O Avesso e o Direito – Ou Pelé, Platão e Nietzsche


A Filosofia é dona de uma história. Ou, talvez, sua história seja sua dona: a relação não é clara. Claro está, no entanto, que o cânone filosófico não é uma escolha ingênua ou desinteressada. Heidegger aponta como fundamental a escolha do projeto cartesiano na fundação da subjetividade moderna; estava ali, nas Meditações Metafísicas, toda a essência do que viria a se tornar o projeto científico moderno. Nossa história estava inscrita nas entrelinhas do livro. E tomar para nós esse projeto, esse destino, foi uma escolha – não alguma intuição meramente progressista do pensamento. Haviam opções, que conduziam a caminhos, Descartes era apenas uma delas, um caminho.

Já Michel Onfray argumenta que a filosofia tem uma história, e, semelhante a história das civilizações, ela foi escrita pelos vencedores. Platão é um marco de nossa queda para o idealismo, sacramentado na religião cristã (e na Budista), enterrou toda uma outra gama de possibilidades mais ligadas ao que se chamaria de “materialismo”. Espinoza e Nietzsche seriam sobreviventes do crivo histórico-idealista; aliás, o segundo já era um severo crítico de nosso legado platônico-cristão. Uma crítica interessante ao projeto de Onfray, o de escrever uma contra-história da filosofia, é a do professor Pedro Duarte de Andrade (UFRJ e PUC Rio). Ele aponta para o erro que é incorrer numa separação dicotômica, e ainda mais na ideia de poder erguer, de ar e vento, uma nova tradição – a dos vencidos -. Diz ele:

“No coração de nossa tradição, e não apenas nas suas periferias, pulsa a vida que, no momento de esgotamento da organização tradicional do passado, pode ser redescoberta. Mas não o será se ficarmos reféns de dualidades simplistas que tentam facilitar a priori o trabalho de separar o joio do trigo, quando precisamos é do mergulho paciente e profundo no oceano, capaz de nele achar pérolas.”

Essa argumentação não seria totalmente original; o próprio Heidegger diria, para o horror dos nietzscheanos, que, em sua negação obstinada do platonismo, Bigode ainda habitaria a metafísica: a diferença é que tinha trocado o lado da moeda, um quase inócuo cara e coroa.

É algo relativo ao senso comum – e a uma espécie de pensamento fundante primitivo, como nota Levy-Strauss – enxergar as coisas em pares opostos. Falta-nos o olhar oriental do Ying Yang, ou, quem sabe, faltasse um Pelé na história da filosofia (como sugeriu Luiz Guilherme Piva, que não obstante incorreu no mesmo erro da categorização binomial).

Já eu não não sei de nada. Por vezes fico tentado a escolher um dos lados: e essas tentações, geralmente, são erros do pensamento. Por isso, intuo que o mais correto – e menos reducionista, claro – seja a organização fluida e dispersa das ideias. Um projeto de desconstrução? Talvez.

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1 comentário
  1. Gostei do bigode. Sobre isso, uma amiga que conheci aqui nos primeiros dias, disse chamar Hittler de ‘tio do bigode’ para que os alemães não a entendam. A primeira vez que eu ouvi, achei que era o Bigode de que você estava falando. Então ficou assim a conversa: “lá em cima, no Philosophenweg [caminho dos filósofos], tem um teatro do tio do bigode” “quem?” “tio do bigode” “não sabia que Nietzsche era arquiteto” “Quem?” “Nietzsche”.

    Afora a piada, te proponho a questão que colocada para os alunos do primeiro ano aqui da faculdade, valendo prêmios em centenas de euro: existe conceito sem história?

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