Pequenas Memórias

Algo como 97, na escola. Havia um armário onde a professora guardava algumas coisas – gizes, grampeadores, clips etc. -. Lembro-me, especificamente, de uma caixinha metálica, “gordinha” mas esguia. Suas cores eram um misto de verde-fosforescente e rosa, e havia um logotipo da marca de chiclete que ela guardara; possuía uma tampinha que não saía completamente, mas tinha dobradiças de um lado. No meio, um durex colado onde se lia: “Percevejos”. Desconhecendo a palavra, sempre imaginava que a caixa tinha, na verdade, uma coleção de insetos mortos. Em verdade, não sei se imaginava que isso fosse real ou me divertia com a ideia, apenas; provável que nunca venha a saber. Acho que depois descobri que percevejos eram taxinhas. Abrindo a caixinha?

Uma velha ampulheta com areia azulada. Fiquei observando-a e, na brincadeira, acabei quebrando. Minha mãe puniu-me privando de não-sei-quê que havia me prometido, e chorei. Talvez tivesse me guiado uma forte curiosidade e, para desvendar o objeto, tivesse que parti-lo, quebrá-lo, deduzi-lo, por fim, entre os dedos.

Um lápis triangular vermelho e um bloco de papel sulfite. Comprados em uma viagem; a primeira sem os pais como casal: ou seja, apenas um deles. O lápis tinha um grafite estranho, consigo me lembrar da impressão que ele produzia, não só no papel, mas como era o tato ao pressioná-lo contra a folha, o barulho. Peguei-o e desenhei um homem-nuvem que cuspia vento, como naquelas ilustrações de mapas antigas.

Havia uma pequena bolinha de borracha, com o desenho do Buzz Lightyear. Eu a tinha fazia muito tempo e, de alguma forma, ela trazia em si uma certa ideia nostálgica de passado. Um dia, numa brincadeira, joguei-a no vizinho numa festa de família. Não foi possível recuperá-la. Fiquei triste, mas não falei a ninguém: sabia que se explicasse o caráter como que nostálgico para alguém, não me entenderiam; podiam, até, achar-me meio maluco.

***

Todas essas memórias tem uma peculiaridade em comum: são objetos que, vívidos, se afirmam numa consciência nublada, de um tempo que parece outra vida. No entanto, a lembrança sensorial – do tato, do cheiro, da cor – dos objetos permanece forte, como um contraponto, ou um ponto focal, em meio ao difuso. São todas atemporais: não falam de um dia em específico, de uma época com conjuntura; são apenas objetos estáticos no tempo e, mesmo as que envolvem um ato, são na verdade um instante, que nem vale como tempo. São cidades que, cercadas pela névoa, não pertencem à nenhum país – são ilhas nos mares da memória. É verdade que posso recordar, com alguma precisão (que nunca saberei se verdadeira), as pequenas cenas; mas também é verdade que não saberia situá-las no tempo, não saberia dizer o que acontecia na época, quais eram minhas intenções, o que tinha se passado antes e o que se passou depois. São apenas impressões, gravadas na carne, de sensações que se passaram. São as pequenas lembranças, lembranças de objetos que contam, por vias tortas, uma viagem do que transcende o tempo; do que se sente. Da vida.

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5 comentários
  1. Primrose disse:

    Que a criança
    continue correndo por entre a tua estante de memórias;
    Cheia de livros
    (visitados ou inexplorados).

    • Igor disse:

      Eu sei, mas aparentemente são, também, taxinhas:

      percevejo (â ou ê ou âi)
      (origem obscura)
      s. m.
      1. Entom. Insecto! hemíptero.
      2. Prego para papéis.
      3. Prego pequeno de cabeça grande e chata, usado para segurar à mesa o papel do desenho. = pionés, pionese

  2. Esse texto é muito bacana. Eu curto esse estilo memoir e você capturou bem a idéia. Lembra até os primeiros capítulos de Infância, do Graciliano Ramos, não pelo estilo, mas pela tônica.

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