A Solidão da Meditação

Enfin! seul! […] Mécontent de tous et mécontent de moi, je voudrais bien me racheter et m’enorgueillir un peu dans le silence et la solitude de la nuit.” – BAUDELAIRE, C.

Há algo de solitário na meditação; não a de fundo religioso, mas aquela que é a alcunha do verdadeiro pensamento e da seriedade em seu fazer. É que tem me ficado evidente cada vez mais que a meditação é avessa ao rebanho.

Há duas coisas que me irritam sobremaneira: o fundamentalismo religioso, com seus tentáculos que infiltram e poluem o Estado laico e o pseudo-materialismo cientificista arrogante, com sua presunção de redentor da humanidade que não é senão uma das crenças mais deslumbradas, infantis e acríticas que já pude conhecer. São os opostos, mas que, como já havia escrito Borges em “Os Teólogos”, se parecem bastante frente a Deus, que não se interessa muito por teologia.

Martin Heidegger falava dos dois enquanto formas falsas. Uma que preconizava uma volta impossível às origens, um regresso ao já passado; outra que fechava os olhos diante da própria historicidade de si mesma, pretendendo-se única, criadora, redentora. Assim, ele afirma:

“Contudo, o homem nem sequer poderá experimentar e pensar este recusado enquanto vaguear em torno da simples negação da era. Misturada de humildade e de arrogância, a fuga para a tradição nada consegue, tomada por si mesma, a não ser o fechar de olhos e a cegueira diante do instante histórico.

Só no perguntar e configurar criadores, a partir da força da meditação genuína, é que o homem saberá, isto é, guardará na sua verdade, aquele incalculável. Essa meditação descola o homem vindouro para aquele Entre no qual ele pertence ao ser e, no entanto, permanece um estranho no ente.” (HEIDEGGER, M.; O Tempo da Imagem no Mundo)

Já me manifestei aqui contra esse segmento do pensamento de fundo religioso mais de uma vez, acho que minha opiniões, se não estão claras, pelo menos já foram expostas. Agora é tempo de falar do reverso da moeda.

Imersos, como estamos, no caldo do mundo técnico-científico, não me parece excepcionalmente corajoso fazer apologia do ateísmo militante. Na verdade, aqui surge a solidão do verdadeiro pensador: parece que, antes de mais nada, o olhar deveria se voltar para as mazelas, as incoerências, as incapacidades e as limitações de nossa forma naturalizada de pensar – isto é, aquela que, conforme dizia Heidegger, tornou o mundo em imagem -. A empiricidade dos dados, recusando a interpretação, é perigosa de vários pontos de vista. Em primeiro lugar, a desvalorização das “ciências humanas”, que trariam em si certos ares de naftalina; que ocasiona, em segundo lugar, por uma fuga do espectro que as englobaria. A economia se diz “ciência exata”, a psicologia – sobretudo de inspiração inglesa e americana – afirma-se ciência experimental, biologia especializada. Qualquer mentalismo foi abolido e, de repente, parecemos voltar ao modelo cartesiano do relógio com suas engrenagens. Isso nos cega para dados bastante fundamentais: as categorias são constituídas por nós, a ciência também é um “poetar” e, sobretudo, atividade humana. O método não nos purga de nossa humanidade. Evidentemente a arrogância da medicina moderna, a despeito de claros progressos em várias áreas, se esquece que fundou a categoria da doença emprestando conceitos do paradigma epistêmico em que se encontrava; que o “doente” não é um dado empírico e imanente, mas um construto humano.

Mas a pior faceta da visão totalitária do empirismo é, na minha opinião, a ingenuidade da crença no progresso. Richard Dawkings diz:

Se criaturas superiores provindas do espaço algum dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão, a fim de avaliar o nível de nossa civilização sera: “Eles já descobriram a evolução?” Organismos vivos haviam existido sobre a Terra, sem nunca saberem porque, por mais de três bilhões de anos, antes que a verdade finalmente ocorresse a um deles. Seu nome era Charles Darwin. […] Não mais temos que recorrer à superstição quando defrontados com os problemas profundos: há um sentido para a vida? Para que existimos? O que é o homem? Depois de formular a última dessas questões, o eminente zoólogo G.G. Simpson assim se expressa: ‘O que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder esta pergunta antes de 1859 são inúteis e que será melhor para nós ignorá-las completamente.'” (DAWKINGS, R.; O Gene Egoísta)

Não é preciso nem comentar o caráter messiânico, que chega a ser até engraçado, do biólogo. Há uns dois milênios afirmavam as mesmas coisas de um outro homem e a semelhança entre os dois discursos é assustadora. Não obstante, há outro aspecto importante nesse trecho: a ideia de aperfeiçoamento cumulativo e linear do pensamento. Parece que nossas palavras significaram sempre as mesmas coisas e que o conteúdo simbólico nunca mudou, o que aconteceu foi nossa progressiva – mas também súbita – “iluminação”. Ora, é bom lembrar o ceticismo – e certamente esses “céticos” precisam aprender um pouco do verdadeiro ceticismo – heidggeriano. Dizia ele:

Ninguém afirmaria que a poesia de Shakespeare é mais evoluída que a de Ésquilo. Mas inda mais impossível é dizer que a apreensão moderna do ente é mais correcta que a grega. Daí que se quisermos conceber a essência da ciência moderna temos de nos libertar, à partida, do hábito de distinguira a ciência mais recente da ciência mais antiga, de um modo apenas gradual, segundo o ponto de vista do progresso.” (HEIDEGGER, M.; O Tempo da Imagem no Mundo)

Não consigo conceber como um homem moderno seja menos atemorizado diante do inaudito do ser hoje do que era antes. Não vejo como conceber modelos teóricos abstratos sobre aminoácidos acalme alguém quanto aos mistérios da existência. Não vejo, aliás, como a construção de modelos à partir do recolhimento de fatos acidentais possa construir essências – na verdade, me parece que já intuímos as essências de um campo pré-científico. Em seu texto “Esboço para uma teoria das emoções”, Jean-Paul Sartre defendia as limitações da psicologia que se limitava ao experimental, apontando para a importância do domínio simbólico referente à totalidade humana. Dizia ele:

“Se perguntarmos a um cientista: por que os corpos se atraem segundo a lei de Newton?, ele responderá: não me interessa saber, é porque é assim. E se lhe perguntarmos o que essa atração significa , ele responderá: não significa nada, ela é.” (SARTRE, J-P.; Esboço para uma teoria das emoções)

Assim, cria-se um dogma: o fato é, e nada mais. Dogma que não é mais arbitrário do que qualquer outro e que, não obstante, é a base do pensamento que totaliza o mundo na ótica do cientificismo-empirista. De novo afirmo: não sei como isso torna alguém mais seguro em relação ao absurdo que se apresenta a nós, humanos; para falar na terminologia de Camus.

Outro que não se rendeu ao otimismo que assolava – e assola – o mundo intelectual foi Wittgenstein. Sobre ele, Plínio W. Prado Jr. afirma que: “Wittgenstein nunca dissimulou a sua hostilidade visceral em face deste mundo da ‘civilização do progresso’ e do seu espírito ‘que anima a vasta corrente da civilização europeia e americana que nos cerca.’ Espírito típico de um ‘tempo de não-cultura’, do qual um sintoma maior é a ‘idolatria da ciência’, com seu efeito desastroso sobre a arte, a literatura, a sensibilidade e o senso da vida ética e religiosa.” (PRADO Jr.; P. W.; Aprender a viver – Wittgenstein e o “não-curso” de Filosofia in:: Filosofia, aprendizagem, experiência.)

Assim, considero portanto, mais do que nunca, urgente o retorno à tradição da meditação: o pensamento radical e transformador de si. Pensamento que funda, que se autofunda. Pensamento, remontando à distinção kantiana de filosofia escolástica e cósmica, que é a “ciência dos fins últimos do homem”.

