Violência e Estupidez


El Laberinto del Fauno, filme dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro, é um interessante relato da guerra civil espanhola. Interessante porque aborda, simultaneamente, a questão política da guerra civil e a questão do fim da infância, da fantasia ou mesmo da magia. Conforme o enredo se desenrola, observam-se diversos atos de violência e desumanidade cometidos por mãos fascistas. Um camponês que, sem chance de se defender, é morto a pauladas de uma garrafa; um guerrilheiro que é capturado e, torturado durante uma noite inteira, implora pela morte na manhã seguinte. O médico que se compadece e o ajuda a terminar o sofrimento é sumariamente executado.

Se o filme tem um defeito, é a glorificação dos guerrilheiros como homens bons e fortes, e que são “humanos” em meio ao horror da guerra. Hemingway poderia ser fiel à causa republicana, mas não deixaria de relatar os abusos cometidos por esse lado. Em seu excelente “Por Quem os Sinos Dobram” ele, ao contrário do estereótipo que o pinta como “machão” que faz uma apologia da brutalidade, mostra toda tragédia do combate. Há um capítulo sem igual em que uma republicana conta em detalhes o massacre aos fascistas em sua vila. É preciso fibra para alcançar o final do relato; nele, vemos o mais vil e sórdido da natureza humana. É uma demostração de que a guerra, ainda que seja a última alternativa em alguns casos, é sempre uma atrocidade, e que não há possibilidade de um combate mais “humano”. Muita gente vê como contradição o próprio escritor ter cometido “desumanidades”: ter matado um prisioneiro alemão desarmado, enquanto que personagens suas, como o viejo Anselmo, choravam cada assassinato que cometiam.

Para não deixar o leitor curioso, narro uma parte da cena: 20 fascistas capturados e um padre são reunidos no ayuntamiento. Posteriormente, duas fileiras paralelas de camponeses são juntadas à saída do local; cada qual portando manguais, foices, porretes e congêneres. Os fascistas vão sendo soltados, um a um, apanham até a morte ou inconsciência, e depois são jogados num penhasco. No começo, o medo assola os camponeses: um chora e treme, alegando que nunca matara alguém. Isso dura até um xingamento do terceiro fascista. O álcool, a paixão e o rancor transformam os homens: os assassinatos, a partir daí, são terríveis; homens espancados, queimados e, por fim, o padre que se agarra à cadeira e é trucidado com foices cravadas às suas costas.

No fim, o que os sinos estão a dizer? Arrisco que, em sua própria linguagem, cada vida é, a seu modo, inestimável e a pior carnificina é a anônima, cometida no campo de batalha.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: