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Arquivo mensal: agosto 2011

i.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

(Castro Alves, Navio Negreiro.)

Rosa Maria: assim foi chamada. Nome dado, em comum acordo, por seus pais, José e Lucimara. Eram “pais de sangue”, em um sentido mais simbólico do termo: haviam a encontrado em meio ao sangue materno, ao lado da mãe morta. Mas Rosa Maria não sabia – ao menos não de forma clara, distinta, consciente – disso. A intuição, por outro lado, a levava a sabê-lo de alguma forma, o que transparecia no seu comportamento. Era quieta, solícita; tomada de um sentimento de profunda compaixão, sobretudo aos pais, dos quais acreditava-se sempre debitaria, e que fazia de tudo para ajudar. Para ajudá-los a diminuir seu sofrimento. Era assim que ela carregava, internamente, seu estigma: de filha da loucura, do obscuro, do mal. Assim – mas não só.

As crianças, diz-se, são revestidas do maior grau de pureza que pode existir. Isso não significa que sejam essencialmente boas. Pelo contrário, a pureza, que acentua os atos de pura bondade, também é a cor das piores ações infantis. Condenadas a fazer tudo sinceramente, os pequenos podem ser avatares de anjos ou demônios. Além disso, lhes cabe uma sensibilidade supra-natural aguçada, que a idade vai suprimindo em grossas camadas de civilização e poeira. As crianças veem e ouvem mais coisas do que os adultos. Pressentem. E, assim, pressentiram a marca estampada na alma de Rosa. Não haviam como saber, literalmente, a origem – uma violência e uma demente – da menina: não eram nascidos à época e todos calavam àquele respeito. Por não se apresentar um pai, julgaram que cabia à vila cuidar da menina. Ninguém, no entanto, queria o fazer: parecia que a nascida podia carregar em si alguma espécie de mau-agouro, de maldição. Já em vir ao mundo, matara a mãe. Mas o faro das crianças, como já foi dito, era aguçado nesses casos. Podiam até não saber expressar, verbalmente, que havia algo de errado. Mas, no íntimo, se comportavam com a certeza de que havia. E era necessário expurgar aquele corpo estranho.

Formavam-se rodas, grupos de amigos e a ciranda sempre se fazia sem Rosa. É verdade que ela, introspectiva, tímida, devota, nunca se importara – talvez nem mesmo se apercebesse – com o triste quadro de exclusão. Quando eventualmente lhe dirigiam comentários maldosos, atiravam-lhe gravetos e sementes, ela entendia que eram ocasionalidades e que aquele tipo de coisa acontecia a todo mundo, senão em igual medida, de forma parecida. Cabia continuar a viver normalmente. E, assim, foi levando a vida; crescendo em meio aquele pequeno conjunto de casas incrustadas entre morros e mato.

Nesse tempo, só uma coisa realmente a preocupava: seus pais. Principalmente o pai, José. Trabalhava ardorosamente, de sol a sol, na roça. Frequentemente, exausto, sentava na frente da casa e, com um olhar triste, mirava o mundo que se lhe apresentava. Havia algo de inaudito naquele olhar que parecia trazer em si centelhas de um indizível sofrimento. Ninguém, a não ser Rosa, parecia adivinhar isso. Riam dele, zombavam; ele murmurava algo e voltava as costas aos outros. Às vezes dizia que só estava “refletindo”, e que logo retornaria ao convívio dos outros. Mas a filha sabia que não era só isso. Havia algo, uma espécie de laço de sangue, que os permitia guardar, juntos, uma espécie de segredo. E nesses dias em que o pai parecia gemer pelas córneas, Rosa ficava atônita, agitada. Penitenciava-se por não ajudá-lo bastante, aquele bom homem que dava a vida pela família. Talvez isso fosse a fagulha que despertasse em Rosa aquela estranha sensação que é a de ser parte de algo maior que não se sabe bem o quê, mas que todos os outros sabem e silenciam. Talvez por isso fosse tão dedicada ao pai, e visse nele uma espécie de santo.

ii.)

Quem, se eu gritasse entre as legiões de anjos, me ouviria?

