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Arquivo mensal: abril 2011

“Esquerda” e “Direita” são signos vazios; rótulos que não rotulam nada. Historicamente, são pontuais: divisão interna na revolução francesa. O que se extrai daí é duvidoso; diria-se que esquerda comportava os que clamavam por mudanças mais radicais, enquanto a direita seria ala mais moderada. O que significa isso hoje? Pouco, muito pouco. Com o tempo, esquerda virou sinônimo de Marx; direita, por outro lado, é incrivelmente difusa. Parece, na verdade, que a direita é definida por oposição à esquerda: contra Marx, é de direita. O que faz o termo comportar nazismo e neoliberalismo, numa clara recusa a dizer algo. Mas a própria esquerda é de significado incerto. Dizem os “de esquerda” prezam mais o “social” do que o “individual” (seja lá o que isso signifique) e, no entanto, a direita canta quase em uníssono a favor da lei francesa que proíbe o uso de burcas e niqabs em espaços públicos. Laicidade, dizem eles; e no entanto não deixam de denunciar a perseguição sofrida pelos cristãos na antiga União Soviética. Esse é só um, de muitos, exemplos que ilustram a confusão que atravessa a rotulação. A principiologia usual não serve para nada, porque o que se observa na prática é esquerda e direita são antes grupinhos de ideias-prontas, muitas vezes sem qualquer compromisso de coesão interna. Trata-se, no fim, de uma questão de incorporar um arquétipo pré-fabricado, bem ao gosto da lógica de mercado: a “direita” e a “esquerda” transplantam-se, inclusive, no jeito de vestir, no celular escolhido, na bebida de preferência etc.

Triste quadro que a imprensa brasileira cultiva em seu interior. Quadro de intolerância, de ausência de debate, de ideias prontas, de nível raso e preconceitos. Quadro que bloqueia o debate e o transforma em brigas de torcedor de futebol.

Que fosse condenado eternamente (
Loucura — ao tal inferno.
A um inferno real.

Fernando Pessoa


A origem da loucura no sujeito é tão misteriosa quanto a origem do louco, ele mesmo, na sociedade. Não obstante, os dois fenômenos são tão evidentes que a única loucura verdadeira seria, na verdade, negá-los.

Muito se perguntou e se duvidou sobre o estado aterrador da demência e não é errado dizer que, se o maior terror do homem é a morte, o segundo é a perda da Razão. O homem tende a se imaginar como um autônomo, mas sabe dever essa autonomia à organicidade de seu cérebro; a loucura, que dissolve o funcionalismo deste, não seria diferente da morte, portanto. Poderia-se dizer que um homem louco não é mais um homem, senão outra coisa.

A morte consome tudo: alma e corpo; a loucura é mais terrível, dissolve a alma e transfigura o corpo, constituindo uma quimera demente, um avatar da morte, um condenado que se arrasta, sonâmbulo, pela Terra. E, assim, separando o mundo entre o Outro e o Mesmo, os homens aprenderam a temer o louco, a esconjurá-lo. O convívio de opostos era inevitável, e o extermínio só não se dava pois havia um certo medo da figura enigmática do doente mental – não se sabia que poderes possuía aquela chaga imaterial: talvez fosse transmissível, talvez trouxesse junto de si uma maldição.

***

A claridade começava a fazer-se visível naquele amanhecer, numa cidade interiorana qualquer – era uma qualquer, mas se chamava Rosário. Os poucos que moravam ali levavam sua existência vagarosa e repetitiva, anulando o tempo. Passado e Futuro confluíam-se no Presente, graças à imobilidade de seus afazeres. Mas naqueles raios que saltavam do sol aos casebres, havia algo de dúvida, havia um cheiro novo que trazia em si um quê de dúvida. Foi, nesse clima curioso, que Deolindo encontrou, em meio à terra batida da rua, um corpo estendido em meio a uns retalhos de uma velha manta cinza, puída e rasgada.

