Uma Incessante Busca pelo Eu


Achava que era da solidão que estava tentando escapar, e não de si mesmo. Mas a rua prosseguia: como os gatos, todos os lugares se pareciam para ele. Mas em nenhum deles ficaria tranquilo. Porém a rua seguia com seus humores e fases, sempre vazia: ele podia ver-se como em incontáveis avatares, em silêncio, condenado ao movimento, impelido pela coragem de esmorecido e atiçado desespero; pelo desespero da coragem cujas oportunidades precisavam ser esmorecidas ou atiçadas.



(FAULKNER, W.; Luz em Agosto, p. 198)


Sartre diferenciava o humano das demais existências afirmando que, ao passo que todas elas possuíam atributos existenciais previamente estabelecidos (da tesoura, o corte etc.), ele só possuiria uma: a faculdade de se inventar, de fazer a si mesmo. A isso se chamaria liberdade; a liberdade é a escolha mandatória de definir a própria essência. O eu, no entanto, não se dá sozinho, isolado do mundo; o eu é um mitsein (ser-com) e só se dá na medida em que se liga e desliga de outros: humanos, objetos, ideias etc. Nós nos construímos nos outros e com os outros.

Essa construção não brota do nada; na verdade, antes de construção, é uma busca: uma busca por algo que chamamos de identidade.

Luz em Agosto, de William Faulkner, é, além de um acurado painel da vida no sul dos Estados Unidos pós guerra civil, uma tragédia sobre essa busca pela identidade em meio a um mundo destruído e destituído de esperança. O livro alterna entre diversas personagens, que se entrecruzam em um acontecimento crucial, na cidade de Jefferson; cada qual dessas personagens, ao mesmo tempo que ligada à trama coletiva, é dotada de angústias próprias e motivações particulares. Cada uma delas, à sua forma, tenta encontrar a própria face, algo em que se agarrar. Talvez o caso mais emblemáticos seja do assassino Joe Christmas. Ele, que termina morto, passa todo o tempo provocando conflitos, sem conseguir acarinhar uma mão de caridade qualquer; ele é um selvagem, um estrangeiro, literalmente, porque não a segmento social que o aceite sem um olhar de suspeita. Christmas é um filho fora de casamento de uma branca com um homem dotado de “sangue negro”; o avô assassina o pai antes que ele nasça, e ele cresce, num orfanato para brancos, isolado por todas as crianças que mimetizam a sociedade adulta, chamando-no de “nigger”. Os adultos não sabem de sua origem, caso contrário, seria inaceitável deixá-lo ali; mas os conflitos vão surgindo. E é assim que, ao longo do livro, que culmina na sua morte, ele se degladia o tempo todo em meio a grupos que o rejeitam: pelos brancos, por ser negro; pelos negros, por ser branco. Em certo momento, alguém fala:

“‘Quem lhe disse que sou preto, seu branquelo imprestável?’ e ele diz ‘Eu não sou preto’ e o preto diz: “Você é pior que isso. Você não sabe o que é. E mais que isso, nunca vai saber. Vai viver e vai morrer e nunca vai saber’ […]”

A resposta é profética.

Embora a tensão racial domine, logicamente, o livro todo; não são só preocupações de cor de pele que determinam as angústias individuais de cada um. Uma mulher que engravida e persegue, sem duvidar da integridade do homem que a engravidou e que o tempo todo foge dela; um outro homem que mais de trinta anos trabalhou arduamente, sem atentar para alguma vida além disso, e subitamente se apaixona e começa a acompanhar para todos os lugares; um ex-pastor que nunca teve vocação, e não se ordenou senão para buscar as próprias origens, pregando na cidade em que seu avô morrera durante um conflito; uma nortista, que dedicava sua vida aos negros, em meio a essa estranha cidade do sul. São estas algumas das faces que se perdem em meio a escuridão; que, em meio a ela, tateiam, desesperadamente, para achar alguma luz que as ilumine, que as revele alguma segurança, alguma coisa a que se agarrar.

De Luz em Agosto poderia ser dito que é uma interessante reconstrução da vida em um período histórico dos Estados Unidos. Seria verdadeiro. No entanto, também é muito mais que isso: é um retrato da figura humana em seus anseios mais primordiais: de pertencença, de acolhimento; e com seu fantasma mais fundamental: o da liberdade, que açoita e atormenta mas que, ainda sim, é a única coisa que nos faz humanos.

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