(Rainer M. Rilke, Elegias de Duíno)

A menina recém completara os dezesseis anos. Seu corpo florescia, embora sua mente ainda não houvesse se acostumado, de modo algum, à ideia. Era um grande descompasso, que se tornava patente na forma que um e outro – corpo e mente – relacionavam-se. Ainda sim, e talvez até mais por isso, Rosa começava a despertar o desejo nos outros. Aqueles mesmos que atiravam-lhe objetos, agora atiravam-lhe elogios grosseiros e congêneres. Passou-se algum tempo até que ela começasse a compreender o que aquilo significava. Quando descobriu, ou ao menos começou a explorar, aquela nova dimensão de sua existência, foi tomada de um misto de nojo e felicidade. O primeiro, por achar que, de algum modo, aquilo era indevido e que, de algum modo, a misturava aqueles rudes meninos, agora tornados em homens, que ela evitara antes. Também, parecia que profanava a imagem de seu pai. O jogo da sedução envolvia, de certa forma, uma projeção da figura paterna nos outros, o que a deixava incomodada sobretudo porque visualizava seu pai sobretudo como uma espécie de santo, ou anjo, assexuado. No entanto, também havia a felicidade: aquele gosto indescritível de uma espécie de poder que, antes escondido, agora parecia permear seu corpo. Com ele, ela dominava; não era mais a vítima impassível, mas podia pôr os outros a seu serviço.

Meditando sobre isso se espantou com sua, até então inédita, capacidade para o que considerava o mal. Isto é, aquele sofrimento deliberado que se infringia aos outros. Nem imaginava, no entanto, que nesse jogo a dominação não estava sempre de seu lado, mas transitava de um para o outro, de jogador para jogador. Tentava, enfim, conter ao máximo aquele tipo de impulso, e se afundava nos afazeres para espantar aquele tipo de pensamento.

Aproximava-se a metade do ano. Rosa se voluntariara para ajudar nos preparativos para uma festividade que a paróquia do lugar ofereceria. Passara o dia todo cozinhando, pendurando bandeiras, montando tábuas; enfim, preparando-se. Ao cair a tarde, quando apenas algumas horas a separavam do início da festa, apareceu o padre e disse-lhe que fosse se arrumar, que ali tudo estava pronto. Ela agradeceu, mas não entendeu muito o que significava aquele “arrumar-se”. Acabou dando de ombros e voltou para casa. A mãe a aguardava na sala, tentando conter um sorriso que, insistentemente, brotava em sua face. Trouxe a filha a um quarto e mostrou-lhe um vestido: preto, quase novo. Disse-lhe que era presente, que era dela. Que ela nunca tivera um vestido, mas estava se tornando mulher e já podia ganhá-lo. Rosa ficou confusa: ao mesmo tempo, muito grata pelo presente, não sabia muito bem para que usá-lo. Afinal, para que, se já tinha roupas boas? Mas a mãe não soube lhe explicar. Disse-lhe que vestisse para a festa e só. Obediente, ela o fez: enrolou-se no tecido já um pouco puído e, olhando-se no espelho, atou uma fita vermelha ao cabelo, fazendo um rabo de cavalo. As pessoas passando na estradinha de terra indicavam: já era hora de ir à festa. Correu, despediu-se da mãe, mas em vão procurou o pai. Foi encontrá-lo nos fundos da casa, contemplando o pôr do sol. “Pai…”, ela disse. Só na segunda chamada ele virou. Inicialmente, o chapéu de palha projetava uma sombra nos seus olhos; quando os viu, no entanto, foi tomada de angústia. Os olhos, costumeiramente tristes, estavam arrasados. Mas José, homem forte que era, logo se recompôs. Ao inquérito da filha respondeu apenas: “Não é nada, não é nada. Agora vá a festa que você vai se atrasar.” Ela, meio desconfiada, acabou assentindo; abraçou-o e saiu correndo pela porta.

***

Corria o tempo. A lua ia alta no céu, cujo negrume, em seu contraponto com a luz das estrelas, só era ofuscado pelo brilho mágico da fogueira. O fogo, diferentemente da luz elétrica, tem um brilho ébrio; seus braços dançam curvas complicadas, como se fossem algum avatar do feminino erotizado. Sua luz, projetada nas caras, traz junto de si uma mesma parte de escuridão. Tudo, iluminado pelo fogo, torna-se, ao mesmo tempo, sombrio. O claro da fogueira é companheiro inseparável da escuridão. A atmosfera é mística. Junto com a bebida, que vai sendo servida em doses generosas, os homens vão se livrando da carga insuportável do “eu”. Vão perdendo suas faces para se unirem a uma massa amorfa de sátiros.

