Destros e Canhotos

“Esquerda” e “Direita” são signos vazios; rótulos que não rotulam nada. Historicamente, são pontuais: divisão interna na revolução francesa. O que se extrai daí é duvidoso; diria-se que esquerda comportava os que clamavam por mudanças mais radicais, enquanto a direita seria ala mais moderada. O que significa isso hoje? Pouco, muito pouco. Com o tempo, esquerda virou sinônimo de Marx; direita, por outro lado, é incrivelmente difusa. Parece, na verdade, que a direita é definida por oposição à esquerda: contra Marx, é de direita. O que faz o termo comportar nazismo e neoliberalismo, numa clara recusa a dizer algo. Mas a própria esquerda é de significado incerto. Dizem os “de esquerda” prezam mais o “social” do que o “individual” (seja lá o que isso signifique) e, no entanto, a direita canta quase em uníssono a favor da lei francesa que proíbe o uso de burcas e niqabs em espaços públicos. Laicidade, dizem eles; e no entanto não deixam de denunciar a perseguição sofrida pelos cristãos na antiga União Soviética. Esse é só um, de muitos, exemplos que ilustram a confusão que atravessa a rotulação. A principiologia usual não serve para nada, porque o que se observa na prática é esquerda e direita são antes grupinhos de ideias-prontas, muitas vezes sem qualquer compromisso de coesão interna. Trata-se, no fim, de uma questão de incorporar um arquétipo pré-fabricado, bem ao gosto da lógica de mercado: a “direita” e a “esquerda” transplantam-se, inclusive, no jeito de vestir, no celular escolhido, na bebida de preferência etc.

Triste quadro que a imprensa brasileira cultiva em seu interior. Quadro de intolerância, de ausência de debate, de ideias prontas, de nível raso e preconceitos. Quadro que bloqueia o debate e o transforma em brigas de torcedor de futebol.

Anúncios
4 comentários
  1. Primrose disse:

    Que final “tapa na cara”! Curti, curti!

    Só acho que é a “esquerda” a que se diz voltada à “social” e não a direita, não é?!

    • Igor disse:

      Opa! hahaha

      Exatamente, troquei as bolas. >.<

  2. Eu, talvez, não concorde com essa ideia de que são tão vazios assim. Mas, de fato, o que se vê é que esquerda e direita figuram constantemente (principalmente entre aqueles acomodados nas posições de poder) como discursos distantes, cada vez mais, da efetividade, da ação.
    Dessa forma, temos um governo que se auto-declara como de esquerda, mas que vem tentando enfiar goela abaixo a construção da Usina de Belo Monte, desrespeitando, talvez, a própria história da esquerda em nome do “desenvolvimento” (leia-se: econômico). Acho que isso é uma deturpação de significados, mais do que um esvaziamento do conceito primordial.
    Sobre o preconceito, e por esse tema estar ligado diretamente ao direito à diferença e, portanto, à democracia, vou deixar as palavras de Jerson Kelman, ex-presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica, sobre a construção da Usina de Belo Monte, que são a prova incontestável de que o Brasil está longe de entender a democracia e tanto mais de se tornar um país democrático:
    “Para fazer omelete,
    é preciso quebrar os
    ovos!”
    “A democracia não
    deve ser um estorvo
    ao nosso
    desenvolvimento”

    • Igor disse:

      Eu concordo com você em alguns aspectos, mas acho que são dois problemas distintos. Você falou, se eu entendi direito, sobre da distância entre discurso e praxis dos grupos políticos, como no Brasil. Eu concorde que exista, mesmo. Aliás, é curioso como a direita-piada acha que o PT não é só de esquerda, mas comunista e comprometido com tramas de conspiração universal. E nos EUA dizem por aí que o Obama é comuna, também. E os de direita, hoje, se põe a favor da proibição do véu islâmico na França, supostamente, justificando-se sob a laicidade do Estado. Não obstante, também dizem:

      “Airports scrupulously apply the same laughably ineffective airport harassment to Suzy Chapstick as to Muslim hijackers. It is preposterous to assume every passenger is a potential crazed homicidal maniac. We know who the homicidal maniacs are. They are the ones cheering and dancing right now.

      We should invade their countries, kill their leaders and convert them to Christianity. We weren’t punctilious about locating and punishing only Hitler and his top officers. We carpet-bombed German cities; we killed civilians. That’s war. And this is war.”

      E a conversão ao cristianismo soa algo bem laico, então.

      Mas, bem, o problema, em particular, que me preocupa de todo é não haver uma unidade entre o que cabe nos termos: tanto em esquerda quanto em direita. Não dá pra comparar Jacobinos com Bolcheviques, com Marx, Mao, Cuba e, sei lá, Brasil. Do mesmo jeito que o nacional-socialismo é considerado, usualmente, como “ultradireita” e também é direita o liberalismo. As pessoas que assumem uma dessas bandeiras – esquerda ou direita – acabam assumindo um monte de pressupostos que, muitas vezes, são conflitantes entre si; acaba rejeitando muita coisa só por ser do rótulo oposto, sem qualquer crítica.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: