Gênios Autobiográficos

Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima – afirma. – A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural… Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade.

Bruno Tolentino (Fonte, talvez, um pouco duvidosa)


Talvez muita gente não entenda porque fico tão ofendido quando me dizem arrogante; a resposta não é simples. Primeiramente, sempre tive, sim, uma pedaço de arrogância, derivada, hoje penso, mais da solidão do que do mérito individual. Talvez alguns, por não se misturarem, achem que são melhores, que os outros não o compreendem etc.; nada mais lógico: melhor do que se imaginarem inaptos no convívio. No entanto, fui criando, com o tempo, uma aversão a arrogância intelectual. Lendo e observando o meio intelectual, o que se vê? Gênios, Messias, Salvadores do mundo e da cultura nacional; todos, evidentemente, auto-proclamados. O que fazem eles de melhor? Farpas. Atiram uns nos outros; os que estão na universidade, por serem donos de cátedra, e, portanto, institucionalmente mais competentes; os outros, ressentidos, justamente por não serem: o país é dominado por um establishment intelectual e\ou o bastante infantil “sou bom demais para isso”. Parece-me que estes senhores e senhoras, tão compenetrados na própria imagem, não fizeram bom proveito das vastas leituras, senão para aumentar o próprio ego.

As formações intelectuais são das mais diversas: de marxistas a católicos raivosos (embora o número dos últimos seja incrivelmente alarmante, a considerar que compõe uma religião que tem entre os princípios a humildade). Pouco importa como, o objetivo é falar mal. O finado e supracitado Bruno Tolentino foi mestre na arte, concedeu entrevista à Veja onde cada vírgula parecia adornada de ressentimento de uma aristocracia morta. Algumas Partes:

Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. (Explicando porque educar seu filho em Paris, e não no Rio)

É preciso notar, aqui, que não faço nenhuma ressalva à obra do poeta propriamente dita: nem poderia, se não quisesse incorrer na ignorância, já que nada li. Trata-se, apenas, de evidenciar a ignorância (ou arrogância, como queiram) injustificada que decorre de uma suposta superioridade, seja ela verdadeira ou não.

Existe uma tira, do Calvin & Hobbes, onde um deles ironiza: que a arte seria uma comunicação hermética para os superiores felicitarem-se a si mesmos por sua superioridade. A tirinha é uma galhofa; infelizmente traz em si uma grande verdade. Pra muita gente ler poesia não é um prazer, nem auto-conhecimento; é só uma ferramenta para a auto-afirmação. Não muito diferente das competições de mijo frequentes entre meninos interioranos. Ganha quem mijar mais longe, ou melhor, quem sabe mais línguas e leu mais livros – ou simplesmente que diz que.

Pensei em prolongar o texto, exemplos não faltam, tanto na minha – breve – vivência universitária, quanto em brigas documentadas em colunas etc. No entanto, cada palavra que escrevo deste texto aumenta uma melancolia em mim. Quando bem novo, gostava de discutir “papos cabeça” com amigos: física, filosofia, ou pelo menos esboços de. Era um esforço conjunto para chegar a algum ponto. Ainda hoje tento repetir a experiência, e sou muito grato aos que me dão o prazer de boas discussões e “brainstorms”; no entanto, eu, que muito tempo sonhava com a Universidade como uma reunião de pessoas interessadas, dispostas etc., acabei chegando a esta e não encontrando senão uma tosca feira de vaidades.

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7 comentários
  1. Não raro discutimos nas aulas de Direito o princípio constitucional chamado “função social da propriedade”. Talvez devêssemos começar a discutir a “função social do conhecimento”. Na verdade a que se presta tanto acúmulo de teorias e conceitos que levam a um fim tão soez quanto inútil, qual seja o de trocar “farpas”, como você mesmo disse, para “engrandecer” o ego. É um fim que se apresenta tão estúpido que envergonharia o próprio conhecimento, se este pudesse ser personificado.

    • Igor disse:

      Teu comentário merecia ser enquadrado, em. Falou bem.

  2. Primrose disse:

    1: O que é hermético? (estou com preguiça de procurar no Aurélio)
    2: Meu curso e minha faculdade tem uma característica diferente da descrita por você eu acho. Há sim aqueles que só querem engrandecer a si próprios, mas desde que entrei vejo professores dedicados a tornar a teoria que estudam em prática de forma coerente com o que pensam, o que lutam e etc para que suas ações como profissionais sejam reais e efetivas.
    Talvez este problema seja muito evidente na Filosofia/áreas de discussão intelectual, nas quais o foco se desloca da realidade vivida para a falada, que apenas ergue o imponente prédio do sábio-intelectual-intocável.
    E comentando o que o Guilherme falou, o simples acúmulo de conhecimentos nos torna lixeiras ambulantes. Deixamos de ser úteis não só para nosso sistema (que exige mais do que discurso de nós) mas também para a nossa própria prática; seja ela profissional, familiar, amorosa, social…
    Talvez a diferença entre quem é arrogante e quem não é seja definida por quem coloca a mão na massa (com seus conhecimentos de área) e quem evita ao máximo fazê-lo já que o prazer de ser erudito basta por si só.

    • Igor disse:

      1. Hermética é algo como fechada, de difícil acesso. Comunicação hermética, então, seria algo fechado em si mesmo, que poucos saberiam.

      2. Acho que você acerta bem quando diz que essa diferença em parte se deve à oposição prática x teoria. Mas, na verdade, pouco tenho a reclamar dos professores que tive: quase todos foram ótimos e pouco arrogantes. Me referia à vivência universitária de modo mais amplo: sei lá, as pesquisas, o relacionamento entre os pesquisadores. É aí que mora o problema, na minha opinião, porque, ao invés de se apoiarem, fica cada um querendo achar que sabe tudo e que os outros são imbecis. Na verdade vejo isso mais em publicações escritas do que acontecendo.

  3. kiko disse:

    Bom, não conheço muitas publicações da minha faculdade (matemática). Mas acho que os pesquisadores em geral não brigam entre si. Não há muito como. Há quem está certo e pronto. Não sei como as coisas rolam em relação a publicação de artigos e tal. Entre os alunos rola uma arrogância. Os melhores, no entanto, normalmente não são arrogantes.
    Concordo com o que vocês escrevem. Só acho que é necessário tomar cuidado porque é fácil confundir alguém que lê um livro (por auto-conhecimento ou algo assim) com alguém que lê por “simples acúmulo de conhecimentos”. Não acho que tudo que nós fazemos deva ter um fim prático. Longe disso.

    Enfim, escrevi mais para deixar de ser um leitor-fantasma

    • Primrose disse:

      Você tem razão, kiko.
      Não quis dizer que tudo que lemos temos que por em prática… Pensei mais no conjunto inteiro de “conhecimento e atuação profissional”.
      Não quero confundir ninguém com ninguém (até porque definir quem é quem é não algo que se faça sem assumir certa arrogância).
      Mas, de certa forma, tudo que lemos nos transforma e vai escorrendo do intelecto para nossas ações…
      Pelo menos é o que eu acho.

    • Igor disse:

      Não acho mesmo que tenha que ter esse fim “prático”. Por isso mesmo a ressalva: ler para acariciar o próprio ego já é um fim prático.

      Quanto a matemática, acho que a diferença fundamental é essa: há quem está certo, e pronto. Acho que é difícil, senão impossível, falar disso pra quase qualquer outra área do conhecimento.

      (E, boa, cara; os comentários são sempre alguma motivação)

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