Esboço de uma ideia de filosofia

A filosofia agoniza; em breve morrerá. Sua irmã menor, a psicologia, acompanha-lhe o destino: a doença parece ser contagiosa. Para Foucault, ambas – filosofia e psicologia – são formas culturais características do ocidente. Não são ciências propriamente ditas, não obstante o esforço individual dos filósofos. A metafísica cartesiana tentou dar um fim no que, então, chamava-se filosofia. O que Descartes queria era alinhar os estudos metafísicos a uma certeza que só encontrava par na geometria; converter, então, a filosofia numa cadeia de raciocínios que fosse inquebrantável e irrespondível. Uma filosofia primeira e definitiva. A tarefa se mostrou inglória, deu novos ares ao velho debate “idealismo x realismo” (a comparação é pouco rigorosa, mas serve aqui) que já existia. No fim, a filosofia continuou enquanto “forma cultural”, plano de debates incessantes sobre os mesmos velhos problemas, tomados de óticas diferentes. Parece, no entanto, que o sonho cartesiano se aproxima de sua realização.

Uma forma, que possui alguma legitimidade, de enxergar a filosofia é aquela que a via como “pré-ciência”. Embora seja uma posição recente, tem alguma razoabilidade. A filosofia seria aquela especulação sobre problemas que a empiricidade e o método científico não alcançariam e que, mesmo assim, mereciam ser tratados de alguma forma. Se as filosofias antigas comportam astronomias, físicas etc. é porque essas não tinham ganhado corpo definido no rol das ciências empíricas. Pareceu, por muito tempo, que o esforço filosófico permaneceria intacto na pesquisa do “eu”, unidade irredutível que, enfim, nunca seria plenamente elucidada pela ciência tradicional. Aqui caberia a explicação filosófica que, de qualquer forma, não seria menos rigorosa que as hard sciences.* No entanto, a nova “menina dos olhos” da ciência – de forma análoga a que foi a física anteriormente – é a neurociência. Os avanços da neurociência – é o que se afirma por aí – conduzem, lentamente, a dissolução dos problemas mais profundos do homem, isto é, aqueles que dizem respeito ao próprio homem, seu pensar e seu habitar o mundo. Assim, lentamente, a filosofia se torna uma veleidade. Seus objetos – livre arbítrio, mental etc. – foram eliminados ou elucidados definitivamente por um ramo da ciência. Feyrabend deu início àquilo que se chamou “materialismo eliminativo”, isto é, a noção de que o mental é ilusão, como o geocentrismo, já que não pode ser reduzido a outras categorias científicas em micro-escalas. A neurociência, na contramão, estaria de acordo com a regra, visto que haveria uma cadeia lógica ligando-a às partes mais elementares da matéria: neurociência > bioquímica > química (?) > física. Talvez ele não levasse sua proposta tão a sério como hoje fazem Dennet e os ChurchlandChurchland. É verdade que esse radicalismo materialista recebe uma grande quantidade de críticas, não obstante, parece que o movimento geral é de um esquecimento de si: uma sobrevalorização de modelos abstratos de explicação que rejeitariam as mais fundamentais experiências pessoais, em “primeira pessoa”. Na verdade, tudo seria ilusão: o neurocientista afirma loucamente que ele mesmo não existe.

Aqui os debates se enveredam por uma série de caminhos e é difícil não se perder, atirando para todos os lados. Sinto que já o fiz um pouco. Tentarei, então, diminuir a abordagem. A pergunta que fica de tudo isso, ao menos para mim, é uma pergunta auto-imposta: para quê filosofia? Ou, estendendo-se, para que filosofia? Para que psicologia (leia-se a parte da psicologia mais afim da filosofia enquanto especulativa)? Cresce em mim uma vontade de “acerto de contas”; parece-me que preciso justificar poque ajo assim e não assado; porque me interessam as “naturezas mortas” da filosofia e da literatura. É verdade que já me angustiei com a questão, remetendo-a a um certo debate de validade ontológica: “daria a ciência conta de tudo?”, “a filosofia não seria uma forma de chegar à Verdade?”. A questão é válida, mas não me parece a melhor forma de responder ao problema, ao menos no meu caso. Todo esse avanço científico parece ter gerado um fenômeno curioso: uma separação da práxis e da teoria, em um sentido que parece que, para vivermos, deveríamos recorrer a esquizofrenia. Explico-me: alguém que chega a afirmar que “a alma não existe” (alma aqui em sentido amplo, como mental) e que tudo se limita a uma cadeia causal de impulsos elétricos, indiferente a vontade etc. deveria concluir, por extensão, que a própria existência não tem, nem pode ter, sentido algum. Se “eu não existo”, não faz diferença a vida ou a morte, o riso ou a dor, o amor ou o ódio. Não obstante, os defensores dessas teses parecem conciliar a própria vida – em sua dimensão necessariamente subjetivo-pessoal – e a nulidade de si mesmo que caracterizaria sua própria obra. É aqui que a “velha filosofia”, aliada a toda uma gama de outras formas de pensar com ares de naftalina, reaparece.

