Clube da Luta e Tropa de Elite: Violência Política e Protofascismo

Clube da Luta e Tropa de Elite são filmes violentos. Nos dois há tensão e confronto físico e, muito embora haja quem discorde, nos dois a uma quase que apologia da violência. Seriam filmes parecidos? De forma alguma, a semelhança aqui é meramente superficial, porque o motor da violência é bastante diferente em cada um.

Em Tropa de Elite, a violência é um remédio para curar o mal-estar social brasileiro. Apela para a angústia do povo que, a beira de perder a paciência e afundado em ceticismo, não suporta mais o crime organizado e a impunidade de alguns. As classes média\alta são verdadeiros vilões porque encarnam uma hipocrisia grave: a de fazerem passeatas pela paz de dia e, de noite, financiarem o tráfico; a violência, portanto. O problema da favela não vai ser resolvido pela máscara das ONGs, o filme parece dizer, isso é, também, hipocrisia. Nesse contexto surge a retidão: a ordem que é reestruturada através da violência, pela integridade de agentes de elite da polícia carioca. Vale lembrar que, nesse meio tempo, eles matam pessoas, torturam outras etc. Mas a caça às bruxas é maquiavélica: os fins justificam os meios, ainda que estes não estejam circunscritos pelos “direitos humanos”. A violência aqui é ordem, é a rigidez da lei sendo feita cumprir por tiros de metralhadora. As comparações talvez sejam hiperbólicas ou injustas, mas é bom lembrar que ordem através da violência era mote de governos repudiados pela opinião comum.

Não se trata de uma apologia ao tráfico: ele não é, de forma alguma, uma rebeldia política. É um problema, sim, e deve ser erradicado. Mas é bom questionar: será que ele não se desenvolveu nos morros por estes terem sofrido, por toda história, a miséria combinada com a total ausência do poder público. A máquina estatal entra, não com escolas e hospitais, mas com tanques, quando o problema já alcançou níveis impensáveis. É a velha questão do prevenir e remediar.

Já Clube da Luta não tem absolutamente nada a ver com uma autenticação de poder através da violência ilegítima. Tem, sim, a ver com seu contrário: a violência política. Violência política, esclarece Slavoj Žižek, filósofo esloveno, não é necessariamente violência física. Gandhi, diz ele, foi muito mais violento que Hitler. Isto porque esse conceito envolve, principalmente, quebra de rotina e rebeldia contra o poder instaurado. O nazismo tentava manter, de certa forma, a ordem do capitalismo; ao menos no que se refere ao sistema de produção. Proletários não deviam se rebelar porque, na verdade, todos deveriam olhar para interesses comuns, da pátria, etc.

Clube da Luta é um filme sobre violência emancipatória. Muita gente entende mal, achando que é uma apologia do combate físico. Não é: é uma apologia, sim, da libertação do consumismo desenfreado e da vida sedentária. É uma rebeldia contra rotinas alienantes e sem sentido, que reificam o homem, tornando-o autômato – mercadoria. Assim, tem mais a ver com Into the Wild do que com Tropa de Elite.

Mas o filme não é ingênuo: a emancipação é mostrada, em sua nudez, com todos seus problemas. Na primeira briga, o personagem principal está, na verdade, se batendo. A representação metafórica aqui é muito interessante: ele se bate porque a liberdade é dolorosa e exige um sacrifício. Não necessariamente um sacrifício físico, o que importa aqui é o aspecto formal. Não é ingênuo, também, porque não pinta os processos políticos como formas internas do sistema, baseadas na compreensão mútua de todos os homens, sempre bem intencionados. Mudanças estruturais exigem violência política, isto é, quebra de ordem.

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6 comentários
  1. Essa atuação indiscriminadamente violenta da polícia, que conta com o apoio da mídia, da população e do governo, mostra inequivocamente como a pretensão “universal” dos direitos humanos (tanto no sentido de valer para todos como em qualquer lugar) está longe de ser alcançada e é, no fundo, uma hipocrisia.
    O que exemplifica muito bem isso foi uma entrevista que eu vi, ao vivo, em que uma repórter da globo averigua, perante um oficial do bope, a chegada de uma pessoa ferida na “guerra contra o tráfico” ao hospital. A repórter diz que chegou uma pessoa ferida, mas faz questão de frisar que é um traficante. Para legitimar essa informação e acalmar os ânimos de quem pudesse pensar que era uma “pessoa do bem” que estava ferida, ela entrevista o oficial do BOPE, que confirma a informação: o “elemento” é mesmo um traficante.
    Sinceramente, eu não dou a mínima pra essa diferenciação. Eu mesmo sou contra esse caráter universal do direitos humanos que se acreditam superiores às diferenças culturais e desconsideram as situações práticas.
    Em suma, eu não vejo como uma atuação desse tipo pode lograr êxito sem mortes, tanto de inocentes como de culpados. No fim, acaba sendo um preço a pagar, pela chamada “pacificação”.
    Cabe ressaltar também que, as condições de vandalismo que chegaram a níveis incontroláveis nas favelas do Rio são fruto, antes de mais nada, de omissão governamental. Tire a escola, o lazer, a saúde etc. de qualquer grupo e veja o que acontece. O medo da população “higienizada” é o do contato com os pobres. Quando suas atuações bandidas começaram a interferir significativamente em bairros ricos, aí chegou a hora de fazer alguma coisa. “Vamos explodir a porra toda”. Só resta saber se paz com tanques é o suficiente para a população dos morros progredir. Eu tenho certeza que não. O discurso demagógico dos governantes é espantosamente hábil, porque ninguém percebe que, por enquanto, nada está sendo feito pra melhorar a condição dessas pessoas.
    Há um conceito que se chama “paz positiva”. Ela resulta da não-violência estrutural. A violência estrutural por sua vez é resultante da precariedade das condições de vida e da falta de acesso aos benefícios do progresso econômico. Portanto não se trata apenas de eliminar os “meliantes”, mas de impossibilitar de maneira mais estruturalizada (ou seja, pela educação, lazer, saúde) o nascimento de novos “coisas ruim”.

