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Arquivo mensal: janeiro 2011


Ao contrário do que pode se pensar mais rapidamente, o fenômeno Big Brother não é algo de todo desprezível. Digo o fenômeno porque não estou falando do programa; não se trata de discutir se este é bom ou ruim – mas de analisar todo o acontecimento. No Brasil, a décima primeira edição começa agora; ignoro índices de ibope, mas a audiência deve ser exorbitante, como sempre.

Defendo que o todo não deve ser analisado de forma rasa, pelo contrário. Conforme o programa foi ganhando notoriedade, foram desenvolvidos diversos estudos para tentar explicar a aderência do “reality show”. Uma delas, de Zygmunt Bauman, que li a alguns anos em seu “Medo Líquido”, foca na sociedade articulando-se por meio da exclusão. Não vou falar mais detidamente sobre Bauman porque, na verdade, li há muito tempo e não tenho anotações nem grifos para clarear a teoria do polonês; também porque não interessa tanto, aqui. Mas, indo ao ponto: o jogo se dá pela exclusão sucessiva; internamente, existe uma luta envolvendo regras mirabolantes e intrigas. O que torna completamente irônico a alcunha de “reality” no gênero do programa; a realidade é uma construção apresentada às câmeras para alcançar um prêmio, a realidade é farsa, é simulacro. No entanto, voltando à temática da exclusão: o microcosmo que o elenco do programa representa – uma espécie de miniatura artificial e maquiada dos tipos urbanos – se sustenta com uma sistemática exclusão punitiva de partes do corpo social. É punitiva porque decorre de julgamentos moralistas dos espectadores, e dos próprios participantes, ainda que as justificativas sejam sempre teatrais. Trata-se de uma sociedade-tribunal: os membros, constantemente julgados por suas ações, não tem senão uma vaga ideia do código ético que devem seguir, que não é senão calcado em preconceitos populares e aliado à lógica do mercado.

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No filme Dark Knight, existe um esforço em realizar uma desconstrução do “bem” e do “mal” como opostos cristalizados, sugerindo que no indivíduo coabitam os dois, em desarmonia e conflituosamente. Em uma cena há um “joguinho”, que é um inteligente dilema ético. Ignoro se a ideia é original, suspeito que não. Resumindo: tratam-se de dois barcos, os dois carregados de pessoas e explosivos; a diferença é que em um estão criminosos de uma penitenciária e, no outro, cidadãos comuns. As duas embarcações estão marcadas para explodir automaticamente, a não ser que uma delas estoure antes, o que pode ser feito por meio de um detonador, presente no barco. Os barcos tem o detonador trocado, então, cada um, pode explodir o outro, salvando sua pele. A pergunta é: para além do pragmatismo, vale mais morrer inocente, ou viver como um assassino? A vida de criminosos vale menos que a dos outros? O jogo da exclusão é uma cópia do programa de TV; a “exclusão da casa”, uma morte atenuada. Nunca, por ideais, um participante do Big Brother se insurgiu contra o sistema; imagino que existam uma infinidade de contratos, ainda sim, o mais interessante é notar que tudo é um construto essencialmente humano: não existe lei irrevogável que limite o indivíduo a basear sua existência na eliminação do irmão. É tudo hábito e aceitação do poder imaterial.

Cabe ao homem moral pensar além do mero consequencialismo. Optando em não apertar o detonador, não se está “escolhendo a morte de todos”, senão evidenciando que existe um código interno da ética que impede que o subjetivo participe deste jogo. A escolha não foi a explosão ou não, mas a negação em deliberar uma escolha em frente a proposta desumana.

Dark Knight é um filme ficcional. Nele, os bandidos optam por não matar ninguém, não sem conflitos internos. Os cidadãos comuns apertam o dispositivo, mesmo que este acabe sem disparar. Penso que, em nosso cotidiano, a complexidade da decisão dos vilões do filme não se apresente muito costumeiramente; o estado paralítico da alienação não nos deixa enxergar que sempre existe a possibilidade da recusa do jogo. Neste sentido, Big Brother é uma cópia fiel da sociedade: ainda não se tem notícia de alguém que se recusou a votar (ou acho que não se tem, pelo menos).


Achava que era da solidão que estava tentando escapar, e não de si mesmo. Mas a rua prosseguia: como os gatos, todos os lugares se pareciam para ele. Mas em nenhum deles ficaria tranquilo. Porém a rua seguia com seus humores e fases, sempre vazia: ele podia ver-se como em incontáveis avatares, em silêncio, condenado ao movimento, impelido pela coragem de esmorecido e atiçado desespero; pelo desespero da coragem cujas oportunidades precisavam ser esmorecidas ou atiçadas.



(FAULKNER, W.; Luz em Agosto, p. 198)


Sartre diferenciava o humano das demais existências afirmando que, ao passo que todas elas possuíam atributos existenciais previamente estabelecidos (da tesoura, o corte etc.), ele só possuiria uma: a faculdade de se inventar, de fazer a si mesmo. A isso se chamaria liberdade; a liberdade é a escolha mandatória de definir a própria essência. O eu, no entanto, não se dá sozinho, isolado do mundo; o eu é um mitsein (ser-com) e só se dá na medida em que se liga e desliga de outros: humanos, objetos, ideias etc. Nós nos construímos nos outros e com os outros.

Essa construção não brota do nada; na verdade, antes de construção, é uma busca: uma busca por algo que chamamos de identidade.

Luz em Agosto, de William Faulkner, é, além de um acurado painel da vida no sul dos Estados Unidos pós guerra civil, uma tragédia sobre essa busca pela identidade em meio a um mundo destruído e destituído de esperança. O livro alterna entre diversas personagens, que se entrecruzam em um acontecimento crucial, na cidade de Jefferson; cada qual dessas personagens, ao mesmo tempo que ligada à trama coletiva, é dotada de angústias próprias e motivações particulares. Cada uma delas, à sua forma, tenta encontrar a própria face, algo em que se agarrar. Talvez o caso mais emblemáticos seja do assassino Joe Christmas. Ele, que termina morto, passa todo o tempo provocando conflitos, sem conseguir acarinhar uma mão de caridade qualquer; ele é um selvagem, um estrangeiro, literalmente, porque não a segmento social que o aceite sem um olhar de suspeita. Christmas é um filho fora de casamento de uma branca com um homem dotado de “sangue negro”; o avô assassina o pai antes que ele nasça, e ele cresce, num orfanato para brancos, isolado por todas as crianças que mimetizam a sociedade adulta, chamando-no de “nigger”. Os adultos não sabem de sua origem, caso contrário, seria inaceitável deixá-lo ali; mas os conflitos vão surgindo. E é assim que, ao longo do livro, que culmina na sua morte, ele se degladia o tempo todo em meio a grupos que o rejeitam: pelos brancos, por ser negro; pelos negros, por ser branco. Em certo momento, alguém fala:

“‘Quem lhe disse que sou preto, seu branquelo imprestável?’ e ele diz ‘Eu não sou preto’ e o preto diz: “Você é pior que isso. Você não sabe o que é. E mais que isso, nunca vai saber. Vai viver e vai morrer e nunca vai saber’ […]”

A resposta é profética.

Embora a tensão racial domine, logicamente, o livro todo; não são só preocupações de cor de pele que determinam as angústias individuais de cada um. Uma mulher que engravida e persegue, sem duvidar da integridade do homem que a engravidou e que o tempo todo foge dela; um outro homem que mais de trinta anos trabalhou arduamente, sem atentar para alguma vida além disso, e subitamente se apaixona e começa a acompanhar para todos os lugares; um ex-pastor que nunca teve vocação, e não se ordenou senão para buscar as próprias origens, pregando na cidade em que seu avô morrera durante um conflito; uma nortista, que dedicava sua vida aos negros, em meio a essa estranha cidade do sul. São estas algumas das faces que se perdem em meio a escuridão; que, em meio a ela, tateiam, desesperadamente, para achar alguma luz que as ilumine, que as revele alguma segurança, alguma coisa a que se agarrar.

De Luz em Agosto poderia ser dito que é uma interessante reconstrução da vida em um período histórico dos Estados Unidos. Seria verdadeiro. No entanto, também é muito mais que isso: é um retrato da figura humana em seus anseios mais primordiais: de pertencença, de acolhimento; e com seu fantasma mais fundamental: o da liberdade, que açoita e atormenta mas que, ainda sim, é a única coisa que nos faz humanos.

A discussão é velha: o apresentador de TV Luciano Hulk é assaltado, perde seu relógio Rolex, fala algumas coisas, indignado. Muita gente ri do paulistano mimado do jardins, irritado por ter perdido seu Rolex. Uma revista da Abril alega: estão culpando a vítima. Ferréz, “escritor marginal”, escreve uma espécie de artigo-conto, narrando o assalto da visão dos “correrias”. A polêmica veio de todos os lados: acusavam-no de ser apologista do crime. A asserção é estúpida, ninguém ousaria crucificar Dostoiévski alegando que seu Crime e Castigo é uma defesa do latrocínio; quem leu atentamente sabe que a personagem nunca consegue se arrepender pelo feito. Não querendo comparar os dois; o russo é superior e quanto a isso não restam dúvidas. Mas superioridade estética não justifica direito de falar de tabus. É, de fato, muito cômodo vir com o blábláblá moralista da classe média, apontando como muita gente ali, no olho do furacão da miséria, opta por viver honestamente; traficantes são minoria. Isto é verdade e não cabe vitimizar os bandidos, mas negar a estruturalidade do problema é ainda mais falho: crianças que crescem em meio a miséria e a fome veem no crime uma oportunidade fácil, como falar em moralidade para estas pessoas que, muitas, nem sabem ler? Que, muitas vezes, sequer tem saneamento básico? O crime não é heroísmo nem redistribuição, o crime tem muito do mais bruto capitalismo, está ligado, é claro, ao fetichismo da mercadoria – haja visto que o relógio roubado era um Rolex -; é uma ação que, dentro de uma democracia, deve sofrer coerção para a garantia dos direitos de seus cidadãos. Mas o crime, também, é a única “oportunidade” de mobilidade real. Cita-se Joaquim Barbosa, mas se todos os favelados decidissem estudar e virar advogados, o país não comportaria nem 10% deles; o problema é estrutural, não de falta de vontade individual. Se não fosse tamanho o abismo entre o que ganha um lixeiro e um engenheiro, talvez isso não fosse uma questão tão monstruosa. Mas é claro: é idealismo defender uma diminuição nos rombos que separam as “classes”.

Quanto a Reinaldo Azevedo, não é preciso pensar muito pra concluir sua posição. Reinaldo é um verdadeiro arquétipo do direitista caricato, comporta em si todos os atributos da classe: é papista, dedica boa parte de seu tempo (e de suas publicações) falando mal do PT, idolatra Bruno Tolentino, apoiou John McCain e a invasão do Iraque, acha toda a área de “humanas” da USP uma porcaria e, por fim, é articulista da Veja. O curioso é que essa personalidade, por tão pitoresca, comporta um caráter de previsibilidade muito grande. Leio a notícia de um fato e, no momento seguinte, já consigo prever como será o comentário do dito cujo. Isso, aliás, é ótimo: porque torna completamente dispensável qualquer leitura de seus textos. Achei, no entanto, que um trecho merece um comentário mais detido. Publicado na Folha, em resposta ao conto de Ferréz, ele diz:

“[…] ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria.”

A grosseria dessa afirmação é tão grande que fica difícil achar um começo para uma negação. Caso qualquer um que falasse sobre algo fosse, por excelência, um empresário defensor do objeto, estaríamos em apuros: o próprio Reinaldo que, coitado, passa a vida a falar mal de Lula, deve ter votado neste; caso contrário, como garantiria seu pão de cada dia? Roubando, sabemos, é que não. Fica patente o esforço de suprimir qualquer voz de meio heterodoxo. Talvez, e acredito nisso, Ferréz não seja um bom escritor – esteticamente falando -, muito provavelmente não o é, mesmo; a inovação está numa perspectiva mais autêntica de um mundo até onde os acadêmicos e literatos não chegam senão como estrangeiros, como outsiders. O valor, aí, não é estético: é sociológico. E se há o fetiche e a aura ao redor do criminoso, vale a pena arriscar: é porque eles existem, mesmo.