Realismo\Subjetivismo e Desdivinização


Li uma pequena coluna, que julguei bem escrita e, digamos, boa. Falava sobre a perspectiva de Chesterton, opondo a tradição idealista da filosofia a um realismo aristotélico. Não vou falar muito mais sobre o artigo, ele fala por si e está disponível aqui.

Embora tenha achado bom de modo geral – o articulista escreve bem, obviamente leu bastante e tem alguma propriedade para falar do que fala – não pude deixar de discordar, ou pelo menos colocar em questão, alguns pontos.



I



É difícil valorar nosso contato com o mundo. A própria construção da frase denuncia que nos julgamos separados dele: “nosso contato com o mundo”; nós, substância pensante; e o mundo, aquele entorno que se nos apresenta. Isso não é uma forma “natural” de pensar, não é óbvia: é uma escolha. Escolha que habitualmente é atribuída ao projeto cartesiano. Ao separar sujeito e objeto, o próprio coração de nosso pensamento estava abalado. Mas será que essa foi uma mudança tão radical? Será mesmo que Aristóteles era tão avesso ao egocentrismo do sujeito de Descartes? Às vezes, a impressão que tenho é que o realismo, como defendido pelo autor, é mais arrogante do que o subjetivismo, isto é, porque se propõe a elucidar o mundo sem perceber que isso está sendo feito de uma perspectiva. Isso na verdade são só apontamentos, a verdade é que não tenho condição (ainda, talvez) de falar com mais segurança sobre algumas destas coisas. Fica apontado só como dúvida.


II

Não sei se concordo que essa necessidade impulsiva de tentar elucidar todos os mistérios do universo seja maníaca e vil. Sem dúvida é perigoso; coisa que os gregos já adivinhavam: está registrada n’O Édipo de Sófocles como o conhecimento – e, sobretudo, a verdade – podem trazer horror e desgraça ao mais virtuoso dentre os homens. Isso não é uma defesa do obscurantismo, é só uma postura não ingênua frente ao conhecimento técnico do mundo. Ele não é um “progresso”, tampouco veio para nos redimir das “trevas”.

Dito isso, como encarar o sublime que nos espreita? Mesmo que quiséssemos, o bom senso nos apontaria a nossa incapacidade de resolver tudo. O poético é um alternativa? Não gosto de pensar assim, porque, ao meu ver, fica o poético reduzido a uma segunda categoria de tapa-buracos. O poético é uma produção, assim como uma máquina; é um colocar-se do homem no mundo. Mas não é – ou, ao meu ver, não deve ser – uma teoria do real; sobretudo não deve ser uma teoria. Teoria é um fechar-se; a arte, a poesia, devem ser um abrir-se. Julgo, então, que é um erro maior tentar institucionalizar a dimensão “estética” (não sei se cabe a palavra, ela me veio na falta de algo melhor: refiro-me às sensações, a qualquer espécie de comunhão pressentida, enfim, de um contato originário com o entorno). Míchkin, n’O Idiota, fala que os ateus sempre parecem estar falando de “outra coisa”. Na minha compreensão, isso é simplesmente o reconhecimento de que o discurso lógico-científico estaria tentando elucidar o campo do que transcenderia essas categorias – o campo do divino. Ora, se por um lado isso é bastante razoável; por outro, não me parece consistente o tal divino manifesto numa ortodoxia – com regras rígidas, dadas, supostas explicações racionais. Esse “divino” pode ser, sim, abalado pelo discurso racional porque ele mesmo já se pretende esse alcance. Não é mais um contato direto com o mundo, senão uma explicação como outra qualquer. Podem elas se confrontarem, o que, a experiência me diz, é totalmente infrutífero, entediante etc., etc.

Acho que essa visão se alinha, na medida do possível, com o pensamento expresso por Heidegger em “O Tempo de Imagem de Mundo”. Ele diz:

Um quinto fenómeno da modernidade é a desdivinização. Esta expressão não visa a simples eliminação dos deuses, o ateísmo grosseiro. A desdivinização é o dúplice processo de, por um lado, a imagem do mundo se cristianizar, […], por outro lado, o cristianismo transformar a sua cristianidade numa mundividência (a mundividência cristã) e deste modo, se modernizar. A desdivinização é o estado de ausência de decisão sobre o deus e os deuses. Ao cristianismo cabe a maior parte no seu despontar. Mas a desdivinização não só exclui religiosidade, como é até só através dela que a relação aos deuses se transforma na vivência religiosa. Ao chegar-se aqui, é porque os deuses fugiram.” (Caminhos de Floresta; p. 98)

Portanto, concordo com Chesterton quando ele diz:

O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo no qual ele possa se expandir. O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto que o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar”.

Não acho, no entanto, que devamos legar ao ilógico mais do que ele mesmo. A tentativa de escravização do sublime acaba sendo a própria morte deste.

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