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Arquivo mensal: dezembro 2010


Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgará papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão esperás amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

(DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos; A Rosa do Povo)

Assisti hoje Barry Lyndon, longa – literalmente, pelas três horas de duração – de Kubrick. Como é usual com ele, o filme é uma adaptação de livro. Como também é usual, os aspectos técnicos (a palavra não é ideal, paciência) são impecáveis. Destaque para a fotografia, a maquiagem e a indumentaria. Algumas cenas parecem, mesmo, o sonho “Crows” de Kurosawa, onde o personagem passeava por dentro de quadros. Soma-se a isso que pude assistir em alta-definição, o que tornou tudo mais agradável ainda.

Quanto ao filme, é uma anatomia que beira a obsessão nos detalhes, da ambição e da cobiça. Borges sugere em “A Esfera de Pascal” que a história é a história da repetição, em variantes, de uma mesma metáfora. Assim, Barry Lyndon não está sozinho: O Vermelho e o Negro, Crime e Castigo, A Morte de Ivan Ílitch, e muitos outros, adentraram o núcleo do homem burguês que vive à sombra do fantasma de Napoleão, o homem que se coroou imperador, arrancando, das mãos do Papa, sua coroa. A grande semelhança se dá, mesmo, com o primeiro; o livro de Stendhal em muito se confunde com o filme; nos jogos amorosos em meio a hipocrisia das cortes, no militarismo aristocrata, no desejo de um título, nos duelos, nas cartas – sobretudo nas trapaças. Falando de um Estados Unidos pós guerra civil, William Faulkner escreveria: “É impressionante como alguns sujeitos acham que ganhar ou conseguir dinheiro é uma espécie de jogo sem nenhuma regra.” (Luz em Agosto) A máxima sem dúvida possue pretensões universais. Aqui, no entanto, os homens não se detém nos vis metais: fama, títulos, nobreza, há muito mais em jogo.

Detalhe de "Consecration of the Emperor Napoleon I and Coronation of the Empress Josephine in the Cathedral of Notre-Dame de Paris on 2 December 1804", de Jacques-Louis David.

Já Raskólnikov se perdia em filosofias sobre o direito dos homens superiores – quase o super-homem nietzscheano – de cometer crimes, conduzindo, sobre rios de sangue, a humanidade a futuros brilhantes. Claro que ele, muito confuso, acaba sucumbindo em uma culpa estética, porque nunca assumida racionalmente, por assassinar duas velhinhas. Resgata-se, e aí há controvérsias, no cristianismo de Sónia; ou seria, como gosto de ler, em um cristianismo ateológico: uma doutrina do amor como única força motriz para o homem. Sem o amor, se diria, parodiando um filósofo alemão, a vida seria um erro.

Mas o amor nada tem a ver com a estetização excessiva da aristocracia, bem com qualquer “bom-tom”. Assim, a jornada de Barry, que começara, por acidente, por causa do primeiro amor, termina num casamento insuportável e sem sentido. Ivan Ílitch, buscando a vida dentro do campo do aceito socialmente, quando se vê morrendo, repara no vazio de tudo aquilo. Por dias grita, urra, tentando se agarrar à vida: ele não havia vivido até então. No fim, resignado, consegue vislumbrar alguma calma; e morre, tranquilo.

A ambição como fim em si: trata-se de um sentimento absurdo que se retroalimenta, auto-destruindo o sujeito que sente. Nisto todos os citados concordam: Raskólnikov se perde em loucura e doença, mas acha salvação; Julien Sorel termina condenado à morte; Ivan Ílitch só encontra sentido quando já abdicava de tudo aquilo que era terreno; e Barry Lyndon – ou Redmond Barry – termina sem uma perna, impotente, cabisbaixo, de volta à Irlanda. Quem é o vencedor, neste campo trágico? Aquele que notou o absurdo da proposição do vencedor e escapou; o que, se um dia lhe recomendassem um livro, destes de auto-ajuda, sobre como progredir financeiramente-afetivamente-amorosamente-etc., diria, convicto: “Deus me livre!”.


Não tive muita dificuldade em escrevê-lo, salvo o título, que ficou incerto até o momento em que decidi publicá-lo logo. Primeiro, pensei em em chamá-lo “Contingência”. Do Houaiss:

“3. Derivação: por extensão de sentido.
fato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle; eventualidade
4. Rubrica: filosofia.
caráter do que ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, pois poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não ter se efetuado”

A mudança se explica por uma forma de enxergá-lo. Imagino que, no meio de todos esses “bons sentimentos” que se associem ao natal, caiba a gratidão. Mas como, perguntará o leitor, esse pequeno conto se relaciona com a gratidão? Certamente não é pela mãe, arrastada do mundo mais cedo do que imaginava; nem pelo filho, órfão sem aviso. A gratidão, na verdade, é perceber que o controle que supomos ter da vida é pouco, bem pouco, frente ao caos que é o mundo. Podemos ser saudáveis, passar protetor solar todo dia, fazermos inúmeras refeições diárias, ao gosto dos nutricionistas, e, no entanto, morrermos afogados numa ida à praia. Acho que em nossa ânsia de controlar tudo, o peso, as horas, o sono, acabamos esquecendo que há o imponderável, que transcende tudo isso. Esquecemos, por consequência, de sermos gratos de alguma forma: por estar aqui (ainda). Lembrando o poema de Drummond:

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão esperás amanhecer.


Estava, se minha memória não me trai, na segunda série. Acho que era isto, mesmo. Convidei um amigo para vir em casa de manhã: estudava à tarde. Acordei cedo e, em frente à TV, esperei. Passaram-se as horas; as nove, as dez; as onze eu já esperava com alguma desconfiança. Passou, também, as onze, e ele não havia chegado. Fui à escola – ele também não estava lá. Já no dia seguinte, estava. Pediu desculpas pela ausência, sua mãe havia passado mal e tivera de ir ao hospital e a família teve de ajudá-la, mas já estava tudo bem com ela, fora só uma tontura, algo assim.

Uma semana depois, ele faltou de novo à escola. Faltou o primeiro dia, e, depois, o segundo. Veio no terceiro, de cara fechada; suportou um pouco, desabou em choro e foi levado embora. A mãe, no passar da semana, havia morrido.


“Porque o desejo de ordem quer transformar o mundo humano num reino inorgânico em que tudo acontece, tudo funciona, tudo é submetido a uma vontade impessoal. O desejo de ordem é ao mesmo tempo desejo de morte, porque a vida é perpétua violação da ordem. Ou, inversamente, o desejo de ordem é o pretexto virtuoso pelo qual a raiva do homem pelo homem justifica suas sevícias.”

(KUNDERA, M.; A Valsa dos Adeuses, p. 103)

Nota: “sevícia”
(latim saevitia, -ae, furor, fúria, rigor) s. f.
1. Castigo corporal. = maus-tratos
2. Crueldade; desumanidade.

Nota: Mais usado no plural.”
Do Priberam.

Foi entre irmãos – Caim e Abel – que se deu o primeiro homicídio da humanidade. Dentro das entranhas da família é que floresceu, com rapidez e força, o ódio mortal. Essa estória tem dois pólos distintos: no primeiro, mais imediato, o que se vê é literalmente o ódio entre irmãos (talvez, já houvesse alguma alusão ao fato de todo homicídio ser fratricídio, por a humanidade abarcar alguma espécie de comunidade de irmãos); já no outro, mais metafórico, é uma representação parabólica de uma espécie da luta de classes. Baudelaire defendeu o segundo em seu poema “Abel et Caïn”. Ele diz:

“Raça de Abel, dorme, bebe e come,
Satisfeita porque Deus te ama.

Raça de Caim, morre de fome,
Rasteja na miséria e na lama.”

Aí, as tais raças podem ser vistas mesmo como dois arquétipos de homens possíveis: aquele vencedor, que se ergue em meio aos outros, recebendo não só os trunfos materiais da vitória, mas o amor – se não de Deus, dos outros homens -, e aquele outro, o “perdedor” que se amargura pela sua derrota. Se pudesse, mataria o outro.


***


[aviso: spoiler adiante] Tetro, filme novo de Coppola, é uma revisão moderna do mito. Aliás, de dois deles: a rivalidade intrafamiliar de Caim e Abel, bem como o parricídio de Édipo. Embora as relações sejam de pai para filho, acredito que o primeiro predomine, afinal, o sucesso pessoal é o centro do drama; em Édipo a tragédia é fruto da contingência.

Tetro fala da figura do filho que sufoca, esmagada sobre o ícone do pai. Acaba por recusá-lo, tentando apagar qualquer traço de familiaridade que houvesse existido. Essa rivalidade, que se torna insuportável para o filho, já existia, espalhada pelas relações pessoais dos dois; mas ganha forma mesmo quando uma mulher entra em jogo. O tema não é novo: Dimitri Karamázov e seu pai atestam isso, no maior romance de Dostoiévski. A grande diferença é que na crônica russa, nenhum se favorece realmente porque os dois são miseráveis, cada qual a sua maneira. Em Tetro, o pai, maestro renomado, rouba a felicidade do filho sem pudor, com facilidade espantosa. O irmão, que acaba-se descobrindo filho, sugere um final para a estória inacabada: o parricídio. Mas ele não é perpetrado, o pai morre antes. De todo modo, a relação paternal já havia sido abolida, nesse ponto. Um assassinato talvez não pudesse ser classificado como tal, se houvesse existido.

***

Borges imaginou um reencontro entre os irmãos. Nele, Caim, perplexo, notanto a cicatriz no irmão, pede perdão por seu crime. O diálogo segue assim:

– Tu me mataste ou eu que te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.
– Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.
– É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

(BORGES, J. L.; Elogio da Sombra in Obras Completas III, p. 415)