A Moda do Incorreto

Dê uns tempos pra cá, venho ouvindo sem parar uns orgulhosos falando que são contra o “politicamente correto”. Ele emburrece – diria Reinaldo Azevedo, que deve se achar de inteligência luminar, ou algo parecido. Virou moda: ser politicamente incorreto é uma nova grife; os acessórios são: ser contra gays, endossar o machismo – que, afinal, essa coisa de “opressão contra a mulher” é coisa de homem mal resolvido e que não é mulher de roupa curta tem mesmo é que ser estuprada, mas, vá lá, é evidente que a culpa é tão dela quanto do estuprador. E por aí vai.

Eu acho curiosa essa mania: é como se, no brasil, a cultura padrão fosse mesmo a do politicamente correto. É como se não houvesse violência contra homossexuais; como se não houvesse discriminação etc. Antônio Prata, sempre espirituoso, imagina o cenário onde tudo isso faria algum sentido:

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru.

E, depois, termina: “Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

É um diagnóstico preciso: de repente parece que é rebeldia ser racista no Brasil. No Brasil!, por Deus, no Brasil! E, aliás, a rebeldia parece se justificar por ela mesma: ora, ainda que não fosse o comportamento da massa, aonde é que se encontra a grande inteligência nesses comportamentos? Procuro, procuro; não a vejo. E é mesmo muito irônico ver os humoristas mais influentes, assim como os articulistas das publicações de maior circulação praguejando contra a “mídia esquerdista”, a “ditadura gay” etc. Façam-me o favor!

Por último, em um texto sobre o mesmo assunto, Marcelo Rubens Paiva lembrou algo que, em virtude do meu último post, acho que vale a pena saber:

Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação violenta da PM.

Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam acreditando que a polícia estava certa: enfiar o cacete nos manifestantes.

Como os PMs que tiraram a identificação, para baterem numa boa.

E, parafraseando um escritor, “viva o povo brasileiro”.

Anúncios
2 comentários
  1. Primrose disse:

    Curti!
    Como se aqui no Brasil ( e porque não no mundo) fosse tudo lindo e tudo bem querer fuder um pouquinho… hahahaha

    Mas umas partes ficaram meio cafusinhas 😀 E não sabia se você estava criticando o ser rebelde ou o ser rebelde por ser “neoconservador”.

    P.S. Tá diferente pra postar nesse bagulho!

    • Igor disse:

      Ah, escrevi rápido e nem reli. Talvez esteja confusinho mesmo, depois revejo. 😛

      Mas a crítica era mais de uma:
      a) Achar que neoconservadorismo é rebeldia;
      b) ainda que fosse rebeldia, que teria algum valor só por isso: por se contra a corrente.

      Eu não acho que seja rebeldia; pelo contrário, acho que é até o normal por aqui.

      É, tá diferente mesmo! Mas eu não fiz nada! :O Agora dá pra postar com perfil do twitter\facebook, parece.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: