Dactilografia

“Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,”
[…]
(Álvaro de Campos, Dactilografia)


O mundo é dividido em dois: o real e o simulacro. O simulacro, não bastando o esforço dos adultos em subverter a ordem, é o que se toma como real. Não existe, em todo o mundo, problema maior que o dilema de uma criança – porque, afinal, embora às vezes tentemos esconder, permanecemos todos para sempre crianças – e todos os problemas “verdadeiros”, problemas dos homens práticos, dos engenheiros e dos generais não são senão o brinquedo que se esqueceu do propósito de ser. A guerra é um esforço vil e automático que se pratica para esquecer-se de si.

***

Ele suava frio – embora não suasse em absoluto, afinal -, enquanto fervilhavam na sua cabeça cenas do fracasso, da humilhação. Os pais não compreendiam: sua irritabilidade consigo, com os outros, as respostas grossas, curtas; as notas que caíam, o semblante fechado, a música alta. Exaustos, atribuíam tudo, afinal, a alguma desfunção hormonal que, enquanto beirava o patológico, estava dentro do normal para a idade. Iravam-se: falavam-lhe de suas infâncias, sempre mais difíceis, porque recheadas de problemas reais (trabalho na infância, pais doentes, irmãos desamparados); diziam-lhe mimado porque, afinal, em meio a todas aquelas regalias o menino mantinha-se melancólico, quieto, mal-educado. A cara escola era um tormento: pouco se interessava por tudo aquilo, limitando-se a um esforço mínimo para escapar à reprovação. As verdadeiras lições que lá tomava não recebiam notas: interagir com os outros alunos parecia a tarefa mais difícil que lhe poderia ser destinada. Uns faziam aquilo tudo – os jogos, intrigas, festas – com tamanha naturalidade que era como se fosse, realmente, algo que não precisasse ser pensado; ele, talvez mesmo por pensar, é que falhava – e cada vez isso o tornava mais inapto para as empreitadas futuras.

***

Era uma noite fresca, e aglomeravam-se todos ao redor do ônibus. Era uma dessas viagens escolares que carregam os alunos a algum lugar de interesse para o curso. Evidente que esse era a menor preocupação de todos os presentes: viajar, por alguns dias, com colegas; longe de pais, de rígidas imposições da rotina, era para muitos um grande alívio. A convivência tão íntima com o grupo, que tornava em família, acabava gerando dilemas: brigas, rusgas, romances; os poucos dias eram catalisadores de profundas experiências.

Engoliu seco, tentou de alguma forma controlar a respiração ofegante e acalmar as pesadas batidas do coração. O palco da ação era a pequena praça de cidade interiorana, praça ideal com coreto e banquinhos de concreto. Era num deles que ele aguardava, sentado, o que viria a acontecer, sob a treva daquela noite fresca. O banquinho se dava abaixo da copa folhada de uma grande árvore, que chacoalhava com o vento. Nada disto, porém, ele percebia: havia construído um parêntesis ao redor de si, e era impenetrável à serenidade do tempo – em verdade, seu ânimo tenso e agitado transfigurava o cenário, tornando a pacata cena um verdadeiro inferno.

Sentados um de cada lado, dois colegas: um menino e uma menina, tentavam acalmá-lo e, de algum modo, dar forças e ânimo para sua empreitada. As motivações éticas dos dois eram questionáveis; não se sabe, na verdade, o que levava tão frequentemente os colegas a agirem como casamenteiros, travestidos de cupido. Sabia-se que o faziam, e pronto. E, naquele momento, enquanto amigas preparavam, também, em forma de rito, a espiritualidade da “noiva”; diziam-lhe:

– Relaxa, vai dar tudo certo. (O amigo)

– E, você vai ver, como tudo vai mudar: a família, as notas, os amigos… Tudo vai melhorar depois disso. (A menina)

Assentiu, à beira de um colapso, com a cabeça. Aproximava-se o momento e já divisava, um pouco ao longe, a “noiva”, escoltada por duas amigas. Caminhavam sob as luzes bruxuleantes dos velhos lampiões, o que dava um ar expressionista ao processo. Conforme chegavam perto, sua consciência turvava – misturavam-se a percepção das coisas. As meninas que andavam, mexendo as pernas compassadas, ou seriam chacoalhadas?; chacocalhadas como as folhas da árvore, que dançavam contra o céu de treva. O vento – um silêncio mortal, audível. Que doía de tão silencioso. Dançavam, ainda, as folhas; dançavam, também, os casamenteiros. Dançavam em círculo, com cumprimentos, piadas – quebrar o gelo -, conversas despreocupadas mas cínicas, orbitavam os dois dançando, com suas roupas executando um balé com a forma da brisa. Circulavam com acrescida aceleração, que tornava tudo em redemoinho; então, de repente, o olhar paralisante, a face, aproximando-se lábios de lábios, algo acontecia. O coração dá uma pontada, como se houvesse recebido uma facada. Os outros já não existem mais: sumiram. Nem a árvore, os lampiões ou mesmo a praça. Restou o universo, e os dois espíritos diletantes, ambos nervosos com o único problema realmente verdadeiro que se põe a um homem – isto é, a um humano – no decorrer de sua existência. Tocam-se.

***

A claridade molenga da manhã atravessa o ferro da janela, e um raio de luz e calor amarelo pousa em seu olho cerrado. Primeiro, uma natural resistência na forma de contração; depois, o assentimento da derrota: desperta, finalmente. Cônscio, tenta voltar a dormir – indisposto a aceitar que o real era aquela preguiçosa manhã que precedia o infinito dia, e, todo o precedente, sonho: mito, irrealidade. Queria, a todos os custos, acreditar-se mais experiente. Um verdadeiro sobrevivente, que tinha juntado a suas conquistas aquele fatídico beijo. Não era mais possível, no entanto. Estava desperto e adivinhava: a vigília não traria tanta sorte.

Anúncios
1 comentário
  1. Primrose disse:

    Me senti exposta ao vento de uma cidade do interior ao som das árvores e sapos.

    É engraçado perceber que quando mergulhamos num texto, numa peça de teatro, num filme ou em qualquer outra coisa, vemos um reflexo nosso. Um espelho que mostra alguma coisa de nós mesmos, mas que, ao mesmo tempo, se apresenta de maneira tão nova e desconhecida.
    Me enxerguei aí e te enxerguei aí. Contudo, vi que esse menino é tampouco você, eu ou qualquer outra pessoa. Não sei se fui clara: O personagem pertence à uma adolescência que é minha, sua, de nossos irmãos, mas que por fim pertence apenas a esses parágrafos que você escreveu.
    E que belos parágrafos, Picolino! Faz tempo que não leio algum conto seu. Às vezes sinto que seus contos chegam até a serem formais demais, mas é seu jeito de escrever e é bom ver o diferente e ver você escrevendo algo fora do comum!

    Fazia tempo que não comentava nada no seu blog, ando meio sem questionamentos e caraminholas na cabeça pra ficar te atordoando hahaha!

    Espero ler mais produções suas desse tipo para achar, assim, um motivo a mais pra que minhas mãos também possam criar histórias…

    Bom ato amanhã! Chuta o pau da barraca com a diretoria!!!

    P.S. Acho que de alguma forma nossos brothers deveriam ler isso aí. 😀

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: