Uma Teorização Pessoal da Gratidão

Ser grato é, por tradição, transitivo; isto é, exige complemento. Ser grato é ser grato a algo. É expressar gratidão pelo mistério da vida ou por Deus. Disse, nos comentários das considerações sobre o conto de natal, que no meu entender, a gratidão prescindiria do objeto e, portanto, seria intransitiva. Isto é gramaticalmente errado, é claro, mas não me interessa a gramática, senão a postura existencial. A lógica, tradicionalmente considerada, pode ser um entrave para a profundidade de algumas discussões, como apontou Heidegger. Achei que o assunto merecia uma explicação mais demorada, então aqui está ela.

No ensaio “Sobre Chesterton”, Borges diz: “[…]Chesterton pensou, como Whitman, que o simples fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura nos deve eximir de uma espécie cósmica de gratidão.” Ora, Chesterton era católico; Whitman, salvo engano, não. O tipo de gratidão a que me referi se alinha, talvez, com essa. A existência, com seu mistério, sua angústia necessária etc., é tão improvável, que deve ser celebrada de alguma forma. Agir contra a existência é uma forma de não-gratidão, enquanto que avivá-la, uma forma da maior gratidão possível. Essa gratidão prescinde seu objeto porque não é expressa como tributo: não é adorar a Deus, mas e existência ela-mesma. E como isso se manifestaria? Bom, não preciso, mas dou uma definição vaga assessorada por exemplos. A gratidão é um não ser contrário à existência; é não consumi-la, o que não significa um devaneio cego acerca da auto-preservação, da saúde, e do culto da imortalidade; é cantá-la. Auto-flagelação é uma violência contra a existência e, portanto, é uma forma de não-gratidão, ainda que haja quem discorde disso; já compartilhar, a música, a poesia, são formas da maior gratidão que se possa ter. Recebemos a vida, esse presente indecifrável e insondável, e que logo nos será tomado – cabe usá-la da melhor forma, afinal, seria grande desrespeito destruir um presente.

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2 comentários
  1. Primrose disse:

    Eu continuo não entendendo, Igor. Podemos discutir isso ao vivo? As coisas ficam menos complicadas e aí meu cérebro é capaz de funcionar e acompanhar o seu.
    =]

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