Rosa corre de um lado a outro. Carrega doces, bebidas, salgados. Ajuda a levantar um bêbado que tropeça. Não parou para conversar ou dançar ou beber desde que chegou à clareira onde foi montada a festa. A correria e a proximidade do fogo coraram suas faces. Em um momento, para para respirar. Quando volta a andar, tropeça e cai no chão, sujando a palma da mão com terra. Dirigiu-se então aos fundos, à parte de trás da Igreja, onde havia uma bica com água para se lavar. Ao chegar lá, abre a torneira, deixa a água escorrer pelo seus braços. A água, fria e ágil, percorre a extensão do braço em um resfriamento prazeroso. “A senhorita!” – Era um dos moços da vila, sua camisa meio aberta, a face ruborizada, a voz carregada; tudo era sinais de que a bebida e os festejos tinham surtido algum efeito nele. “Não devia… andar por aí sozinha”. E a tentativa de contorná-lo é interrompida com um empurrão forte, que derruba Rosa no chão. E outro, atrás, “você! Você é filha do Diabo! Ele a tenha!”.

iii.)

Cantai! que a morte é divina!

(Castro Alves; Navio Negreiro)

O corpo de Rosa Maria foi encontrado, na manhã seguinte, matagal adentro, detrás da igreja. Suas vestes rasgadas evidenciavam que ali havia ocorrido um, ou vários, estupros. Sua face, no entanto, trazia um misto de paz e dor. O sangue que brotava de seu corpo deitava-se na terra, ligando-a ao solo natal da forma mais essencial possível. Havia voltado ao próprio berço, à própria Mãe; voltado ao nada, de onde, antes, tinha vindo. Diziam que a sina da menina era essa: a desgraça; que trazia em sua testa a marca da demência. Agora jazia morta. “O mundo… O mundo é dos loucos”, gemiam os olhos infinitos do Pai.

A ideia da prosperidade norte-americana é, principalmente, visual. Traz, orbitando ao redor de si, as imagens icônicas do jardim com grama aparada, da bela casa, da família modelo e seus carros novos estacionados à porta. É uma espécie de signo tridimensional: como uma moeda, singularmente comporta duas faces. As duas apontam para as mesmas imagens já descritas; a primeira adivinhando nela uma certa beleza; a segunda, com um olhar de terror. A beleza das casas e das vidas americanas de subúrbio – um ideal meio vago – é uma das belezas possíveis; é uma virtude e também um “vício”.

Em “Beleza Americana” (1999) somos confrontados com uma trajetória que provém da própria insuficiência desta beleza. A história se dá assim: é preciso tocar o fundo para, somente então, poder alçar a caminhada para a redenção. “Ali onde mora o perigo, cresce também a salvação”; escreveu Hölderlin.

Duas famílias e algumas personagens mais são o centro de gravidade da história. Cada personagem, sem exceção, parece participar de um destino trágico que é terrivelmente solitário mas, ao mesmo tempo, faz parte de uma epidemia comum, de um mesmo desígnio, com causas semelhantes. Toda a vida, e o filme, parecem apontar para uma dicotomia na existência de cara indivíduo: de um lado, a o exterior que, longe de ser produto da interioridade, é sobretudo uma máscara, uma projeção. O jardim das casas, sempre radiante, esconde as fundações internas, podres. Há uma beleza patente nessa “exterioridade”: é a “beleza americana”. No entanto, há um preço para habitar essa “wonderland“, lugar onde só se vê, na face de todos e no mundo, a perfeição e o bem-resolvido. É que a máscara não se prende à cara por inércia: há que se fazer um enorme esforço para sustentá-la; esforço que acaba por ocupar toda outra esfera do indivíduo: a “interioridade”, por assim dizer. A “interioridade” não é uma espécie de vida espiritual solipsista; pelo contrário, a “interioridade” também abarca os espaços públicos e privados. A diferença é que a zona é mais franca e menos objetificada. É um campo onde, sobretudo, há uma tensão, liberdade e desejo; palavras que são silenciadas na gramática da rotina e da impessoalidade que é assumir papéis arquetípicos da mitologia norte-americana (o pai bem sucedido, a filha modelo, o homem da casa etc.)

No começo do filme, os personagens se encontram numa espécie de letargia, de vida sonâmbula. Concentrando todas as energias em sustentar aquela máscara, acabam se alienando e se esquecendo da própria vida, dos próprios anseios. Ir para um emprego que se odeia já não é mais uma questão, porque foi tão interiorizado, como um mantra, que parece eterno e inquestionável. Dormindo, então, esse sono alienante, um “sopro de vida” retira, por um segundo, a máscara: e a partir de então não haverá volta. É um tema comum: o chamado exterior que desperta a interioridade; a inspiração. É aquela ideia de que o pensador deveria ser “tocado pelo Ser”, e não sair cegamente em busca dele; ideia também da vocação religiosa. Em “Beleza Americana”, o pai da família Burnham é despertado por um estímulo externo: ao ver a amiga da filha – ou seja, ao ser tocado por Eros – subitamente toma conta da infelicidade que havia se tornado sua vida e que o sedava. A modificação súbita e desesperada do pai – que consiste numa volta inconsequente aos hábitos da adolescência – vão impondo aos outros personagens questionamentos semelhantes que se desdobram de formas variadas.

Essa nova personalidade do pai, também uma máscara, porque, falsa, ignora tudo o que existe ao seu redor para assumir um saudosismo ingênuo, acaba conduzindo, por vias tortas, à verdadeira redenção. Mas é preciso se perder completamente para atingi-la. Assim como em Crime e Castigo, é preciso sucumbir, render-se e, somente então, no meio da desgraça, uma nova luz surge. Raskólnikov descobre a possibilidade da vida – uma beleza até então oculta – na prisão, após desistir de tudo e se entregar. O pai, após finalmente atingir seu objetivo, dominar o objeto que desejava, a amiga da filha, enxerga, por analogia, a própria filha, que ele negligenciava constantemente. E morre, assassinado. A voz que fala em off diz que, apenas então, foi possível olhar para a vida com gratidão por cada momento; como se cada pequena coisa fosse uma dádiva incomensurável, carregasse em si uma beleza infinita que é existir. Ricky, namorado da filha, havia percebido isso olhando para um saco plástico voando no ar: o fato, tão trivial, fê-lo descobrir, também, esse inaudito que é um imperativo para enxergar a vida com a maior das gratidões possíveis.

O príncipe Míchkin, personagem central de “O Idiota”, talvez quisesse mostrar isso quando dizia que a beleza salvaria o mundo. A beleza não é o meramente estético, o “bonito”, o jardim com rosas e grama aparada; a beleza é, também a feiura, é a própria existência – individual e articulada – de cada pequena coisa. É a beleza de “ser” simplesmente, conforme cantava Alberto Caeiro; a beleza da singularidade que é existência:

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
(CAEIRO, A.; Poemas Inconjuntos)”

A filosofia agoniza; em breve morrerá. Sua irmã menor, a psicologia, acompanha-lhe o destino: a doença parece ser contagiosa. Para Foucault, ambas – filosofia e psicologia – são formas culturais características do ocidente. Não são ciências propriamente ditas, não obstante o esforço individual dos filósofos. A metafísica cartesiana tentou dar um fim no que, então, chamava-se filosofia. O que Descartes queria era alinhar os estudos metafísicos a uma certeza que só encontrava par na geometria; converter, então, a filosofia numa cadeia de raciocínios que fosse inquebrantável e irrespondível. Uma filosofia primeira e definitiva. A tarefa se mostrou inglória, deu novos ares ao velho debate “idealismo x realismo” (a comparação é pouco rigorosa, mas serve aqui) que já existia. No fim, a filosofia continuou enquanto “forma cultural”, plano de debates incessantes sobre os mesmos velhos problemas, tomados de óticas diferentes. Parece, no entanto, que o sonho cartesiano se aproxima de sua realização.

Uma forma, que possui alguma legitimidade, de enxergar a filosofia é aquela que a via como “pré-ciência”. Embora seja uma posição recente, tem alguma razoabilidade. A filosofia seria aquela especulação sobre problemas que a empiricidade e o método científico não alcançariam e que, mesmo assim, mereciam ser tratados de alguma forma. Se as filosofias antigas comportam astronomias, físicas etc. é porque essas não tinham ganhado corpo definido no rol das ciências empíricas. Pareceu, por muito tempo, que o esforço filosófico permaneceria intacto na pesquisa do “eu”, unidade irredutível que, enfim, nunca seria plenamente elucidada pela ciência tradicional. Aqui caberia a explicação filosófica que, de qualquer forma, não seria menos rigorosa que as hard sciences.* No entanto, a nova “menina dos olhos” da ciência – de forma análoga a que foi a física anteriormente – é a neurociência. Os avanços da neurociência – é o que se afirma por aí – conduzem, lentamente, a dissolução dos problemas mais profundos do homem, isto é, aqueles que dizem respeito ao próprio homem, seu pensar e seu habitar o mundo. Assim, lentamente, a filosofia se torna uma veleidade. Seus objetos – livre arbítrio, mental etc. – foram eliminados ou elucidados definitivamente por um ramo da ciência. Feyrabend deu início àquilo que se chamou “materialismo eliminativo”, isto é, a noção de que o mental é ilusão, como o geocentrismo, já que não pode ser reduzido a outras categorias científicas em micro-escalas. A neurociência, na contramão, estaria de acordo com a regra, visto que haveria uma cadeia lógica ligando-a às partes mais elementares da matéria: neurociência > bioquímica > química (?) > física. Talvez ele não levasse sua proposta tão a sério como hoje fazem Dennet e os ChurchlandChurchland. É verdade que esse radicalismo materialista recebe uma grande quantidade de críticas, não obstante, parece que o movimento geral é de um esquecimento de si: uma sobrevalorização de modelos abstratos de explicação que rejeitariam as mais fundamentais experiências pessoais, em “primeira pessoa”. Na verdade, tudo seria ilusão: o neurocientista afirma loucamente que ele mesmo não existe.

Aqui os debates se enveredam por uma série de caminhos e é difícil não se perder, atirando para todos os lados. Sinto que já o fiz um pouco. Tentarei, então, diminuir a abordagem. A pergunta que fica de tudo isso, ao menos para mim, é uma pergunta auto-imposta: para quê filosofia? Ou, estendendo-se, para que filosofia? Para que psicologia (leia-se a parte da psicologia mais afim da filosofia enquanto especulativa)? Cresce em mim uma vontade de “acerto de contas”; parece-me que preciso justificar poque ajo assim e não assado; porque me interessam as “naturezas mortas” da filosofia e da literatura. É verdade que já me angustiei com a questão, remetendo-a a um certo debate de validade ontológica: “daria a ciência conta de tudo?”, “a filosofia não seria uma forma de chegar à Verdade?”. A questão é válida, mas não me parece a melhor forma de responder ao problema, ao menos no meu caso. Todo esse avanço científico parece ter gerado um fenômeno curioso: uma separação da práxis e da teoria, em um sentido que parece que, para vivermos, deveríamos recorrer a esquizofrenia. Explico-me: alguém que chega a afirmar que “a alma não existe” (alma aqui em sentido amplo, como mental) e que tudo se limita a uma cadeia causal de impulsos elétricos, indiferente a vontade etc. deveria concluir, por extensão, que a própria existência não tem, nem pode ter, sentido algum. Se “eu não existo”, não faz diferença a vida ou a morte, o riso ou a dor, o amor ou o ódio. Não obstante, os defensores dessas teses parecem conciliar a própria vida – em sua dimensão necessariamente subjetivo-pessoal – e a nulidade de si mesmo que caracterizaria sua própria obra. É aqui que a “velha filosofia”, aliada a toda uma gama de outras formas de pensar com ares de naftalina, reaparece.