Virgê Maria!, e arregalou os olhos, num misto de curiosidade e medo. Aproximou-se do corpo, notando que, embora aparentasse trazer em si a morte, enchia e esvazia num ritmado meio molenga. Respirava, portanto. Moveu a mão suja e calejada e rolou: era corpo de mulher, de mulher velha. A cara cansada já tinha visto muitos sóis; era toda sulcada, e trazia uma camada fina de poeira. Com a mão, chacoalhou a forasteira – Ara, senhora! Senhora!. E, timidamente, uma pálpebra se abriu; tal qual florecer, uma órbita estranha se deu no ato: o olho era humano, rigorosamente, mas mais parecia um abismo – a velha parecia não ter alma; olhava o homem, atônito, com um êxtase curioso, de bicho do mato apanhado.

Foi assim que Maria das Graças – assim a chamaram por ali – passou a viver por ali. Chegou, naquele dia, como cometa, parando no chão. Avistada por Deolindo, sua presença foi comunicada logo à todo povo, que, meio sonolento, acorreu-se para ver a nova. Por qual nome a senhora atende?, perguntou-se algumas vezes, mas a velha continuava com olhar estático, um misto de admiração e medo da massa que a envolvia. Acharam que devia ter batido a cabeça, caído no pretume da noite, esquecido tudo; deviam dar-lhe café e comida, melhoraria. Então decidiu o povo que ela ficaria ali, sob os cuidados de Josefina de Jesus, mulher de Antônio. Alojou-se, então, no quartinho dos fundos, lugar onde já tinha dormido um filho que crescera e, tal passarinho, voara dali. Porém, não sendo caseira, Maria das Graças só recolhia ao quarto para dormir e, por vezes, nem isso: ficava vagueando, meio sem rumo, sacolejando pelas ruas; às vezes sentava no chão e contemplava por longas horas o estralado do céu noturno.

Com o tempo, rompeu a barreira da mudez. Não passou a falar, no entanto: soltava grunhidos, barulhos, gesticulava. Os meninos riam-se, às vezes, achando-na em meio aos campos, pequenos grupos deles atiravam-lhe pedrinhas; ela fugia, assustada, eles riam: “óia só Maria-Louca!, e uma saraivada de pedras voava em sua direção. Os homens passaram, também, a brincar com a mulher, cada qual ao seu modo. Faziam-lhe gracejos, diziam-lhe baixarias; diz-se que, enquanto ninguém via, alguns a até apalpavam em meio ao campo.

Já colada ao folclore da cidade, Maria era uma figura comum ali. Ao passar por ela, o povo tirava o chapéu, cumprimentava Dia, Maria!. Ela sorria com algo de incompreensão, mas aparentando entender já um pouco daquelas pessoas. Um dia, porém – e esse dia foi um pouco depois da festa de São João, depois ocorreu a José Altamiro lembrar – ela passou a gritar. Gritava, afobada, em meio a rua; repelia as mulheres com tapas e chutes. Não mais entrou em seu quarto aos fundos, e agora dormia em meio ao mato ou em cima da terra, depois de passar o dia de olhos arregalados, soltando gritos que pareciam vir de alguma parte do próprio inferno. O padre começou a falar no demônio, que aquela mulher estava possuída, e o povo foi se afastando da louca que cada dia parecia mais magra. Mais magra, no entanto, para depois de alguns meses começar a apresentar certo calombo crescente na barriga. Sebastiana, experiente, olhou e sentenciou: a louca estava grávida. Os homens passaram a falar no sobrenatural, no lobisomem, no saci; bichos das trevas que possuíram a mulher em demoníaco rito, e o filho não seria senão encarnação do mal. Mesmo assim, não deixavam de, passada a missa, atirarem uns aos outros olhares de censura, de duvida, de escárnio.

Foi numa noite de silêncio aterrador, que Deolindo, já em sua cama, ouviu um berro que trespassou-lhe a alma. Um berro que não era de homem, nem de mulher; um berro que trazia algo de proibido, algo de aterrador; um berro que faria até os anjos se arremedarem de medo. No dia seguinte, em meio a uma poça de sangue, Maria das Graças foi encontrada morta. Ao seu lado, vermelho e sujo, um bebê contemplava sua primeira manhã.