Fraternidade em Sangue

Foi entre irmãos – Caim e Abel – que se deu o primeiro homicídio da humanidade. Dentro das entranhas da família é que floresceu, com rapidez e força, o ódio mortal. Essa estória tem dois pólos distintos: no primeiro, mais imediato, o que se vê é literalmente o ódio entre irmãos (talvez, já houvesse alguma alusão ao fato de todo homicídio ser fratricídio, por a humanidade abarcar alguma espécie de comunidade de irmãos); já no outro, mais metafórico, é uma representação parabólica de uma espécie da luta de classes. Baudelaire defendeu o segundo em seu poema “Abel et Caïn”. Ele diz:

“Raça de Abel, dorme, bebe e come,
Satisfeita porque Deus te ama.

Raça de Caim, morre de fome,
Rasteja na miséria e na lama.”

Aí, as tais raças podem ser vistas mesmo como dois arquétipos de homens possíveis: aquele vencedor, que se ergue em meio aos outros, recebendo não só os trunfos materiais da vitória, mas o amor – se não de Deus, dos outros homens -, e aquele outro, o “perdedor” que se amargura pela sua derrota. Se pudesse, mataria o outro.


***


[aviso: spoiler adiante] Tetro, filme novo de Coppola, é uma revisão moderna do mito. Aliás, de dois deles: a rivalidade intrafamiliar de Caim e Abel, bem como o parricídio de Édipo. Embora as relações sejam de pai para filho, acredito que o primeiro predomine, afinal, o sucesso pessoal é o centro do drama; em Édipo a tragédia é fruto da contingência.

Tetro fala da figura do filho que sufoca, esmagada sobre o ícone do pai. Acaba por recusá-lo, tentando apagar qualquer traço de familiaridade que houvesse existido. Essa rivalidade, que se torna insuportável para o filho, já existia, espalhada pelas relações pessoais dos dois; mas ganha forma mesmo quando uma mulher entra em jogo. O tema não é novo: Dimitri Karamázov e seu pai atestam isso, no maior romance de Dostoiévski. A grande diferença é que na crônica russa, nenhum se favorece realmente porque os dois são miseráveis, cada qual a sua maneira. Em Tetro, o pai, maestro renomado, rouba a felicidade do filho sem pudor, com facilidade espantosa. O irmão, que acaba-se descobrindo filho, sugere um final para a estória inacabada: o parricídio. Mas ele não é perpetrado, o pai morre antes. De todo modo, a relação paternal já havia sido abolida, nesse ponto. Um assassinato talvez não pudesse ser classificado como tal, se houvesse existido.

***

Borges imaginou um reencontro entre os irmãos. Nele, Caim, perplexo, notanto a cicatriz no irmão, pede perdão por seu crime. O diálogo segue assim:

– Tu me mataste ou eu que te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.
– Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.
– É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

(BORGES, J. L.; Elogio da Sombra in Obras Completas III, p. 415)

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