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Arquivo mensal: fevereiro 2011

Tese nº1

A poesia é a desbanalização do banal; é tornar inaudito um fato trivial (e todo fato é trivial, bem como inaudito). Neste sentido, a linguagem que substitui o filtro cinza por matizes coloridos é sempre poética, ao contrário da meramente descritiva, monótona.

Mas a linguagem meramente descritiva não existe, e toda expressão é contaminada pelo lirismo. Assim: toda fala é musical; todo texto, lírico; todo andar, uma dança.

Tese nº2

Chama-se Deus o conjunto estrutural de princípios, supostos imutáveis, aos quais não é possível desobedecer.

O deôntico, o dever ser, e tudo o que este abarca – as artes, a moral, a política etc. – chama-se Homem. Este, ainda que forçosamente submetido ao Deus ignoto, afirma-se unicamente por sua liberdade; é a única instância verdadeira criadora: de si.

Tenho querido falar disso há tempos, só me faltou a fagulha de inspiração inicial, talvez. Por outro lado, o tempo decorrido desde o acontecimento que deu início à discussão, me deu a oportunidade de ler um número bastante plural de opiniões.

O fato: toda a confusão em torno do possível fechamento, por motivos econômicos, do cinema HSBC Belas Artes, em São Paulo; a questão do papel estatal na pendenga etc.

A tal democracia de mercado, diziam os liberais, era o único meio legítimo de manter um negócio; em outras palavras, seria incorreto passar a conta aos contribuintes que nada tem a ver com a defasagem financeira e econômica que representa o cinema de rua, isto tudo, para uns poucos gatos pingados saudosistas poderem frequentá-lo. O argumento só erra quando se apoia num suposto subsídio do governo, quando não era essa a pauta verdadeira, mas não entrarei em pormenores. A questão é: o que é mais democrático, legar tudo ao mercado que, em última instância, é a vontade popular ou, ao contrário, deitar sob as contas públicas gastos com cultura, favorecendo uma gama plural e heterodoxa de opções? Sabemos que a tendência de mercado é a homogenização e a mediocridade, e isso não há de se negar: os cinemas que resistem e lotam salas, hoje, são os tais cinemas de shopping, que pecam por n motivos, mas, primariamente, pela programação quase exclusiva de blockbusters e enlatados americanos. Com a proliferação de meios individuais (o DVD, por exemplo), as salas também esvaziam, e o negócio, em muitos casos, não é mais rentável. É um fenômeno muito curioso como, em muitas cidades do interior, os cinemas surgiram, dando lugar a Igrejas Evangélicas e congêneres. Lucro por lucro, o primeiro negócio é decadente; o segundo cresce cada vez mais – assim como as contas dos bispos, “apóstolos” e agregados.

O maior problema é que, ao negar que seja um ganho submeter tudo a um mercado impessoal, acabo ficando sem opções: também não é justo que todos paguem para meu luxo de poder ver filmes não-americanos em salas vazias de cinema. Sinto-me defendendo que pagassem à mim meu lazer, por isso não consigo agarrar a bandeira. O melhor, talvez, seria prover uma educação de maior qualidade que elevasse, de alguma forma, a crítica do público; isso não está de todo correto, também, porque quem paga 20 reais num cinemark teve como bancar uma escola decente: o faz por opção, não ignorância.

Nessa indecisão, fica também um forte apelo contra o argumento de que a concorrência mercadológica faz as coisas melhores. O crescimento baseado tão somente no crescimento gera absurdos do ponto de vista do bom senso: que é o nosso crescimento econômico, fundado no consumo do supérfluo e do desnecessário, que gera, ironicamente, cada vez produtos de pior qualidade. A fórmula é simples: para manter a economia acessa é preciso comprar, para comprar, é preciso ter necessidades; ou seja, o melhor negócio é fabricar bombas-relógio, produtos que quebram sozinhos depois de curtos períodos, ao mesmo tempo que se destrói qualquer perspectiva da reciclagem e do conserto. A tal da livre concorrência acaba premiando aqueles que fazem os piores produtos, enquanto assassina os que se comprometem com a qualidade daquilo que fabricam. Criamos máquinas para trabalhar menos, o que conseguimos é, ao contrário, trabalhar mais; tudo para suprir necessidades que não existem – e o consumo é o motor da vida nos centros urbanos.

Sobre o último parágrafo, recomendo o documentário Obsolescência Programada.

“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar”

Meu primeiro contato com Vinícius de Moraes foi, indiretamente, pelo album musical, em parceria com Toquinho, “Arca de Noé”. Sim, isso foi durante a infância. Depois, muito depois, fui conhecê-lo através da música: a música de Baden Powell. Ouvi “Canto de Ossanha” e fiquei encantado de primeira. Depois, fui atrás dos outros Afrosambas, e gostei bastante do que ouvi. Partindo daí, conheci Vinícius musicalmente: em suas parcerias com Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho etc. Não conseguia, no entanto, deixar de aceitar aquela velha opinião de que ele era um músico popular decente, mas um poeta menor: poetinha.

Fui obrigado a dar uma segunda considerada por motivos práticos: a Antologia Poética havia sido escolhida como obra obrigatória no vestibular que me colocaria na universidade, em 2009. De começo, torci o nariz: tinham tirado Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Drummond para incluir o Cortiço, Capitães e o livro de Vinícius. No final das contas resolvi dar uma olhada no livro (mesmo que fosse desnecessário: para analisar um poema em vestibular é só limitar-se aos chavões de manuais de cursinho) e demorei, mas acabei me surpreendendo. O poema que me chamou a atenção, em primeiro lugar, foi o curioso “Elegia Quase uma Ode“. De um singular experimentalismo formal, e não fugindo da temática lírica central, mas abordando-a de nova perspectiva, aquilo estava muito longe do “poetinha camarada”, do ingênuo compositor de versinhos de amor (que depois fui descobri-los muito melhor do que eram). Depois da iniciação, fui examinando o livro com mais cuidado. A primeira “fase” de Vinícius – que Ferreira Gular chegou a dizer que não era o próprio, e que Vinícius foi se tornando Vinícius ao longo da vida – é um um pouco pedregosa, difícil de engolir. Os poemas do místico estudante jesuíta, que se filiou ao Movimento Integralista, eram imbuídos de uma pose (o título do primeiro livro publicado, por exemplo, era um imponente e pomposo “Forma e Exegese”) e de um transcendentalismo místico que nem de longe aludem ao Vini, aquele bebedor compulsivo que se casou 9 vezes. Arrisco dizer que esta primeira fase era uma luta interna em que a poesia servia como contra-afirmação da própria natureza do poeta: estava-se tentando ser algo que não se podia ser, onde a referência mais óbvia era São Paulo, que dizia: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”. (Romanos 7, 19)

Pois bem, superada essa crise, vem a segunda “fase”, aquela pelo qual ficou mais conhecido, mas que não é, nem de longe, homogênea. Poderia-se dizer: largava a postura mística, e isso seria aceitável. Melhor seria dizer que a postura mística afrancesada, à século XIX, tinha se escondido, e que, agora, nascia outra coisa. Mas a forma rígida não desparece: convivendo harmoniosamente com as novas tentativas, as formalidades consagradas se acomodavam na poética. Muitas das poesias mais conhecidas desta fase são sonetos. E não era preciso quebrar as amarras da métrica para inovar: em Soneto da Intimidade, por exemplo, tudo que de sério poderia haver se dissolve, num poema que é quase uma brincadeira, e que, ainda sim, conserva o rigor formal tradicional.

Antônio Cândido disse o autor de “Balada do Mangue” não poderia ser considerado senão um grande poeta. E então, por que tanta insistência na pequenez, no poetinha? O fato é que a vida de Vinícius é indissociável de sua obra e, talvez, seu desapego à própria seriedade e imagem tenham deitado uma sombra negativa sobre sua obra poética. Em um nível pragmático: seu gênio acabou com sua carreira no Itamaraty; os homens austeros e graves certamente não suportavam ter em tão alta conta um homem que, ainda que brilhante, sentava-se à mesa em shows de música popular, junto de uma garrafa de uísque, vestindo-se com simplicidade. João Cabral de Mello Neto disse-lhe que, se nascesse no Brasil um homem com o talento de Vinícius e com sua disciplina, aí, então, este país seria berço de um grande poeta. A verdade é que Vinícius não poderia viver com a “dor de cabeça” de João Cabral: ele preferia os amigos, a bebida e as mulheres a qualquer consideração sobre glórias canônicas. Dedicou toda sua vida a buscar aquilo que ele sabia inatingível, mas que, enfim, era sua única possibilidade. Disse que preferia viver a ser feliz.

Se estava certo ou errado, não direi; que foi coerente, é inegável. Escreveu, uma vez:

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

***



Biutiful, do diretor Alejandro González Iñárritu, não é um grande filme. Ele tem dividido opiniões: aqueles que amam e os que odeiam (porque achar um filme desse naipe mediano é odiá-lo, para alguns). Eu tento me posicionar entre os dois grupos, mas admito que tendo mais para o segundo. Explico:

Em Biutiful assistimos a tragédia de um trambiqueiro espanhol que se vê, de repente, portador de um câncer incurável e que o deixou em estado terminal. Ele não tem dois meses de vida. Além de tudo, Uxbal é pai solteiro de dois filhos e médium. O problema do filme é justamente esse: ao pintar a tragédia pessoal de um homem, o diretor optou por tentar ligá-la a todos os tipos de problemas sociais, morais e religiosos possíveis, o que torna a somatória um sopão insosso e, sobretudo, raso. O homem trabalha com imigrantes ilegais, que são presos; trabalha com chineses semi-escravos chefiados por um casal, também de chineses, homossexual; sua (ex)mulher é drogada, bipolar e mantém relações com seu irmão; seus filhos possuem diversos problemas, principalmente o mais novo etc. Não bastasse isso, cada cenário é capturado com a maior repulsividade possível; a fotografia faria inveja a qualquer escritor naturalista de nome. A opção estética chega a beirar obsessão quando se repetem incessantemente takes de Uxbal indo ao banheiro urinar sangue.