A negação dos pensamentos mitológico, religioso e seus congêneres ocupou a mente de muitos homens da ciência já a partir do século XIX. Grosso modo, a argumentação suporia uma verdade única e poderia ser reduzida a uma avaliação binária de todo saber: a dicotomia verdadeiro\falso. Ora, os mitos são falsos de um ponto de vista estrito. Evidentemente os céus não são sustentados por Atlas, ou o homem foi feito do barro, e ganhou vida de um sopro divido. A conclusão era de que, então, tudo isso poderia ser jogado ao fogo, pura e simplesmente. Até hoje, alguns retardatários insistem na cruzada anti-religião – cruzada só justificável pela violência de fundamentalismos que ainda existem por aí. Não obstante, parece que o mito foi reabilitado. A dimensão essencial do mito não é uma explicação natural do mundo, é uma história – concebida enquanto fantástica – que articula o homem ao mundo, dando-lhe sentido, além de constituir uma espécie de psicologia rudimentar e, também, uma possível terapêutica. Não é por acaso que Jung dedicou tantos de seus estudos a essas formas herméticas de conhecimento. O mito – como antes a metafísica – fala ao homem.

Benedito Nunes começava o ensaio inaugural, publicado em “O Dorso do Tigre”, com uma frase potente: “A filosofia já não consola”. A afirmação é verdadeira em certo sentido: a filosofia não consola porque abandonou o homem. Isso não significa, no entanto, que essa característica seja intrínseca à filosofia, que ela necessariamente não deva mais nos falar. E é por isso que seu estudo é atual, mesmo sendo, necessariamente, ultrapassado. Estudar a filosofia pode ser a avaliação da veracidade, pura e simples, de argumentações encadeadas – avaliação da realidade do mundo -, mas também pode ser – e me parece tão interessante, senão mais – um estudo artístico. Quem estuda arte não ousará dizer, não obstante suas preferências pessoais, que as artes, pelo tempo, são mais ou menos evoluídas. Não dirá: que Van Gogh é mais desenvolvido – e nega! – Dürer; nem que a poesia de Shakespeare foi desbancada pela de Whitman. Assim, pode-se estudar filosofia lendo Descartes e sentenciando: evidentemente ele estava errado, logo, resta descartá-lo (com o perdão do trocadilho); mas também é possível percorrer a história da filosofia recolhendo conhecimentos que, “verdadeiros” ou “falsos”, tem um valor no que remete ao leitor. Ou seja, ajudam a ampliar o horizonte, não do conhecimento em vias de progresso, mas do leitor em sua experiência de mundo, em suas relações, em sua capacidade crítica. Filosofia não é “auto ajuda de luxo”, mas que console não deveria tomado pejorativamente. E, se pode parecer que a filosofia se torna uma erudição quase inútil e tarefa individual, isso permanece só nas aparências: a melhora individual de cada componente de uma sociedade deveria se traduzir em uma melhor qualidade do pensamento que ela produz, seja científico ou não. Nesse sentido filosofia é, de certa forma, uma aposta “anti-contemporânea”, não porque apele para um suposto irracionalismo, mas porque funciona à revelia da demanda de agilidade\prática das disciplinas contemporâneas. Com ela não se construirão pontes e o aprendizado nem será didático. Ao contrário, a familiarização de alguém com o discurso filosófico leva um tempo e requer maturidade, como já lembrava Kant. Aliás, Kant parece ter percebido esse viés da filosofia: ressaltou que o aprendizado deveria ser um exercício que melhoraria os aprendizes, senão perante a escola, perante a vida.

É nesse sentido que, também, a psicologia voltada a terapêutica da fala ganha sua “reabilitação”. Ainda que o mental, de fato, não exista; ainda sim precisamos viver. E, fora das alternativas fáceis, ou do simples não confrontamento com a realidade, os psicólogos clínicos que se aproximaram da filosofia – Freud, Jung, Winnicott – oferecem uma lógica diversa: lógica do confronto, da “suspeita de si”, como já foi dito. Não é curioso, portanto, que suas obras sejam lidas por filósofos e artistas e que, também, tenham se servido de muitos exemplos da tradição cultural: a mitologia, a literatura, as artes etc. Nesse sentido, essa vertente da psicologia, cada vez mais esquecida entre os anglófonos, parece ser a mais autêntica filha de uma certa tradição filosófica: a tradição da construção de si, do “como alguém se torna o que é”, lembrando Nietzsche. Parece que se esqueceu que existe um valor para além de uma quase-metafísica do cientificismo materialista, o valor da vida, que – ilusão ou não – existe.

“A filosofia não mais consola”, escreveu Benedito Nunes. Talvez seja tempo de retomar essa antiga tradição.

*Ver o que Heidegger diz sobre o rigor matemático e historiográfico.

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9 comentários
  1. