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Arquivo mensal: março 2011

Algo como 97, na escola. Havia um armário onde a professora guardava algumas coisas – gizes, grampeadores, clips etc. -. Lembro-me, especificamente, de uma caixinha metálica, “gordinha” mas esguia. Suas cores eram um misto de verde-fosforescente e rosa, e havia um logotipo da marca de chiclete que ela guardara; possuía uma tampinha que não saía completamente, mas tinha dobradiças de um lado. No meio, um durex colado onde se lia: “Percevejos”. Desconhecendo a palavra, sempre imaginava que a caixa tinha, na verdade, uma coleção de insetos mortos. Em verdade, não sei se imaginava que isso fosse real ou me divertia com a ideia, apenas; provável que nunca venha a saber. Acho que depois descobri que percevejos eram taxinhas. Abrindo a caixinha?

Uma velha ampulheta com areia azulada. Fiquei observando-a e, na brincadeira, acabei quebrando. Minha mãe puniu-me privando de não-sei-quê que havia me prometido, e chorei. Talvez tivesse me guiado uma forte curiosidade e, para desvendar o objeto, tivesse que parti-lo, quebrá-lo, deduzi-lo, por fim, entre os dedos.

Um lápis triangular vermelho e um bloco de papel sulfite. Comprados em uma viagem; a primeira sem os pais como casal: ou seja, apenas um deles. O lápis tinha um grafite estranho, consigo me lembrar da impressão que ele produzia, não só no papel, mas como era o tato ao pressioná-lo contra a folha, o barulho. Peguei-o e desenhei um homem-nuvem que cuspia vento, como naquelas ilustrações de mapas antigas.

Havia uma pequena bolinha de borracha, com o desenho do Buzz Lightyear. Eu a tinha fazia muito tempo e, de alguma forma, ela trazia em si uma certa ideia nostálgica de passado. Um dia, numa brincadeira, joguei-a no vizinho numa festa de família. Não foi possível recuperá-la. Fiquei triste, mas não falei a ninguém: sabia que se explicasse o caráter como que nostálgico para alguém, não me entenderiam; podiam, até, achar-me meio maluco.

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Todas essas memórias tem uma peculiaridade em comum: são objetos que, vívidos, se afirmam numa consciência nublada, de um tempo que parece outra vida. No entanto, a lembrança sensorial – do tato, do cheiro, da cor – dos objetos permanece forte, como um contraponto, ou um ponto focal, em meio ao difuso. São todas atemporais: não falam de um dia em específico, de uma época com conjuntura; são apenas objetos estáticos no tempo e, mesmo as que envolvem um ato, são na verdade um instante, que nem vale como tempo. São cidades que, cercadas pela névoa, não pertencem à nenhum país – são ilhas nos mares da memória. É verdade que posso recordar, com alguma precisão (que nunca saberei se verdadeira), as pequenas cenas; mas também é verdade que não saberia situá-las no tempo, não saberia dizer o que acontecia na época, quais eram minhas intenções, o que tinha se passado antes e o que se passou depois. São apenas impressões, gravadas na carne, de sensações que se passaram. São as pequenas lembranças, lembranças de objetos que contam, por vias tortas, uma viagem do que transcende o tempo; do que se sente. Da vida.

Tradicionalmente, a existência é dividida analiticamente em dois: o plano material e o espiritual. O segundo nada, ou bem pouco, tem a ver com as doutrinas espíritas que ganham força pelos dias que vão. A divisão já é tão arraigada que, sem que se perceba, estende suas consequências pelos mínimos detalhes da vida cotidiana. Depois de séculos de academicismo, cristianismo e algo como um racional-cientificismo, julgamos conhecer melhor a natureza das coisas; na verdade, talvez só tenhamos desaprendido a senti-las.

“A Single Man”, traduzido, horrivelmente, como “Direito de Amar”, fala, entre várias coisas, sobre isso. O plano trágico do filme orbita ao redor de um professor universitário que, por 16 anos com um companheiro, encara o mundo cinzento depois de sua morte. Cinzento, literalmente, porque a falta de vontade de continuar a viver do protagonista realmente acaba com os matizes coloridos do seu entorno: torna tudo em preto, branco, cinza. Conforme o tempo passa, pequenos relances de cor reativam a vida: uma criança, um flerte, uma memória. Não existe uma materialidade subsistente como, tampouco, um espírito auto-suficiente. A vida, parece sentenciar, se situa na confluência destes dois que são, na verdade, um só.

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Parece-me muito sintomático – e problemático! – que os atletas não sejam intelectuais, e vice-versa. Essa dicotomia arcaica será superada no dia em que nossos professores de lógica dançarem e nossos jogadores de futebol se tornarem poetas.

“Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,”
[…]
(Álvaro de Campos, Dactilografia)


O mundo é dividido em dois: o real e o simulacro. O simulacro, não bastando o esforço dos adultos em subverter a ordem, é o que se toma como real. Não existe, em todo o mundo, problema maior que o dilema de uma criança – porque, afinal, embora às vezes tentemos esconder, permanecemos todos para sempre crianças – e todos os problemas “verdadeiros”, problemas dos homens práticos, dos engenheiros e dos generais não são senão o brinquedo que se esqueceu do propósito de ser. A guerra é um esforço vil e automático que se pratica para esquecer-se de si.

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Ele suava frio – embora não suasse em absoluto, afinal -, enquanto fervilhavam na sua cabeça cenas do fracasso, da humilhação. Os pais não compreendiam: sua irritabilidade consigo, com os outros, as respostas grossas, curtas; as notas que caíam, o semblante fechado, a música alta. Exaustos, atribuíam tudo, afinal, a alguma desfunção hormonal que, enquanto beirava o patológico, estava dentro do normal para a idade. Iravam-se: falavam-lhe de suas infâncias, sempre mais difíceis, porque recheadas de problemas reais (trabalho na infância, pais doentes, irmãos desamparados); diziam-lhe mimado porque, afinal, em meio a todas aquelas regalias o menino mantinha-se melancólico, quieto, mal-educado. A cara escola era um tormento: pouco se interessava por tudo aquilo, limitando-se a um esforço mínimo para escapar à reprovação. As verdadeiras lições que lá tomava não recebiam notas: interagir com os outros alunos parecia a tarefa mais difícil que lhe poderia ser destinada. Uns faziam aquilo tudo – os jogos, intrigas, festas – com tamanha naturalidade que era como se fosse, realmente, algo que não precisasse ser pensado; ele, talvez mesmo por pensar, é que falhava – e cada vez isso o tornava mais inapto para as empreitadas futuras.

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Era uma noite fresca, e aglomeravam-se todos ao redor do ônibus. Era uma dessas viagens escolares que carregam os alunos a algum lugar de interesse para o curso. Evidente que esse era a menor preocupação de todos os presentes: viajar, por alguns dias, com colegas; longe de pais, de rígidas imposições da rotina, era para muitos um grande alívio. A convivência tão íntima com o grupo, que tornava em família, acabava gerando dilemas: brigas, rusgas, romances; os poucos dias eram catalisadores de profundas experiências.

Engoliu seco, tentou de alguma forma controlar a respiração ofegante e acalmar as pesadas batidas do coração. O palco da ação era a pequena praça de cidade interiorana, praça ideal com coreto e banquinhos de concreto. Era num deles que ele aguardava, sentado, o que viria a acontecer, sob a treva daquela noite fresca. O banquinho se dava abaixo da copa folhada de uma grande árvore, que chacoalhava com o vento. Nada disto, porém, ele percebia: havia construído um parêntesis ao redor de si, e era impenetrável à serenidade do tempo – em verdade, seu ânimo tenso e agitado transfigurava o cenário, tornando a pacata cena um verdadeiro inferno.

Sentados um de cada lado, dois colegas: um menino e uma menina, tentavam acalmá-lo e, de algum modo, dar forças e ânimo para sua empreitada. As motivações éticas dos dois eram questionáveis; não se sabe, na verdade, o que levava tão frequentemente os colegas a agirem como casamenteiros, travestidos de cupido. Sabia-se que o faziam, e pronto. E, naquele momento, enquanto amigas preparavam, também, em forma de rito, a espiritualidade da “noiva”; diziam-lhe:

– Relaxa, vai dar tudo certo. (O amigo)

– E, você vai ver, como tudo vai mudar: a família, as notas, os amigos… Tudo vai melhorar depois disso. (A menina)

Assentiu, à beira de um colapso, com a cabeça. Aproximava-se o momento e já divisava, um pouco ao longe, a “noiva”, escoltada por duas amigas. Caminhavam sob as luzes bruxuleantes dos velhos lampiões, o que dava um ar expressionista ao processo. Conforme chegavam perto, sua consciência turvava – misturavam-se a percepção das coisas. As meninas que andavam, mexendo as pernas compassadas, ou seriam chacoalhadas?; chacocalhadas como as folhas da árvore, que dançavam contra o céu de treva. O vento – um silêncio mortal, audível. Que doía de tão silencioso. Dançavam, ainda, as folhas; dançavam, também, os casamenteiros. Dançavam em círculo, com cumprimentos, piadas – quebrar o gelo -, conversas despreocupadas mas cínicas, orbitavam os dois dançando, com suas roupas executando um balé com a forma da brisa. Circulavam com acrescida aceleração, que tornava tudo em redemoinho; então, de repente, o olhar paralisante, a face, aproximando-se lábios de lábios, algo acontecia. O coração dá uma pontada, como se houvesse recebido uma facada. Os outros já não existem mais: sumiram. Nem a árvore, os lampiões ou mesmo a praça. Restou o universo, e os dois espíritos diletantes, ambos nervosos com o único problema realmente verdadeiro que se põe a um homem – isto é, a um humano – no decorrer de sua existência. Tocam-se.

***

A claridade molenga da manhã atravessa o ferro da janela, e um raio de luz e calor amarelo pousa em seu olho cerrado. Primeiro, uma natural resistência na forma de contração; depois, o assentimento da derrota: desperta, finalmente. Cônscio, tenta voltar a dormir – indisposto a aceitar que o real era aquela preguiçosa manhã que precedia o infinito dia, e, todo o precedente, sonho: mito, irrealidade. Queria, a todos os custos, acreditar-se mais experiente. Um verdadeiro sobrevivente, que tinha juntado a suas conquistas aquele fatídico beijo. Não era mais possível, no entanto. Estava desperto e adivinhava: a vigília não traria tanta sorte.