A Imagem e o Verbo

Existe um dito que diz que “uma imagem vale mil palavras”. Ele traduz bem nossa sociedade altamente visual e com capacidade de concentração beirando o nulo. A verdade é que se apoiar nessas máximas axiomáticas não é definitivamente um bom meio para se chegar a algum lugar. Virtualmente, qualquer coisa pode ser afirmada tendo como base esses lugares-comuns; inclusive, lembro-me de um capítulo de um livro do astrônomo Carl Sagan em que ele recolhia diversas dessas afirmações. Curiosamente, grande parte se contradizia. Esses rodeios serviram de preâmbulo para a discussão: se uma imagem não vale mil palavras então, afinal, quanto é que ela vale?

Já eu parto do pressuposto que imagens e palavras, e também o som, se encontram como formas de expressão tão distintas que as tentativas de intercâmbio estão fadadas ao fracasso. Aliás, acabam tolhendo a capacidade expressiva umas das outras: assim, quando alguém escuta a sonata “Au Clair de Lune”, já associa, inicialmente, aquela música a uma imagem estigmatizada de um luar. Neste caso, a palavra dita o entendimento do estético-sonoro. É porque nosso pensamento é verbal – e ignoro se isto é natural ou cultural, mas a verdade é que aqui isto não importa – que as palavras determinam esse caráter influenciador e analítico nos outros meios de comunicação sensorial. A palavra é dona de um grande poder sobre o humano; as religiões atestam isso: “No princípio era o Verbo” (embora na minha edição, tradução estranha que ganhei de graça, conste como “Palavra”), começa João, e o Alcorão contribui: “, em nome do teu Senhor, Que Criou; Criou o homem (…)”.

O filósofo e gramático iluminista Condillac propunha o idioma como método analítico. Grosso modo, ao depararmos com uma paisagem, por exemplo, haveria uma primeira percepção simultânea do todo e, depois, a percorreríamos divisando coisas, estimando distâncias, organizando hierarquicamente objetos distintos etc. Este processo, que ele chama análise, é o que deveria efetivar a linguagem. A linguagem “explica” a imagem; ou, na verdade, determina uma ordem a ela. A imagem, ela mesma, estaria desprovida de ordem imanente. A interpretação dos sonhos de Freud enxerga uma ordem nos sonhos, ou inventa, o que não faz diferença: é um método de análise para um conteúdo estético.

Tendo em vista essa poder oculto no verbo, cabe refletir sobre sua extensão. A bienal de artes de São Paulo tem uma obra interessante sobre isso: uma sequência de fotos em uma cidade africana é acompanhada por legendas. Vendo as fotos, e lendo as legendas, somos levados a crer que a tal cidade na verdade seria um reduto de um avançado projeto espacial, e que teria construído um foguete que viajou tripulado para estudar o Sol. O discurso é bastante adaptável às fotos, bem escolhidas; e, evidentemente, transforma completamente sua percepção. A conclusão? Difícil precisar. Sejamos críticos, talvez, e tenhamos cuidado com a palavra, esta entidade traiçoeira.

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3 comentários
  1. Primrose disse:

    Não sei se é contradição ou se não entendi direito, mas você disse que as formas de expressão não podem se conectar sem fracasso, mas afirma que a palavra analisa a imagem (o que relataria uma forte conexão entre elas).
    Seria talvez um ‘fracasso’ pois elas nunca estarão perfeitamente harmoniosas ao indicar um sentido?
    O que no mundo, então, se relaciona harmoniosamente? As tentativas de transformar a receita de bolo em um bolo comestível nunca ilustram uma relação de imagem-semelhança, já que ambas diferem muito entre si.
    E sei lá, brisando um pouco mais, não há necessidade de dizer que as palavras são traiçoeiras e fracassadas em suas tentativas de explicar, analisar ou ilustrar verbalmente as imagens dado que todas as outras coisas que estão em relação umas com as outras não expressam os mesmos sentidos; não dão a mesma impressão para quem as sente (por serem, graças à deus, muito diferentes entre si!).
    Uma tradução nunca dirá o mesmo que um texto original, e um abraço não será igual a uma frase de conforto.
    Ambos se expressam a sua maneira, o que não significa que a relação seja perigosa. Ela é tão real quanto necessária.

    • Primrose disse:

      Esse comentário foi meio forte demais se pá.
      A minha intenção era só te provocar mesmo. Posso até não concordar com o que falei, viu?
      hahaha

  2. Igor disse:

    Hahaha, bocózinha. Pode provocar à vontade, eu gosto. 😛

    Mas então: não é por não serem harmoniosas, mas é porque uma imagem fala por si e o discurso verbal pode deformá-la, penso eu. Uma imagem não vale mil palavras, porque uma imagem é uma imagem e palavras são palavras; são intercambiáveis.

    O exemplo do bolo é bom! Na verdade, é o que Heidegger questiona quando se define a verdade como “adequação entre coisa e intelecto.” Supostamente, atingimos a verdade quando a ideia de fazemos de algo é igual à coisa-mesma. Mas, diz ele, como pode ser uma ideia igual a uma coisa se são, por definição, de substâncias completamente diferentes? Assim são as palavras e as coisas: mil palavras descrevendo um quadro não são o mesmo que o quadro etc.

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