O Jardim das Delícias

Tinha o hábito de jantar, às vezes, em uma padaria perto de casa. Pois bem, de uns tempos pra cá, deu no dono de gostar de arte. Primeiro brotou, numa parede escondida no fundo, uma cópia horrenda do Narciso de Caravaggio. A pintura é péssima, parece que o autor colou uma impressão da original e deu algumas pinceladas por cima. O importante é que, algum tempo depois, apareceu um quadro instigante. Primeiro, porque a técnica de cópia, dessa vez, parecia que de fato era uma impressão com pinceladas por cima: alguns trechos eram quase “pixelados”. Além do que, a pintura era um surrealismo ungido de mística medieval – estranhíssimo e instigante. Por algumas vezes contemplei o quadro de perto, me perguntando o que seria. Sugeriram-me que podia ser Dalí. Procurei, e não era. Desisti da busca quando desisti da padaria – que insistia em colocar no cardápio coisas que nunca haviam lá.

Dia desses baixei no “um que tenha” um album do Oswaldo Montenegro cujas músicas eram inspiradas em pinturas. Ouvindo, de repente achei uma muito interessante. Fui ver o nome: “O Jardim das Delícias”. Procurando na internet achei-a: um tríptico (painel triplo) com uma alegoria bizarra de uma interpretação bíblica. O primeiro quadro, na esquerda, Deus – representado como um homem de barba e túnica avermelhada – benzia Eva sob os olhos atônitos de Adão. Ambos nus. Alguns animais estranhos enfeitavam o Éden, dentre eles um peixe-pato que lê com interesse um livro (seria um pensamento metafisicamente interessante imaginá-lo lendo a Bíblia). Afora os animais mitológicos, não há muito interesse nesta parte. Já a central, consideravelmente maior que as outras, é fantástica. Cheia de homens, mulheres, monstros e morangos gigantes, a cena retratada parece um Procurando Wally orgiástico. Os seres humanos que enchem a região fluvial, todos nus, experimentam uma espécie de comunhão erótica com a natureza, travestida da mais pura inocência. As alusões sexuais são todas pintadas sem qualquer malícia, e mais parecem brincadeiras. Em algumas delas posso até imaginar Bosch rindo enquanto pintava; esta por exemplo:


[“mas que belo vaso!”]

Fica difícil achar qualquer maldade nisso, mas a terceira parte vem para sentenciar que alguém não se agradou com toda a festa. Era o quadro da esquerda, aquele mesmo que eu havia visto na padaria, que revelava as aspirações mórbidas de seu dono: a representação era do inferno (ou seria o Juízo Final? Confesso que não saberia precisar), a vingança por toda a libertinagem sem consequências do meio. A inventividade do pintor era sem igual, para retratar os tormentos sofridos pelo homem, compôs um negro cenário cheio de objetos musicais e utensílios variados. Veem-se: homens com patins de gelo, uma espécie de lagarto grávido que brande um tabuleiro de gamão, um alaúde gigante, um par de orelhas gigantes perfurados por uma flecha (estaria aí a invenção do piercing?) e entrecortados por algo que só poderia dizer ser uma prancha de surfe etc. Também, nota-se a predileção de Bosch por enfiar coisas no reto, não bastasse as tentativas jocosas no painel central, desta vez as cenas são menos agradáveis.


[separados no nascimento?]

Brincadeiras à parte, o painel é bastante interessante. Vale uma olhada cuidadosa, que pode ser feita aqui, nesta versão gigante. A sugestão, principalmente para o painel do meio, é vê-lo ouvindo o tema de Oswaldo, composto para ele. Coloquei-o disponível aqui.

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3 comentários
  1. Primrose disse:

    Ou, Achei a pintura muito interessante! Tem tanta gente aglutinada que é legal ver a particularidade de cada um e o conjunto que formam.
    A padaria é aquela que a gente já foi?

    • Igor disse:

      É a padaria que fomos a três, uma vez no ano passado.. haha

  2. Primrose disse:

    Ah! A terapia em grupo, me lembro.
    Nem sei como chegar lá.

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