A negação dos pensamentos mitológico, religioso e seus congêneres ocupou a mente de muitos homens da ciência já a partir do século XIX. Grosso modo, a argumentação suporia uma verdade única e poderia ser reduzida a uma avaliação binária de todo saber: a dicotomia verdadeiro\falso. Ora, os mitos são falsos de um ponto de vista estrito. Evidentemente os céus não são sustentados por Atlas, ou o homem foi feito do barro, e ganhou vida de um sopro divido. A conclusão era de que, então, tudo isso poderia ser jogado ao fogo, pura e simplesmente. Até hoje, alguns retardatários insistem na cruzada anti-religião – cruzada só justificável pela violência de fundamentalismos que ainda existem por aí. Não obstante, parece que o mito foi reabilitado. A dimensão essencial do mito não é uma explicação natural do mundo, é uma história – concebida enquanto fantástica – que articula o homem ao mundo, dando-lhe sentido, além de constituir uma espécie de psicologia rudimentar e, também, uma possível terapêutica. Não é por acaso que Jung dedicou tantos de seus estudos a essas formas herméticas de conhecimento. O mito – como antes a metafísica – fala ao homem.

Benedito Nunes começava o ensaio inaugural, publicado em “O Dorso do Tigre”, com uma frase potente: “A filosofia já não consola”. A afirmação é verdadeira em certo sentido: a filosofia não consola porque abandonou o homem. Isso não significa, no entanto, que essa característica seja intrínseca à filosofia, que ela necessariamente não deva mais nos falar. E é por isso que seu estudo é atual, mesmo sendo, necessariamente, ultrapassado. Estudar a filosofia pode ser a avaliação da veracidade, pura e simples, de argumentações encadeadas – avaliação da realidade do mundo -, mas também pode ser – e me parece tão interessante, senão mais – um estudo artístico. Quem estuda arte não ousará dizer, não obstante suas preferências pessoais, que as artes, pelo tempo, são mais ou menos evoluídas. Não dirá: que Van Gogh é mais desenvolvido – e nega! – Dürer; nem que a poesia de Shakespeare foi desbancada pela de Whitman. Assim, pode-se estudar filosofia lendo Descartes e sentenciando: evidentemente ele estava errado, logo, resta descartá-lo (com o perdão do trocadilho); mas também é possível percorrer a história da filosofia recolhendo conhecimentos que, “verdadeiros” ou “falsos”, tem um valor no que remete ao leitor. Ou seja, ajudam a ampliar o horizonte, não do conhecimento em vias de progresso, mas do leitor em sua experiência de mundo, em suas relações, em sua capacidade crítica. Filosofia não é “auto ajuda de luxo”, mas que console não deveria tomado pejorativamente. E, se pode parecer que a filosofia se torna uma erudição quase inútil e tarefa individual, isso permanece só nas aparências: a melhora individual de cada componente de uma sociedade deveria se traduzir em uma melhor qualidade do pensamento que ela produz, seja científico ou não. Nesse sentido filosofia é, de certa forma, uma aposta “anti-contemporânea”, não porque apele para um suposto irracionalismo, mas porque funciona à revelia da demanda de agilidade\prática das disciplinas contemporâneas. Com ela não se construirão pontes e o aprendizado nem será didático. Ao contrário, a familiarização de alguém com o discurso filosófico leva um tempo e requer maturidade, como já lembrava Kant. Aliás, Kant parece ter percebido esse viés da filosofia: ressaltou que o aprendizado deveria ser um exercício que melhoraria os aprendizes, senão perante a escola, perante a vida.

É nesse sentido que, também, a psicologia voltada a terapêutica da fala ganha sua “reabilitação”. Ainda que o mental, de fato, não exista; ainda sim precisamos viver. E, fora das alternativas fáceis, ou do simples não confrontamento com a realidade, os psicólogos clínicos que se aproximaram da filosofia – Freud, Jung, Winnicott – oferecem uma lógica diversa: lógica do confronto, da “suspeita de si”, como já foi dito. Não é curioso, portanto, que suas obras sejam lidas por filósofos e artistas e que, também, tenham se servido de muitos exemplos da tradição cultural: a mitologia, a literatura, as artes etc. Nesse sentido, essa vertente da psicologia, cada vez mais esquecida entre os anglófonos, parece ser a mais autêntica filha de uma certa tradição filosófica: a tradição da construção de si, do “como alguém se torna o que é”, lembrando Nietzsche. Parece que se esqueceu que existe um valor para além de uma quase-metafísica do cientificismo materialista, o valor da vida, que – ilusão ou não – existe.

“A filosofia não mais consola”, escreveu Benedito Nunes. Talvez seja tempo de retomar essa antiga tradição.

*Ver o que Heidegger diz sobre o rigor matemático e historiográfico.