberdade”. O Tea Party – movimento que ganha força com o tempo – não é reacionário, é um “grito histérico” contra o “socialismo” (que é “obrigar os produtivos a pagarem a conta dos preguiçosos”). Acreditar nisso, isso sim, é ingenuidade; que os “produtivos” pagam a “conta dos preguiçosos”. A constatação de uma suposta meritocracia é uma piada de mal gosto para o “bom senso”; não é ideologia, são números e constatações factuais. Num país onde poucos podem pagar o ensino superior, como falar em livre competição? Sim, existem as bolsas para alunos excepcionais etc., mas isso é irrisório. Um sem número de outros, por não serem superdotados (ou coisa que o valha) ficará de fora da “saudável disputa” simplesmente porque não tem como arcar com o handicap do outro lado. Mesmo no Brasil, onde as principais universidades são públicas, como falar em mérito dos estudantes? É só parar e olhar quantos alunos de classe C frequentam a faculdade de medicina da USP. Adianto: será muito difícil encontrar um sequer, e isso não tem nada a ver com ser “preguiçoso”. Argumentar que “Se os republicanos são tão “maus”, por que tantas mulheres e negros são republicanos nos EUA?” também dista muito de um pensamento crítico. São inúmeros os escravos que, ao receberem alforria, tratavam de comprar escravos para si.

O mito do “self-made man” é uma espécie de mote para muitos. “Vencer”, eis o que almejam os homens. Todos deviam ter, em casa, aquele quadro que retrata Napoleão retirando a coroa da mão do Papa: sagrado imperador pelo próprio esforço. Não consigo entender como isso legitima a desigualdade evidente que mata uns de fome, enquanto outros voam de helicóptero. Seriam todos aqueles que morrem de fome “preguiçosos”, e o rico, um grande esforçado? Me parece pouco razoável afirmar algo desse tipo: é bem claro que riqueza se constrói em cima de riqueza, e que o monopólio devasta qualquer ilusão sobre uma benevolente “livre concorrência”. E, acrescentaria, é legítima tal riqueza? Não se trata de colocar todos no mesmo patamar – o que é uma frequente crítica às orientações “de esquerda” – mas, que todos tenham o que comer, saúde decente etc., me parece o mínimo que pode ser feito. Dizem que a direita prega a liberdade individual, enquanto a esquerda, a sujeição à padronização mortificadora estatal; será mesmo um atentado à liberdade que todo homem tenha direito a um hospital decente? E, além de tudo, me parece extremamente ilógico que o grupo que faça a defesa da liberdade seja contra o casamento homossexual – não, isso não é uma imposição (“todas as crianças deveram ser homossexuais”, temem alguns), mas só a liberdade de alguns de se unir. Mas isso tudo deve ser aterrador mesmo aos olhos desses homens esforçados e de bem. Também não acredito que um engenheiro trabalhe e se esforce muito mais do que um professor de alguma escola na periferia; não obstante, o abismo financeiro entre as duas carreiras é por demais evidente. Repito: é possível falar em mérito, em esforço?

Alguns julgam que a mudança sistêmica no modo de produção é uma hipocrisia, um delírio. Dentre estes, alguns dizem que a saída é a caridade individual. Dar comida e roupas para moradores de rua é a medida mais efetiva para erradicar a miséria; com o devido apoio eles podem se reerguer e, enfim, “vencer”. Me pergunto o que é “vencer”, espero que não seja aceitar um emprego de faxineiro ganhando um salário mínimo e passar o resto da vida de cabeça baixa. No entanto, mesmo que a proposta fosse positiva, é bastante ingênua. O desemprego sistêmico não se resolve ajudando pessoas individualmente: ninguém erradicará a pobreza assim porque, evidentemente, existe um número limitado de empregos no mercado. E pouco importa se é fulano ou ciclano que o ocupará: um deles ficará desempregado. Creio eu que não é muito difícil de enxergar que uma economia problemática não é resultado da falta de amparo de alguns, da falta de carinho e roupas que os constrange a não “correr atrás dos seus sonhos”.


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1 comentário
  1. Mas olha, eu costumava ler sobre filosofia, literatura aqui… e agora eu vejo mais uma, digamos, “materialização” dos conceitos filosóficos que você domina em discursos políticos. Você utiliza seus paradigmas e verdades (ainda que você admita a refutabilidade destas; quero acreditar nisso) para justificar, ou pelo menos tornar viáveis, seus pontos de vista, seus ideais.
    Haha, não é uma crítica e nem estou te comparando com Pondé. Foi só uma provocação mesmo. Eu não o leio, mas ele parece padecer do mesmo mal que qualquer doutor ou especialista em sua área está sujeito. A de querer tratar todas as questões a partir da perspectiva das verdades de sua área de atuação, e, para além disso, de sua própria opinião pessoal, transmutando-se de “Pondé – filósofo” para “Pondé – pessoa”.
    Sei lá, é o que eu enxergo a partir da sua análise.

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