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3 comentários
  1. Primrose disse:

    Hahaha!
    Nunca tinha lido nada do Dawkings. É realmente engraçado como ele tem certeza da verdade única, assim como qualquer religioso fervoroso.
    Acho que o problema é não DUVIDAR, como diz seu professor se referindo à obra de Freud: “Suspeitar de si”.
    Como alguém pode ser tão apegado à algo e dizer que aquilo não é Crença? Darwin=Jesus foi uma boa comparação 😀
    Todos os tipos de conhecimento tem métodos, rigores e direcionamentos. Até mesmo a criação imaginativa de uma criança em desenvolvimento. Entendo que cada um puxe a sardinha para o seu lado afirmando que é melhor que o outro, mas não suspeitar de que o outro possui parte da “Verdade” é realmente um sintoma de limitação do entendimento sobre o mundo.
    Ninguém nos dará a Segurança das respostas às perguntas existenciais e por isso mesmo cada um crê naquilo que cria mais sentido para si próprio. Daí surgem todas as diferentes perspectivas (e é claro seus radicalismos). Daí surge também a necessidade de se fazer entender o humano (surgimento de todas as ciências em seu sentido mais amplo).

    Gostei muito dessas frases aqui:
    “as categorias são constituídas por nós, a ciência também é um “poetar” e, sobretudo, atividade humana. O método não nos purga de nossa humanidade.”
    “Não vejo como conceber modelos teóricos abstratos sobre aminoácidos acalme alguém quanto aos mistérios da existência”

    Uma dica que não sei se você irá acatar por causa da nossa última discussão:
    Heidegger é extremamente complicado. Por mais que eu goste não consigo entender. Me esforço para entender diversos termos seus, mas os dele são imposíveis.
    Seria bom se você pudesse refletir embaixo sobre a citação que você colocou, porque se não entendemos é difícil acompanhar o teu raciocínio.
    Escrevi um monte, puxa! Também, seu texto dá muito pano pra manga!
    Gostei demais!
    :] Beijinhos.

    P.S. Vou imprimir esse também, ok?

  2. Esse seu texto é muito bom! Não tinha me lembrado de comentar.

    Desde que eu tive umas conversas contigo, que se desdobraram em reflexões como essas que você escreveu aqui, eu me incomodo bastante em me auto-intitular “ateu”.

    O engraçado desses cientificistas é o deslumbre meio esquizofrênico de seres espaciais mais desenvolvidos, que com suas categorias (será que eles conhecem a evolução? Dawkings não se questiona) vão nos observar e julgar, como se portadores de uma humanidade. É claro que foi só uma metáfora, mas acho engraçado ele se sentir esse julgador distanciado do mundo, quando seus próprios argumentos partem de uma produção humana, qual seja, a ciência. Sua perspectiva não se insere no mundo e se mantém imaculada; o que a ciência demonstra é um fruto, uma dádiva de seu método – a ciência é uma categoria pré-ontológica, por que não, divina. É lamentável, porque ele parece abandonar o ceticismo e a própria refutabilidade da ciência. Acreditar na reinvenção da ciência é acreditar na reinvenção do próprio ser humano e não uma “evolução” ou aperfeiçoamento de métodos, fórmulas, teorias.
    O método não nos purga da nossa humanidade, ou seja, não impede nossa arbitrariedade. Queremos ter segurança em categorias que não esgotam nem toda a possibilidade de ser, nem toda a possibilidade de mudar, seja do mundo “natural”, seja de nós.

    E, Heidegger é um doidão mesmo.

  3. Igor disse:

    Acredito que devamos evitar um relativismo grosseiro que iguala todas as produções humanas porque, bem, produções humanas. A ciência – o método é a técnica – são, de certa forma, uma dádiva. Que, claro, não pode ser “mumificada” (como disse Nietzsche), isto é, desvinculada de seu contexto histórico\social e, sobretudo, humano. É claro que as esferas da “justificação” e da “descoberta” devem ser mantidas separadas no fazer científico, mas nós, que olhamos mais distanciados, devemos adquirir a consciência de que essa separação é artificial.

    O que me incomoda, mesmo, não é o fazer científico, mas a ingenuidade de achar que ele dissolve nossos problemas existenciais\filosóficos em um nível pessoal. Que ele “resolve nossa vida”, por assim dizer. E, também, que, com uma ‘concepção científica de mundo’, somos necessariamente mais justos, mais sábios; mais humanos, enfim. (In)Felizmente, não é tão simples assim.

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