De Ferréz, Mano Brown e Reinaldo Azevedo

A discussão é velha: o apresentador de TV Luciano Hulk é assaltado, perde seu relógio Rolex, fala algumas coisas, indignado. Muita gente ri do paulistano mimado do jardins, irritado por ter perdido seu Rolex. Uma revista da Abril alega: estão culpando a vítima. Ferréz, “escritor marginal”, escreve uma espécie de artigo-conto, narrando o assalto da visão dos “correrias”. A polêmica veio de todos os lados: acusavam-no de ser apologista do crime. A asserção é estúpida, ninguém ousaria crucificar Dostoiévski alegando que seu Crime e Castigo é uma defesa do latrocínio; quem leu atentamente sabe que a personagem nunca consegue se arrepender pelo feito. Não querendo comparar os dois; o russo é superior e quanto a isso não restam dúvidas. Mas superioridade estética não justifica direito de falar de tabus. É, de fato, muito cômodo vir com o blábláblá moralista da classe média, apontando como muita gente ali, no olho do furacão da miséria, opta por viver honestamente; traficantes são minoria. Isto é verdade e não cabe vitimizar os bandidos, mas negar a estruturalidade do problema é ainda mais falho: crianças que crescem em meio a miséria e a fome veem no crime uma oportunidade fácil, como falar em moralidade para estas pessoas que, muitas, nem sabem ler? Que, muitas vezes, sequer tem saneamento básico? O crime não é heroísmo nem redistribuição, o crime tem muito do mais bruto capitalismo, está ligado, é claro, ao fetichismo da mercadoria – haja visto que o relógio roubado era um Rolex -; é uma ação que, dentro de uma democracia, deve sofrer coerção para a garantia dos direitos de seus cidadãos. Mas o crime, também, é a única “oportunidade” de mobilidade real. Cita-se Joaquim Barbosa, mas se todos os favelados decidissem estudar e virar advogados, o país não comportaria nem 10% deles; o problema é estrutural, não de falta de vontade individual. Se não fosse tamanho o abismo entre o que ganha um lixeiro e um engenheiro, talvez isso não fosse uma questão tão monstruosa. Mas é claro: é idealismo defender uma diminuição nos rombos que separam as “classes”.

Quanto a Reinaldo Azevedo, não é preciso pensar muito pra concluir sua posição. Reinaldo é um verdadeiro arquétipo do direitista caricato, comporta em si todos os atributos da classe: é papista, dedica boa parte de seu tempo (e de suas publicações) falando mal do PT, idolatra Bruno Tolentino, apoiou John McCain e a invasão do Iraque, acha toda a área de “humanas” da USP uma porcaria e, por fim, é articulista da Veja. O curioso é que essa personalidade, por tão pitoresca, comporta um caráter de previsibilidade muito grande. Leio a notícia de um fato e, no momento seguinte, já consigo prever como será o comentário do dito cujo. Isso, aliás, é ótimo: porque torna completamente dispensável qualquer leitura de seus textos. Achei, no entanto, que um trecho merece um comentário mais detido. Publicado na Folha, em resposta ao conto de Ferréz, ele diz:

“[…] ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria.”

A grosseria dessa afirmação é tão grande que fica difícil achar um começo para uma negação. Caso qualquer um que falasse sobre algo fosse, por excelência, um empresário defensor do objeto, estaríamos em apuros: o próprio Reinaldo que, coitado, passa a vida a falar mal de Lula, deve ter votado neste; caso contrário, como garantiria seu pão de cada dia? Roubando, sabemos, é que não. Fica patente o esforço de suprimir qualquer voz de meio heterodoxo. Talvez, e acredito nisso, Ferréz não seja um bom escritor – esteticamente falando -, muito provavelmente não o é, mesmo; a inovação está numa perspectiva mais autêntica de um mundo até onde os acadêmicos e literatos não chegam senão como estrangeiros, como outsiders. O valor, aí, não é estético: é sociológico. E se há o fetiche e a aura ao redor do criminoso, vale a pena arriscar: é porque eles existem, mesmo.

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