Rosário – Parte Um

Que fosse condenado eternamente (
Loucura — ao tal inferno.
A um inferno real.

Fernando Pessoa


A origem da loucura no sujeito é tão misteriosa quanto a origem do louco, ele mesmo, na sociedade. Não obstante, os dois fenômenos são tão evidentes que a única loucura verdadeira seria, na verdade, negá-los.

Muito se perguntou e se duvidou sobre o estado aterrador da demência e não é errado dizer que, se o maior terror do homem é a morte, o segundo é a perda da Razão. O homem tende a se imaginar como um autônomo, mas sabe dever essa autonomia à organicidade de seu cérebro; a loucura, que dissolve o funcionalismo deste, não seria diferente da morte, portanto. Poderia-se dizer que um homem louco não é mais um homem, senão outra coisa.

A morte consome tudo: alma e corpo; a loucura é mais terrível, dissolve a alma e transfigura o corpo, constituindo uma quimera demente, um avatar da morte, um condenado que se arrasta, sonâmbulo, pela Terra. E, assim, separando o mundo entre o Outro e o Mesmo, os homens aprenderam a temer o louco, a esconjurá-lo. O convívio de opostos era inevitável, e o extermínio só não se dava pois havia um certo medo da figura enigmática do doente mental – não se sabia que poderes possuía aquela chaga imaterial: talvez fosse transmissível, talvez trouxesse junto de si uma maldição.

***

A claridade começava a fazer-se visível naquele amanhecer, numa cidade interiorana qualquer – era uma qualquer, mas se chamava Rosário. Os poucos que moravam ali levavam sua existência vagarosa e repetitiva, anulando o tempo. Passado e Futuro confluíam-se no Presente, graças à imobilidade de seus afazeres. Mas naqueles raios que saltavam do sol aos casebres, havia algo de dúvida, havia um cheiro novo que trazia em si um quê de dúvida. Foi, nesse clima curioso, que Deolindo encontrou, em meio à terra batida da rua, um corpo estendido em meio a uns retalhos de uma velha manta cinza, puída e rasgada.

Virgê Maria!, e arregalou os olhos, num misto de curiosidade e medo. Aproximou-se do corpo, notando que, embora aparentasse trazer em si a morte, enchia e esvazia num ritmado meio molenga. Respirava, portanto. Moveu a mão suja e calejada e rolou: era corpo de mulher, de mulher velha. A cara cansada já tinha visto muitos sóis; era toda sulcada, e trazia uma camada fina de poeira. Com a mão, chacoalhou a forasteira – Ara, senhora! Senhora!. E, timidamente, uma pálpebra se abriu; tal qual florecer, uma órbita estranha se deu no ato: o olho era humano, rigorosamente, mas mais parecia um abismo – a velha parecia não ter alma; olhava o homem, atônito, com um êxtase curioso, de bicho do mato apanhado.

Foi assim que Maria das Graças – assim a chamaram por ali – passou a viver por ali. Chegou, naquele dia, como cometa, parando no chão. Avistada por Deolindo, sua presença foi comunicada logo à todo povo, que, meio sonolento, acorreu-se para ver a nova. Por qual nome a senhora atende?, perguntou-se algumas vezes, mas a velha continuava com olhar estático, um misto de admiração e medo da massa que a envolvia. Acharam que devia ter batido a cabeça, caído no pretume da noite, esquecido tudo; deviam dar-lhe café e comida, melhoraria. Então decidiu o povo que ela ficaria ali, sob os cuidados de Josefina de Jesus, mulher de Antônio. Alojou-se, então, no quartinho dos fundos, lugar onde já tinha dormido um filho que crescera e, tal passarinho, voara dali. Porém, não sendo caseira, Maria das Graças só recolhia ao quarto para dormir e, por vezes, nem isso: ficava vagueando, meio sem rumo, sacolejando pelas ruas; às vezes sentava no chão e contemplava por longas horas o estralado do céu noturno.

Com o tempo, rompeu a barreira da mudez. Não passou a falar, no entanto: soltava grunhidos, barulhos, gesticulava. Os meninos riam-se, às vezes, achando-na em meio aos campos, pequenos grupos deles atiravam-lhe pedrinhas; ela fugia, assustada, eles riam: “óia só Maria-Louca!, e uma saraivada de pedras voava em sua direção. Os homens passaram, também, a brincar com a mulher, cada qual ao seu modo. Faziam-lhe gracejos, diziam-lhe baixarias; diz-se que, enquanto ninguém via, alguns a até apalpavam em meio ao campo.

Já colada ao folclore da cidade, Maria era uma figura comum ali. Ao passar por ela, o povo tirava o chapéu, cumprimentava Dia, Maria!. Ela sorria com algo de incompreensão, mas aparentando entender já um pouco daquelas pessoas. Um dia, porém – e esse dia foi um pouco depois da festa de São João, depois ocorreu a José Altamiro lembrar – ela passou a gritar. Gritava, afobada, em meio a rua; repelia as mulheres com tapas e chutes. Não mais entrou em seu quarto aos fundos, e agora dormia em meio ao mato ou em cima da terra, depois de passar o dia de olhos arregalados, soltando gritos que pareciam vir de alguma parte do próprio inferno. O padre começou a falar no demônio, que aquela mulher estava possuída, e o povo foi se afastando da louca que cada dia parecia mais magra. Mais magra, no entanto, para depois de alguns meses começar a apresentar certo calombo crescente na barriga. Sebastiana, experiente, olhou e sentenciou: a louca estava grávida. Os homens passaram a falar no sobrenatural, no lobisomem, no saci; bichos das trevas que possuíram a mulher em demoníaco rito, e o filho não seria senão encarnação do mal. Mesmo assim, não deixavam de, passada a missa, atirarem uns aos outros olhares de censura, de duvida, de escárnio.

