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Arquivo mensal: junho 2011

Enfin! seul! […] Mécontent de tous et mécontent de moi, je voudrais bien me racheter et m’enorgueillir un peu dans le silence et la solitude de la nuit.” – BAUDELAIRE, C.

Há algo de solitário na meditação; não a de fundo religioso, mas aquela que é a alcunha do verdadeiro pensamento e da seriedade em seu fazer. É que tem me ficado evidente cada vez mais que a meditação é avessa ao rebanho.

Há duas coisas que me irritam sobremaneira: o fundamentalismo religioso, com seus tentáculos que infiltram e poluem o Estado laico e o pseudo-materialismo cientificista arrogante, com sua presunção de redentor da humanidade que não é senão uma das crenças mais deslumbradas, infantis e acríticas que já pude conhecer. São os opostos, mas que, como já havia escrito Borges em “Os Teólogos”, se parecem bastante frente a Deus, que não se interessa muito por teologia.

Martin Heidegger falava dos dois enquanto formas falsas. Uma que preconizava uma volta impossível às origens, um regresso ao já passado; outra que fechava os olhos diante da própria historicidade de si mesma, pretendendo-se única, criadora, redentora. Assim, ele afirma:

“Contudo, o homem nem sequer poderá experimentar e pensar este recusado enquanto vaguear em torno da simples negação da era. Misturada de humildade e de arrogância, a fuga para a tradição nada consegue, tomada por si mesma, a não ser o fechar de olhos e a cegueira diante do instante histórico.

Só no perguntar e configurar criadores, a partir da força da meditação genuína, é que o homem saberá, isto é, guardará na sua verdade, aquele incalculável. Essa meditação descola o homem vindouro para aquele Entre no qual ele pertence ao ser e, no entanto, permanece um estranho no ente.” (HEIDEGGER, M.; O Tempo da Imagem no Mundo)

Já me manifestei aqui contra esse segmento do pensamento de fundo religioso mais de uma vez, acho que minha opiniões, se não estão claras, pelo menos já foram expostas. Agora é tempo de falar do reverso da moeda.

Imersos, como estamos, no caldo do mundo técnico-científico, não me parece excepcionalmente corajoso fazer apologia do ateísmo militante. Na verdade, aqui surge a solidão do verdadeiro pensador: parece que, antes de mais nada, o olhar deveria se voltar para as mazelas, as incoerências, as incapacidades e as limitações de nossa forma naturalizada de pensar – isto é, aquela que, conforme dizia Heidegger, tornou o mundo em imagem -. A empiricidade dos dados, recusando a interpretação, é perigosa de vários pontos de vista. Em primeiro lugar, a desvalorização das “ciências humanas”, que trariam em si certos ares de naftalina; que ocasiona, em segundo lugar, por uma fuga do espectro que as englobaria. A economia se diz “ciência exata”, a psicologia – sobretudo de inspiração inglesa e americana – afirma-se ciência experimental, biologia especializada. Qualquer mentalismo foi abolido e, de repente, parecemos voltar ao modelo cartesiano do relógio com suas engrenagens. Isso nos cega para dados bastante fundamentais: as categorias são constituídas por nós, a ciência também é um “poetar” e, sobretudo, atividade humana. O método não nos purga de nossa humanidade. Evidentemente a arrogância da medicina moderna, a despeito de claros progressos em várias áreas, se esquece que fundou a categoria da doença emprestando conceitos do paradigma epistêmico em que se encontrava; que o “doente” não é um dado empírico e imanente, mas um construto humano.

Mas a pior faceta da visão totalitária do empirismo é, na minha opinião, a ingenuidade da crença no progresso. Richard Dawkings diz:

Se criaturas superiores provindas do espaço algum dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão, a fim de avaliar o nível de nossa civilização sera: “Eles já descobriram a evolução?” Organismos vivos haviam existido sobre a Terra, sem nunca saberem porque, por mais de três bilhões de anos, antes que a verdade finalmente ocorresse a um deles. Seu nome era Charles Darwin. […] Não mais temos que recorrer à superstição quando defrontados com os problemas profundos: há um sentido para a vida? Para que existimos? O que é o homem? Depois de formular a última dessas questões, o eminente zoólogo G.G. Simpson assim se expressa: ‘O que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder esta pergunta antes de 1859 são inúteis e que será melhor para nós ignorá-las completamente.'” (DAWKINGS, R.; O Gene Egoísta)

Não é preciso nem comentar o caráter messiânico, que chega a ser até engraçado, do biólogo. Há uns dois milênios afirmavam as mesmas coisas de um outro homem e a semelhança entre os dois discursos é assustadora. Não obstante, há outro aspecto importante nesse trecho: a ideia de aperfeiçoamento cumulativo e linear do pensamento. Parece que nossas palavras significaram sempre as mesmas coisas e que o conteúdo simbólico nunca mudou, o que aconteceu foi nossa progressiva – mas também súbita – “iluminação”. Ora, é bom lembrar o ceticismo – e certamente esses “céticos” precisam aprender um pouco do verdadeiro ceticismo – heidggeriano. Dizia ele:

Ninguém afirmaria que a poesia de Shakespeare é mais evoluída que a de Ésquilo. Mas inda mais impossível é dizer que a apreensão moderna do ente é mais correcta que a grega. Daí que se quisermos conceber a essência da ciência moderna temos de nos libertar, à partida, do hábito de distinguira a ciência mais recente da ciência mais antiga, de um modo apenas gradual, segundo o ponto de vista do progresso.” (HEIDEGGER, M.; O Tempo da Imagem no Mundo)

Não consigo conceber como um homem moderno seja menos atemorizado diante do inaudito do ser hoje do que era antes. Não vejo como conceber modelos teóricos abstratos sobre aminoácidos acalme alguém quanto aos mistérios da existência. Não vejo, aliás, como a construção de modelos à partir do recolhimento de fatos acidentais possa construir essências – na verdade, me parece que já intuímos as essências de um campo pré-científico. Em seu texto “Esboço para uma teoria das emoções”, Jean-Paul Sartre defendia as limitações da psicologia que se limitava ao experimental, apontando para a importância do domínio simbólico referente à totalidade humana. Dizia ele:

“Se perguntarmos a um cientista: por que os corpos se atraem segundo a lei de Newton?, ele responderá: não me interessa saber, é porque é assim. E se lhe perguntarmos o que essa atração significa , ele responderá: não significa nada, ela é.” (SARTRE, J-P.; Esboço para uma teoria das emoções)

Assim, cria-se um dogma: o fato é, e nada mais. Dogma que não é mais arbitrário do que qualquer outro e que, não obstante, é a base do pensamento que totaliza o mundo na ótica do cientificismo-empirista. De novo afirmo: não sei como isso torna alguém mais seguro em relação ao absurdo que se apresenta a nós, humanos; para falar na terminologia de Camus.

Outro que não se rendeu ao otimismo que assolava – e assola – o mundo intelectual foi Wittgenstein. Sobre ele, Plínio W. Prado Jr. afirma que: “Wittgenstein nunca dissimulou a sua hostilidade visceral em face deste mundo da ‘civilização do progresso’ e do seu espírito ‘que anima a vasta corrente da civilização europeia e americana que nos cerca.’ Espírito típico de um ‘tempo de não-cultura’, do qual um sintoma maior é a ‘idolatria da ciência’, com seu efeito desastroso sobre a arte, a literatura, a sensibilidade e o senso da vida ética e religiosa.” (PRADO Jr.; P. W.; Aprender a viver – Wittgenstein e o “não-curso” de Filosofia in:: Filosofia, aprendizagem, experiência.)

Assim, considero portanto, mais do que nunca, urgente o retorno à tradição da meditação: o pensamento radical e transformador de si. Pensamento que funda, que se autofunda. Pensamento, remontando à distinção kantiana de filosofia escolástica e cósmica, que é a “ciência dos fins últimos do homem”.

“Nada se revela mais nocivo e mais perigoso do que a pretensão do estado de reprimir a liberdade de expressão. O pensamento há de ser livre, sempre livre, permanentemente livre, essencialmente livre” – Celso de Mello, STF.

Após alguma gritaria – porque o que ocorreu certamente não cabe no termo “discussão” – o STF “legalizou” a liberdade de expressão. Ou seja, aquilo em que a Marcha da Maconha tinha se transformado após a repressão policial. Já expressei minha opinião aqui diversas vezes e continuo convicto de que o desvelamento e ampliação das discussões – em nível de discussão! – não pode ser malefício algum. É evidente que isso não acontece por aqui; uns apanham e os outros vibram, mas a natureza do conflito é completamente esquecida. Os que comemoravam a ação policial contra os “maconheiros vagabundos” faziam sobre as piores bases possíveis. “Vão fazer marcha pela educação”, diziam uns. Ora, o direito a expressão é livre, cada um, conforme sua consciência, deve se manifestar conforme achar necessário. Não há sentido algum no Estado controlar as revindicações que serão feitas, isso seria um contra-senso! Que a Marcha da Maconha fosse ou não legítima não tem absolutamente nada a ver com sua proibição: o Estado deve julgar a legitimidade só em seu cumprimento, não cerceando sua manifestação. Mas é evidente aquilo de que já tinha falado aqui: o “debate” brasileiro é pura ideologia, é moralismo de um lado contra um “pseudo-esquerdismo” de outro. Porque é claro que esses mesmos que pleitearam que os jovens deveriam fazer “algo de útil” também aplaudiram a polícia pela repressão contra as ações do Passe Livre, pela redução das absurdas tarifas do transporte coletivo em São Paulo. Trata-se, antes, de protestar contra o protesto. É o que parece. Na verdade, os comentários enfurecidos que li à notícia eram até engraçado.Fala-se constantemente, por exemplo, que os ministros deveriam observar “as leis”. Que curioso, porque eu achava que eles estavam é julgando, à partir da constitucionalidade, os casos que lá chegavam. E, diferente do que parece ser a conduta normal, justificavam amplamente as decisões. E quantos não falaram, saudosos, da ditadura militar: quando as leis representavam o povo.

Dê uns tempos pra cá, venho ouvindo sem parar uns orgulhosos falando que são contra o “politicamente correto”. Ele emburrece – diria Reinaldo Azevedo, que deve se achar de inteligência luminar, ou algo parecido. Virou moda: ser politicamente incorreto é uma nova grife; os acessórios são: ser contra gays, endossar o machismo – que, afinal, essa coisa de “opressão contra a mulher” é coisa de homem mal resolvido e que não é mulher de roupa curta tem mesmo é que ser estuprada, mas, vá lá, é evidente que a culpa é tão dela quanto do estuprador. E por aí vai.

Eu acho curiosa essa mania: é como se, no brasil, a cultura padrão fosse mesmo a do politicamente correto. É como se não houvesse violência contra homossexuais; como se não houvesse discriminação etc. Antônio Prata, sempre espirituoso, imagina o cenário onde tudo isso faria algum sentido:

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru.

E, depois, termina: “Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

É um diagnóstico preciso: de repente parece que é rebeldia ser racista no Brasil. No Brasil!, por Deus, no Brasil! E, aliás, a rebeldia parece se justificar por ela mesma: ora, ainda que não fosse o comportamento da massa, aonde é que se encontra a grande inteligência nesses comportamentos? Procuro, procuro; não a vejo. E é mesmo muito irônico ver os humoristas mais influentes, assim como os articulistas das publicações de maior circulação praguejando contra a “mídia esquerdista”, a “ditadura gay” etc. Façam-me o favor!

Por último, em um texto sobre o mesmo assunto, Marcelo Rubens Paiva lembrou algo que, em virtude do meu último post, acho que vale a pena saber:

Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação violenta da PM.

Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam acreditando que a polícia estava certa: enfiar o cacete nos manifestantes.

Como os PMs que tiraram a identificação, para baterem numa boa.

E, parafraseando um escritor, “viva o povo brasileiro”.

