Cinema, Mercado e outras milongas

Tenho querido falar disso há tempos, só me faltou a fagulha de inspiração inicial, talvez. Por outro lado, o tempo decorrido desde o acontecimento que deu início à discussão, me deu a oportunidade de ler um número bastante plural de opiniões.

O fato: toda a confusão em torno do possível fechamento, por motivos econômicos, do cinema HSBC Belas Artes, em São Paulo; a questão do papel estatal na pendenga etc.

A tal democracia de mercado, diziam os liberais, era o único meio legítimo de manter um negócio; em outras palavras, seria incorreto passar a conta aos contribuintes que nada tem a ver com a defasagem financeira e econômica que representa o cinema de rua, isto tudo, para uns poucos gatos pingados saudosistas poderem frequentá-lo. O argumento só erra quando se apoia num suposto subsídio do governo, quando não era essa a pauta verdadeira, mas não entrarei em pormenores. A questão é: o que é mais democrático, legar tudo ao mercado que, em última instância, é a vontade popular ou, ao contrário, deitar sob as contas públicas gastos com cultura, favorecendo uma gama plural e heterodoxa de opções? Sabemos que a tendência de mercado é a homogenização e a mediocridade, e isso não há de se negar: os cinemas que resistem e lotam salas, hoje, são os tais cinemas de shopping, que pecam por n motivos, mas, primariamente, pela programação quase exclusiva de blockbusters e enlatados americanos. Com a proliferação de meios individuais (o DVD, por exemplo), as salas também esvaziam, e o negócio, em muitos casos, não é mais rentável. É um fenômeno muito curioso como, em muitas cidades do interior, os cinemas surgiram, dando lugar a Igrejas Evangélicas e congêneres. Lucro por lucro, o primeiro negócio é decadente; o segundo cresce cada vez mais – assim como as contas dos bispos, “apóstolos” e agregados.

O maior problema é que, ao negar que seja um ganho submeter tudo a um mercado impessoal, acabo ficando sem opções: também não é justo que todos paguem para meu luxo de poder ver filmes não-americanos em salas vazias de cinema. Sinto-me defendendo que pagassem à mim meu lazer, por isso não consigo agarrar a bandeira. O melhor, talvez, seria prover uma educação de maior qualidade que elevasse, de alguma forma, a crítica do público; isso não está de todo correto, também, porque quem paga 20 reais num cinemark teve como bancar uma escola decente: o faz por opção, não ignorância.

Nessa indecisão, fica também um forte apelo contra o argumento de que a concorrência mercadológica faz as coisas melhores. O crescimento baseado tão somente no crescimento gera absurdos do ponto de vista do bom senso: que é o nosso crescimento econômico, fundado no consumo do supérfluo e do desnecessário, que gera, ironicamente, cada vez produtos de pior qualidade. A fórmula é simples: para manter a economia acessa é preciso comprar, para comprar, é preciso ter necessidades; ou seja, o melhor negócio é fabricar bombas-relógio, produtos que quebram sozinhos depois de curtos períodos, ao mesmo tempo que se destrói qualquer perspectiva da reciclagem e do conserto. A tal da livre concorrência acaba premiando aqueles que fazem os piores produtos, enquanto assassina os que se comprometem com a qualidade daquilo que fabricam. Criamos máquinas para trabalhar menos, o que conseguimos é, ao contrário, trabalhar mais; tudo para suprir necessidades que não existem – e o consumo é o motor da vida nos centros urbanos.

Sobre o último parágrafo, recomendo o documentário Obsolescência Programada.

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