Foi numa noite de silêncio aterrador, que Deolindo, já em sua cama, ouviu um berro que trespassou-lhe a alma. Um berro que não era de homem, nem de mulher; um berro que trazia algo de proibido, algo de aterrador; um berro que faria até os anjos se arremedarem de medo. No dia seguinte, em meio a uma poça de sangue, Maria das Graças foi encontrada morta. Ao seu lado, vermelho e sujo, um bebê contemplava sua primeira manhã.

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6 comentários
  1. Primrose disse:

    Estar fora de si é estar oca. E estar oca é não mostrar nada através dos olhos.
    ***
    Gostei muito do conto! Bom ver aqui mais contos sem a rigidez da língua culta acadêmica.
    Quanto mais livre melhor 😉
    x

  2. Igor, eu achei esse seu prefácio muito desnecessário. Não por não considerar interessante, mas porque podia vir em um post separado. De certa maneira, acho que o conto “perde” com esse texto aí em cima dele hauhau. E eu não concordo que o ser humano tema perder a razão, porque é algo que não passa pela nossa cabeça acontecer (pelo menos não pela minha; já a morte é inevitável nas nossas cabeças).

    Eu achei o conto maravilhoso e concordo com a Irene!

  3. Primrose disse:

    Gui (posso chamar assim ou você não tem apelidos?),
    Todos temem a morte sim, mas temer a loucura está tão presente por aí quanto esse medo. Todo nós temos CERTEZA de que vamos morrer, mas ficar louco pode ou não ocorrer e por isso é muito assustador.
    Quando cruzamos com alguém que não aparenta normalidade nos afastamos e nos sentimos incomodados (dando graças a deus por não termos que lidar com isso). Prezamos tanto a razão que a ameaça de perdê-la (em um momento de crise aguda, por exemplo) nos deixa assustados e nos faz rejeitar o outro que consideramos louco (como se fosse um bode expiatório dos nosso próprios receios). O engraçado é pensar que quando alguém morre (ex: passamos por um acidente na rua) acontece o oposto: todos se aproximam curiosos para olhar… hahaha
    Concordo com você quando diz que o conto e o prefácio poderiam estar separados 🙂

  4. Na real, ninguém me chama pelo nome. Pode chamar de Gui sim, é o que eu mais gosto até, mas quase ninguém chama =\
    **
    É interessante isso de cruzar com alguém que não aparenta normalidade. Realmente pode haver um certo incômodo e nos sentimos aliviados de não passar por isso. É que eu não estou convencido de que possamos ou não achar que vamos ficar loucos. Eu tenho CERTEZA que não ficarei louco, e acho que isso nem passa na cabeça das pessoas (de perder a ‘razão’). Eu tenho essa certeza porque confio muito na minha razão e acredito que meus sentimentos são de uma intensidade normal que não prejudica muito a minha compreensão sobre eles. É que complicado falar até em normalidade né, então não sei bem o quanto nós todos temos ou não de loucura. Enfim, eu sei que o fato de confiar na minha razão não exclui a possibilidade de eu ficar louco, mas isso não chega a me incomodar.
    Ah, é só minha opinião, eu posso estar errado. Acho que nunca passei por um momento muito difícil também que exacerbasse tanto minha(s) loucura(s) hauahuha.
    Você sabe mais disso do que eu também, então me corrija auhahau

  5. Igor disse:

    Chame-o de Filhote. Ou Rabble. /Asso

    Por que você tem tanta certeza? Sei lá, não acredito na razão como um transcendente imutável. Várias coisas podem ferir a “normalidade” da mente, desde fundo psicológico, até mesmo fisiológico.

    E quanto ao começo: podia não fazer parte, mesmo. Mas queria que os dois fossem lidos juntos.

    Estou sem forças para escrever. 😦

  6. Primrose disse:

    Não vou corrigir nada não estamos só papeando! hahaha. Acho legal ver que isso não te passa pela cabeça, Gui (xD). E é sempre bom ter uma confiança em alguma função de si próprio caso contrário seríamos loucos o tempo todo!
    A questão que o Igor colocou (pelo menos o que eu entendo dela) é que DUVIDAMOS, ou seja, nunca estamos 100% confiantes em nossa razão, na normalidade de nossos sentimentos e no controle rígido de nossos desejos.
    Muitas vezes fraquejamos e aí surge o medo de não dar conta de si mesmo, de não conseguir seguir em frente, de ficar parado sofrendo ou de não chegar a lugar algum. Neste ponto de crise surge a possibilidade amedrontadora de ficarmos loucos. Em outras palavras, tememos um desligamento do nosso ser com a realidade tanto em relação a seus aspectos de conforto e padronização quanto a respeito de suas exigências e deveres.
    Só pra terminar: acho que podemos relacionar aquela angústia que sentimos em sonhos que corremos e corremos e não saímos do lugar (você já teve um desses?). Talvez esse seja um meio do medo da loucura se expressar muito comum para a maioria de nós.
    😀
    (ai ai, em vez de estudar Jung estou aqui escrevendo hahaha)

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