O nome desse texto surge de uma confluência de duas referências distintas (que podem ter origem comum, não sei) que, infelizmente, são bastante ilustrativas do Brasil hoje. O “Guarda Belo” é uma figura do antigo desenho animado “Manda Chuva”; nos episódios o guarda, sempre barbeado, reto, moralizante, perseguia com cacetete em punho os malandros gatos sem-teto que se situavam às margens do convívio. Poderia parecer uma hipérbole usar o “inocente” desenho para falar de política. Não é. E a verdade é que a emblemática figura tem muito a nos dizer. Acontece que Guarda Belo também é co-protagonista de uma música; “Assim Assado”, música dos Secos e Molhados, cantada por Ney Matogrosso. Escutei bastante essa música quando pequeno e me recordo de imaginar o Guarda como o do desenho, perseguindo, ao invés de gatos, um velho mendigo de terno meio amarelado. À época eu não entendia muito o que o velho tinha feito de errado para ser assim perseguido. Até hoje ainda não entendo muito, mas quem entende?

A parte final da música diz:



Mas guarda belo não acredita na cor assim
ele decide o terno velho assim assim
porque ele quer o velho assado
porque ele quer o velho assado
mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o guarda belo é o heroi assim assado
por que é preciso ser assim assado
por que é preciso ser assim assado

Será que essa figura do Guarda – sujeito reto e de moral ilibada – é tão avessa à realidade, assim? Será que ela só encontra existência efetiva no mundo da ficção? Não acredito. Foucault nos falava do poder impessoal e horizontal da disciplina que surgia no interior da modernidade, poder que constituía o indivíduo de forma velada, atuando sobre ele de forma constante através das instituições. A verdade é que – gostando, ou não, do filósofo francês – a figura do guarda é uma caricatura deforme de tais práticas. Em verdade, é mais uma figura híbrida grotesca que nasce do lodo das práticas disciplinares em conjunto com uma moral autônoma que exige sua imposição aos outros. O Guarda Belo não é o mantenedor da ordem, mas gerente da desordem. Incorporou todas aquelas diretrizes e investe contra quem quer que seja que lhe apareça na frente – escudo de plástico e bala de borracha.

Milan Kundera, em A Valsa dos Adeuses, narra uma cena curiosa: de velhos que se reúnem para perseguir cachorros em praça pública. Supunha-se que lá eram proibidos. Assim, não só perseguem os sem dono, mas capturam os que estão com crianças, também. Jakub, um homem que não era dali, vê a cena insólita e reflete:

Os velhos senhores armados com lonas varas confundiam-se, para ele, com os guardas da prisão, os juízes e os delatores que espionavam para ver se o vizinho falava de política quando saía para fazer compras. O que levava essas pessoas à sua sinistra atividade? A maldade? Claro, mas também o desejo de ordem. Porque o desejo de ordem quer transformar o mundo humano num reino inorgânico em que tudo acontece, tudo funciona, tudo é submetido a uma vontade impessoal. O desejo de ordem é ao mesmo tempo desejo de morte, porque a vida é perpétua violação da ordem. Ou, inversamente, o desejo de ordem é o pretexto virtuoso pelo qual a raiva do homem pelo homem justifica suas sevícias.

A precisão da reflexão, e sua semelhança com a figura aqui descrita falam por si.

***

Cinismo é a torção de uma categoria intelectual abstrata para defender seu oposto. É cinismo justificar a violência e a censura da expressão enquanto manutenção da liberdade. Ora, que é liberdade senão essa expressão? Repressão violenta nunca foi, nem nunca será, a celebração da democracia. Quem defende isso não é só anti-democrático, mas opera pelo pior tipo de desonestidade intelectual: a distorção de um discurso por sofismas.

Tenho ouvido a gravação de um show, de 1960, em Paris, de Charles Mingus com Eric Dolphy. Desde que terminei de escutar a primeira faixa fico procurando algo inteligente para escrever aqui: o CD é tão bom que seria quase um crime não mencioná-lo. Mas, na verdade, por mais que tente, não surge nada, nada tenho a dizer. É que talvez a música da dupla, que na verdade não é só dupla, mas quinteto/sexteto, está bem acima das palavras.

PS: O CD está baixável no site PQP Bach. Imperdível.