Big Brother ou o Jogo da Exclusão


Ao contrário do que pode se pensar mais rapidamente, o fenômeno Big Brother não é algo de todo desprezível. Digo o fenômeno porque não estou falando do programa; não se trata de discutir se este é bom ou ruim – mas de analisar todo o acontecimento. No Brasil, a décima primeira edição começa agora; ignoro índices de ibope, mas a audiência deve ser exorbitante, como sempre.

Defendo que o todo não deve ser analisado de forma rasa, pelo contrário. Conforme o programa foi ganhando notoriedade, foram desenvolvidos diversos estudos para tentar explicar a aderência do “reality show”. Uma delas, de Zygmunt Bauman, que li a alguns anos em seu “Medo Líquido”, foca na sociedade articulando-se por meio da exclusão. Não vou falar mais detidamente sobre Bauman porque, na verdade, li há muito tempo e não tenho anotações nem grifos para clarear a teoria do polonês; também porque não interessa tanto, aqui. Mas, indo ao ponto: o jogo se dá pela exclusão sucessiva; internamente, existe uma luta envolvendo regras mirabolantes e intrigas. O que torna completamente irônico a alcunha de “reality” no gênero do programa; a realidade é uma construção apresentada às câmeras para alcançar um prêmio, a realidade é farsa, é simulacro. No entanto, voltando à temática da exclusão: o microcosmo que o elenco do programa representa – uma espécie de miniatura artificial e maquiada dos tipos urbanos – se sustenta com uma sistemática exclusão punitiva de partes do corpo social. É punitiva porque decorre de julgamentos moralistas dos espectadores, e dos próprios participantes, ainda que as justificativas sejam sempre teatrais. Trata-se de uma sociedade-tribunal: os membros, constantemente julgados por suas ações, não tem senão uma vaga ideia do código ético que devem seguir, que não é senão calcado em preconceitos populares e aliado à lógica do mercado.

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No filme Dark Knight, existe um esforço em realizar uma desconstrução do “bem” e do “mal” como opostos cristalizados, sugerindo que no indivíduo coabitam os dois, em desarmonia e conflituosamente. Em uma cena há um “joguinho”, que é um inteligente dilema ético. Ignoro se a ideia é original, suspeito que não. Resumindo: tratam-se de dois barcos, os dois carregados de pessoas e explosivos; a diferença é que em um estão criminosos de uma penitenciária e, no outro, cidadãos comuns. As duas embarcações estão marcadas para explodir automaticamente, a não ser que uma delas estoure antes, o que pode ser feito por meio de um detonador, presente no barco. Os barcos tem o detonador trocado, então, cada um, pode explodir o outro, salvando sua pele. A pergunta é: para além do pragmatismo, vale mais morrer inocente, ou viver como um assassino? A vida de criminosos vale menos que a dos outros? O jogo da exclusão é uma cópia do programa de TV; a “exclusão da casa”, uma morte atenuada. Nunca, por ideais, um participante do Big Brother se insurgiu contra o sistema; imagino que existam uma infinidade de contratos, ainda sim, o mais interessante é notar que tudo é um construto essencialmente humano: não existe lei irrevogável que limite o indivíduo a basear sua existência na eliminação do irmão. É tudo hábito e aceitação do poder imaterial.

Cabe ao homem moral pensar além do mero consequencialismo. Optando em não apertar o detonador, não se está “escolhendo a morte de todos”, senão evidenciando que existe um código interno da ética que impede que o subjetivo participe deste jogo. A escolha não foi a explosão ou não, mas a negação em deliberar uma escolha em frente a proposta desumana.

Dark Knight é um filme ficcional. Nele, os bandidos optam por não matar ninguém, não sem conflitos internos. Os cidadãos comuns apertam o dispositivo, mesmo que este acabe sem disparar. Penso que, em nosso cotidiano, a complexidade da decisão dos vilões do filme não se apresente muito costumeiramente; o estado paralítico da alienação não nos deixa enxergar que sempre existe a possibilidade da recusa do jogo. Neste sentido, Big Brother é uma cópia fiel da sociedade: ainda não se tem notícia de alguém que se recusou a votar (ou acho que não se tem, pelo menos).

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