  2. Ah Igor, mais uma coisa, eu não entendi como o nazismo pode ser comparado ao capitalismo. A ordem do capitalismo é exatamente a liberdade, uma noção puramente individual. Não há de se falar em bem comum, predominância do coletivo face ao individual em sociedades liberais.
    É claro que o capitalismo de hoje não é o mesmo do século XIX. Mas não vejo uma mentalidade em prol de interesses comuns e da pátria no imaginário comum. Trata-se mais de uma conformação ao sistema jurídico que evoca esses princípios do que um pensamento individualizado e consciente de defesa do “coletivo”.

  3. Igor disse:

    Bom, concordo com você em quase tudo. Quanto à universalidade dos direitos humanos, é, sim, uma hipocrisia. Mas, vendo uma mulher apedrejada, não consigo deixar de me indignar. Por que o traficante baleado não nos indigna? Ora, porque ele transgrediu os direitos dos outros. Esse argumento até valeria, se os direitos dos outros não se pautassem em dados relativos à cultura. No islã, a mulher ofendeu os direitos dos outros tanto quanto o traficante, aqui; talvez até mais. A questão é que, dada essa pluralidade de visões sobre o que são direitos dos outros, acabo tendendo a afirmar que, independente disso, ninguém merece a morte; pelo menos não efetivada pelo aparelho estatal.

    Não considero os traficantes “vítimas” da ordem social vigente: para notar isto basta ver quantas pessoas vivem suas vidas fora do tráfico nos morros, inclusive, oprimidas pelo cenário absurdo que habitam – fora de qualquer civilidade presumível num país democrático do sec. XXI. Essas são as verdadeiras vítimas. Porém, é necessário notar que, como vítimas, elas deveriam se insurgir contra isso. Achamos que são “pessoas de bem” porque aceitaram o domínio passivamente, como se ele emanasse de algum deus. São do bem porque são como escravos que se comportam como os donos desejam. Mas isso é ser do bem? Os traficantes aproveitam essa falta de ordem para proliferarem um domínio próprio. Isso é ilegítimo, mas por que não o é o dono da fábrica que explora seus operários? A diferença é meramente burocrática: um fez dentro da legalidade (presumivelmente, mas é quase sempre falso); o outro, não. Ora, essas vítimas, para além da condição sub-humana são mais violadas com esse tipo de ação. Tudo bem, era necessária para a contenção do tráfico. Mas se fosse necessário invadir, por dias, um bairro nobre, para a contenção do tráfico, não haveriam protestos? Não existem protestos agora porque as classes mais abastadas não consideram uma isonomia de direitos: aquelas pessoas tem menos direitos. Os nossos direitos são “luxo”.

    Acho a individualidade o maior valor a ser preservado. O comunismo estatal provou-se problemático porque tolheu, justamente, essa liberdade. Mas o capitalismo administrado também o faz, mas por baixo dos panos. As pessoas possuem, sim, privilégios de nascença: privilégios do capital; e negar isso é bobagem. Quem tem dinheiro não tem só educação, saúde etc., mas tem comida e estrutura familiar. O morador da periferia não tem nenhuma dessas coisas; para “melhorar”, seus pais, que são sua referência, não são letrados, não incentivam cultura porque nunca a tiveram etc. Como falar em liberdade nesse contexto? Existe um “handicap” muito claro, e a liberdade jurídica esconde a falta de liberdade decorrente de disparidade de capital. O comunismo como foi no sec. XX é claramente pior, não resta dúvidas. Por isso, é preciso mais do que nunca teoria: é preciso quem pense em algo melhor, mais igual, que favoreça a comunhão, igualdade e não esteja pautado em valores como esse consumismo absurdo. Acho que isso envolve muito mais coisa que ideologia, o próprio futuro do planeta – as crises ambientais etc. – está envolvido.

  4. Igor disse:

    Quanto as comparações entre nazismo e capitalismo: o que você falou está certo. Só que a ordem coletiva do nazismo elipsa os conflitos internos do capital. Lembre-se de como no Arquitetura da Destruição mostra que havia muita propaganda ao redor da abolição do conceito de “luta de classes”. Nesse sentido, e por ser “anti-esquerda”, o nazismo queria preservar a ordem interna do capitalismo. Mas não é uma comparação exata, senão analogia.

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