Barry Lyndon – Anatomia da Ambição

Assisti hoje Barry Lyndon, longa – literalmente, pelas três horas de duração – de Kubrick. Como é usual com ele, o filme é uma adaptação de livro. Como também é usual, os aspectos técnicos (a palavra não é ideal, paciência) são impecáveis. Destaque para a fotografia, a maquiagem e a indumentaria. Algumas cenas parecem, mesmo, o sonho “Crows” de Kurosawa, onde o personagem passeava por dentro de quadros. Soma-se a isso que pude assistir em alta-definição, o que tornou tudo mais agradável ainda.

Quanto ao filme, é uma anatomia que beira a obsessão nos detalhes, da ambição e da cobiça. Borges sugere em “A Esfera de Pascal” que a história é a história da repetição, em variantes, de uma mesma metáfora. Assim, Barry Lyndon não está sozinho: O Vermelho e o Negro, Crime e Castigo, A Morte de Ivan Ílitch, e muitos outros, adentraram o núcleo do homem burguês que vive à sombra do fantasma de Napoleão, o homem que se coroou imperador, arrancando, das mãos do Papa, sua coroa. A grande semelhança se dá, mesmo, com o primeiro; o livro de Stendhal em muito se confunde com o filme; nos jogos amorosos em meio a hipocrisia das cortes, no militarismo aristocrata, no desejo de um título, nos duelos, nas cartas – sobretudo nas trapaças. Falando de um Estados Unidos pós guerra civil, William Faulkner escreveria: “É impressionante como alguns sujeitos acham que ganhar ou conseguir dinheiro é uma espécie de jogo sem nenhuma regra.” (Luz em Agosto) A máxima sem dúvida possue pretensões universais. Aqui, no entanto, os homens não se detém nos vis metais: fama, títulos, nobreza, há muito mais em jogo.

Detalhe de "Consecration of the Emperor Napoleon I and Coronation of the Empress Josephine in the Cathedral of Notre-Dame de Paris on 2 December 1804", de Jacques-Louis David.

Já Raskólnikov se perdia em filosofias sobre o direito dos homens superiores – quase o super-homem nietzscheano – de cometer crimes, conduzindo, sobre rios de sangue, a humanidade a futuros brilhantes. Claro que ele, muito confuso, acaba sucumbindo em uma culpa estética, porque nunca assumida racionalmente, por assassinar duas velhinhas. Resgata-se, e aí há controvérsias, no cristianismo de Sónia; ou seria, como gosto de ler, em um cristianismo ateológico: uma doutrina do amor como única força motriz para o homem. Sem o amor, se diria, parodiando um filósofo alemão, a vida seria um erro.

Mas o amor nada tem a ver com a estetização excessiva da aristocracia, bem com qualquer “bom-tom”. Assim, a jornada de Barry, que começara, por acidente, por causa do primeiro amor, termina num casamento insuportável e sem sentido. Ivan Ílitch, buscando a vida dentro do campo do aceito socialmente, quando se vê morrendo, repara no vazio de tudo aquilo. Por dias grita, urra, tentando se agarrar à vida: ele não havia vivido até então. No fim, resignado, consegue vislumbrar alguma calma; e morre, tranquilo.

A ambição como fim em si: trata-se de um sentimento absurdo que se retroalimenta, auto-destruindo o sujeito que sente. Nisto todos os citados concordam: Raskólnikov se perde em loucura e doença, mas acha salvação; Julien Sorel termina condenado à morte; Ivan Ílitch só encontra sentido quando já abdicava de tudo aquilo que era terreno; e Barry Lyndon – ou Redmond Barry – termina sem uma perna, impotente, cabisbaixo, de volta à Irlanda. Quem é o vencedor, neste campo trágico? Aquele que notou o absurdo da proposição do vencedor e escapou; o que, se um dia lhe recomendassem um livro, destes de auto-ajuda, sobre como progredir financeiramente-afetivamente-amorosamente-etc., diria, convicto: “Deus me livre!”.

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