meta nº 1

O exercício de explicar alguma coisa – dar-lhe uma causa – consiste em escolher um motivo hipotético, dentre vários possíveis, e elaborá-lo. Às vezes isso acaba por revelar, mais do que o motivo da coisa qualquer, algo de substancial sobre o próprio “agente causador”.

Pensando em por que não escrevo “literatura” – muito embora o quisesse sinceramente – cheguei a conclusão de que me falta matéria. Não que não viva, tampouco que não habite o mundo; parece-me, no entanto, que não vivo em nenhum lugar. Ou melhor, que vivo em um solo vazio, em um não-lugar. Não possuo o Sertão de Guimarães nem a América de Faulkner: não possuo a cidade onde resido, São Paulo.

Livrar-me de culpa seria injusto: não percorri minha cidade com lupa, atentando aos costumes, a fala, ao pensamento. Mas, também, quem percorreu? São Paulo, parece-me, é uma grande massa amorfa. É gigante, de tamanho tal que não permite mesmo qualquer resolução, nem qualquer pesquisa. Seu gigantismo é um misto de pluralismo – ao que atentam os otimistas – com algo de inautenticidade. Nós, os paulistanos – e aqui me contradigo, claro, ao afirmar que a cidade é amorfa e logo em seguida falar de seus habitantes como tipos bem definidos – falamos pouco da nossa cidade. Gosta-se mais de Paris, Nova Iorque, Buenos Aires. Também gosta-se do Guarujá ou da Riviera de São Lourenço, variando conforme a renda mensal. Quando falamos de São Paulo, somos quase provincianos: falamos de nosso bairro. Da esquina de nossa casa, dos bares por ali, da videolocadora. Mas, pudera, em uma cidade desse tamanho ir para certos lugares não difere muito, ao menos espacialmente, de viajar.

Tudo isso nos faz inautênticos. Parece que há, agarrado às pedras, ruas, asfalto das cidades uma espécie de caldo poético que define do que e como podemos falar. Ninguém duvidará do grau de angústia de Raskólnikov, em meio as troikas, samovares e rublos da Rússia dostoievskiana. A tristeza parece escorrer-se pelas ruas de Lisboa na poesia de Álvaro de Campos, embalada pela guitarra portuguesa. Mas seria possível imaginar Bruno, na Avenida Paulista, questionando a existência de Deus e sondando a falta de sentido de todas as cousas? Parece que não. Parece que Bruno, Av. Paulista, comporte apenas uma existência que é um misto de referências em cacos trazidas de outros portos. Uma construção de si que é a coleção de memórias alheias, que em nada lhe pertencem. Ainda assim, São Paulo parece ser uma cidade meditativa (existem as meditativas e não-meditativas, segundo o Homem do Subsolo). Seria isso apenas uma prova cabal de nossa “síndrome de vira lata”? Parece que não, parece que não temos mesmo do que falar – que seja nosso, é claro, porque se fala em francês, inglês, russo em cada canto de nossa efervescência cultural.

Em São Paulo, somos todos atores: do all star vermelho com jeans apertado na rua augusta ao capuz que esconde a cara do “mano”. Só que isso não revela nenhuma verdade universal sobre o homem. Não revela que a inautenticidade é o cerne da vida nas cidades, ou mesmo da vida em sua potencialidade. Revela, apenas, que São Paulo – cidade das mil máscaras – possui um rosto por detrás de todas suas máscaras: outra máscara. (D)escrever São Paulo parece impossível: cidade sem centro gravitacional, palco da translação louca de signos vazios a que não se sucede ordem. Cidade dos acidentes, não da substância.

Sinto que a acabei de (tentar) fazê-lo. Toda escrita, claro, tem um quinhão de paradoxo.

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5 comentários
  1. Primrose disse:

    Porque “Meta no 1”?

    • Igor disse:

      “Meta” no sentido de “além”. É um texto de “metaliteratura” (?) porque é um texto falando da própria (possibilidade da) produção literária.

      E, sinceramente, porque não sabia que título dar… hahaha

      (o 1 porque é o primeiro de uma série que talvez acabe aqui.)

  2. Muito bom, Rogi. (esse perfil tá menos errado, auheauea)

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