Vinícius, Velho, Saravá

“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar”

Meu primeiro contato com Vinícius de Moraes foi, indiretamente, pelo album musical, em parceria com Toquinho, “Arca de Noé”. Sim, isso foi durante a infância. Depois, muito depois, fui conhecê-lo através da música: a música de Baden Powell. Ouvi “Canto de Ossanha” e fiquei encantado de primeira. Depois, fui atrás dos outros Afrosambas, e gostei bastante do que ouvi. Partindo daí, conheci Vinícius musicalmente: em suas parcerias com Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho etc. Não conseguia, no entanto, deixar de aceitar aquela velha opinião de que ele era um músico popular decente, mas um poeta menor: poetinha.

Fui obrigado a dar uma segunda considerada por motivos práticos: a Antologia Poética havia sido escolhida como obra obrigatória no vestibular que me colocaria na universidade, em 2009. De começo, torci o nariz: tinham tirado Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Drummond para incluir o Cortiço, Capitães e o livro de Vinícius. No final das contas resolvi dar uma olhada no livro (mesmo que fosse desnecessário: para analisar um poema em vestibular é só limitar-se aos chavões de manuais de cursinho) e demorei, mas acabei me surpreendendo. O poema que me chamou a atenção, em primeiro lugar, foi o curioso “Elegia Quase uma Ode“. De um singular experimentalismo formal, e não fugindo da temática lírica central, mas abordando-a de nova perspectiva, aquilo estava muito longe do “poetinha camarada”, do ingênuo compositor de versinhos de amor (que depois fui descobri-los muito melhor do que eram). Depois da iniciação, fui examinando o livro com mais cuidado. A primeira “fase” de Vinícius – que Ferreira Gular chegou a dizer que não era o próprio, e que Vinícius foi se tornando Vinícius ao longo da vida – é um um pouco pedregosa, difícil de engolir. Os poemas do místico estudante jesuíta, que se filiou ao Movimento Integralista, eram imbuídos de uma pose (o título do primeiro livro publicado, por exemplo, era um imponente e pomposo “Forma e Exegese”) e de um transcendentalismo místico que nem de longe aludem ao Vini, aquele bebedor compulsivo que se casou 9 vezes. Arrisco dizer que esta primeira fase era uma luta interna em que a poesia servia como contra-afirmação da própria natureza do poeta: estava-se tentando ser algo que não se podia ser, onde a referência mais óbvia era São Paulo, que dizia: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”. (Romanos 7, 19)

Pois bem, superada essa crise, vem a segunda “fase”, aquela pelo qual ficou mais conhecido, mas que não é, nem de longe, homogênea. Poderia-se dizer: largava a postura mística, e isso seria aceitável. Melhor seria dizer que a postura mística afrancesada, à século XIX, tinha se escondido, e que, agora, nascia outra coisa. Mas a forma rígida não desparece: convivendo harmoniosamente com as novas tentativas, as formalidades consagradas se acomodavam na poética. Muitas das poesias mais conhecidas desta fase são sonetos. E não era preciso quebrar as amarras da métrica para inovar: em Soneto da Intimidade, por exemplo, tudo que de sério poderia haver se dissolve, num poema que é quase uma brincadeira, e que, ainda sim, conserva o rigor formal tradicional.

Antônio Cândido disse o autor de “Balada do Mangue” não poderia ser considerado senão um grande poeta. E então, por que tanta insistência na pequenez, no poetinha? O fato é que a vida de Vinícius é indissociável de sua obra e, talvez, seu desapego à própria seriedade e imagem tenham deitado uma sombra negativa sobre sua obra poética. Em um nível pragmático: seu gênio acabou com sua carreira no Itamaraty; os homens austeros e graves certamente não suportavam ter em tão alta conta um homem que, ainda que brilhante, sentava-se à mesa em shows de música popular, junto de uma garrafa de uísque, vestindo-se com simplicidade. João Cabral de Mello Neto disse-lhe que, se nascesse no Brasil um homem com o talento de Vinícius e com sua disciplina, aí, então, este país seria berço de um grande poeta. A verdade é que Vinícius não poderia viver com a “dor de cabeça” de João Cabral: ele preferia os amigos, a bebida e as mulheres a qualquer consideração sobre glórias canônicas. Dedicou toda sua vida a buscar aquilo que ele sabia inatingível, mas que, enfim, era sua única possibilidade. Disse que preferia viver a ser feliz.

Se estava certo ou errado, não direi; que foi coerente, é inegável. Escreveu, uma vez:

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

***


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3 comentários
  1. gabriel disse:

    O Vinícius deve ser o cara mais coerente ever.

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