O Guarda Belo

O nome desse texto surge de uma confluência de duas referências distintas (que podem ter origem comum, não sei) que, infelizmente, são bastante ilustrativas do Brasil hoje. O “Guarda Belo” é uma figura do antigo desenho animado “Manda Chuva”; nos episódios o guarda, sempre barbeado, reto, moralizante, perseguia com cacetete em punho os malandros gatos sem-teto que se situavam às margens do convívio. Poderia parecer uma hipérbole usar o “inocente” desenho para falar de política. Não é. E a verdade é que a emblemática figura tem muito a nos dizer. Acontece que Guarda Belo também é co-protagonista de uma música; “Assim Assado”, música dos Secos e Molhados, cantada por Ney Matogrosso. Escutei bastante essa música quando pequeno e me recordo de imaginar o Guarda como o do desenho, perseguindo, ao invés de gatos, um velho mendigo de terno meio amarelado. À época eu não entendia muito o que o velho tinha feito de errado para ser assim perseguido. Até hoje ainda não entendo muito, mas quem entende?

A parte final da música diz:



Mas guarda belo não acredita na cor assim
ele decide o terno velho assim assim
porque ele quer o velho assado
porque ele quer o velho assado
mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o guarda belo é o heroi assim assado
por que é preciso ser assim assado
por que é preciso ser assim assado

Será que essa figura do Guarda – sujeito reto e de moral ilibada – é tão avessa à realidade, assim? Será que ela só encontra existência efetiva no mundo da ficção? Não acredito. Foucault nos falava do poder impessoal e horizontal da disciplina que surgia no interior da modernidade, poder que constituía o indivíduo de forma velada, atuando sobre ele de forma constante através das instituições. A verdade é que – gostando, ou não, do filósofo francês – a figura do guarda é uma caricatura deforme de tais práticas. Em verdade, é mais uma figura híbrida grotesca que nasce do lodo das práticas disciplinares em conjunto com uma moral autônoma que exige sua imposição aos outros. O Guarda Belo não é o mantenedor da ordem, mas gerente da desordem. Incorporou todas aquelas diretrizes e investe contra quem quer que seja que lhe apareça na frente – escudo de plástico e bala de borracha.

Milan Kundera, em A Valsa dos Adeuses, narra uma cena curiosa: de velhos que se reúnem para perseguir cachorros em praça pública. Supunha-se que lá eram proibidos. Assim, não só perseguem os sem dono, mas capturam os que estão com crianças, também. Jakub, um homem que não era dali, vê a cena insólita e reflete:

Os velhos senhores armados com lonas varas confundiam-se, para ele, com os guardas da prisão, os juízes e os delatores que espionavam para ver se o vizinho falava de política quando saía para fazer compras. O que levava essas pessoas à sua sinistra atividade? A maldade? Claro, mas também o desejo de ordem. Porque o desejo de ordem quer transformar o mundo humano num reino inorgânico em que tudo acontece, tudo funciona, tudo é submetido a uma vontade impessoal. O desejo de ordem é ao mesmo tempo desejo de morte, porque a vida é perpétua violação da ordem. Ou, inversamente, o desejo de ordem é o pretexto virtuoso pelo qual a raiva do homem pelo homem justifica suas sevícias.

A precisão da reflexão, e sua semelhança com a figura aqui descrita falam por si.

***

Cinismo é a torção de uma categoria intelectual abstrata para defender seu oposto. É cinismo justificar a violência e a censura da expressão enquanto manutenção da liberdade. Ora, que é liberdade senão essa expressão? Repressão violenta nunca foi, nem nunca será, a celebração da democracia. Quem defende isso não é só anti-democrático, mas opera pelo pior tipo de desonestidade intelectual: a distorção de um discurso por sofismas.

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