Nessa miríade de tristeza, que beira o absurdo, falta o desenvolvimento de qualquer um dos dramas. A mulher aparece pouco, e não se sabe nenhuma de suas motivações; os chineses são robôs sonâmbulos sem personalidade e os chefes, os homossexuais, são inexpressivos; os africanos aparecem em torno de três vezes, e suas falas são quase nulas. A impressão que fica é que, ao tentar fazer uma verdadeira enciclopédia da dor, o diretor acabou criando uma série de relatos vagos que se parecem mais como sinopses. As temáticas são todas interessantíssimas, mas incorrem no mesmo defeito de serem, enfim, apenas sinopses.

Se há, e há, algo de muito positivo, e a belíssima autação de Bardem, o Uxbal, que incorporou as dores do personagem com muita habilidade. O que se vê, realmente, é um homem que transpira agonia, e que busca uma redenção. Talvez, esta tenha sido um tanto forçada, ao final do filme: um encontro com o pai, exilado que morreu aos 20 anos, de tuberculose, no além-mundo.


El Laberinto del Fauno, filme dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro, é um interessante relato da guerra civil espanhola. Interessante porque aborda, simultaneamente, a questão política da guerra civil e a questão do fim da infância, da fantasia ou mesmo da magia. Conforme o enredo se desenrola, observam-se diversos atos de violência e desumanidade cometidos por mãos fascistas. Um camponês que, sem chance de se defender, é morto a pauladas de uma garrafa; um guerrilheiro que é capturado e, torturado durante uma noite inteira, implora pela morte na manhã seguinte. O médico que se compadece e o ajuda a terminar o sofrimento é sumariamente executado.

Se o filme tem um defeito, é a glorificação dos guerrilheiros como homens bons e fortes, e que são “humanos” em meio ao horror da guerra. Hemingway poderia ser fiel à causa republicana, mas não deixaria de relatar os abusos cometidos por esse lado. Em seu excelente “Por Quem os Sinos Dobram” ele, ao contrário do estereótipo que o pinta como “machão” que faz uma apologia da brutalidade, mostra toda tragédia do combate. Há um capítulo sem igual em que uma republicana conta em detalhes o massacre aos fascistas em sua vila. É preciso fibra para alcançar o final do relato; nele, vemos o mais vil e sórdido da natureza humana. É uma demostração de que a guerra, ainda que seja a última alternativa em alguns casos, é sempre uma atrocidade, e que não há possibilidade de um combate mais “humano”. Muita gente vê como contradição o próprio escritor ter cometido “desumanidades”: ter matado um prisioneiro alemão desarmado, enquanto que personagens suas, como o viejo Anselmo, choravam cada assassinato que cometiam.

Para não deixar o leitor curioso, narro uma parte da cena: 20 fascistas capturados e um padre são reunidos no ayuntamiento. Posteriormente, duas fileiras paralelas de camponeses são juntadas à saída do local; cada qual portando manguais, foices, porretes e congêneres. Os fascistas vão sendo soltados, um a um, apanham até a morte ou inconsciência, e depois são jogados num penhasco. No começo, o medo assola os camponeses: um chora e treme, alegando que nunca matara alguém. Isso dura até um xingamento do terceiro fascista. O álcool, a paixão e o rancor transformam os homens: os assassinatos, a partir daí, são terríveis; homens espancados, queimados e, por fim, o padre que se agarra à cadeira e é trucidado com foices cravadas às suas costas.

No fim, o que os sinos estão a dizer? Arrisco que, em sua própria linguagem, cada vida é, a seu modo, inestimável e a pior carnificina é a anônima, cometida no campo de batalha.

Podiam falar:
Em Shakespeare ou n’A Bíblia;
no Amor ou no Ódio;
na poesia, nas danças;
na música de Bach,
Podiam falar.

Podiam falar:
Nas órbitas celestes;
no Prazer e na Dor;
em Deus ou o abismo;
na vaga angústia indeterminada,
Podiam falar.

Podiam falar; podiam, podiam.

Mas, para ele, a vida nunca seria senão
aquele código obscuro
grafado na ignorada gramática das bases nitrogenadas.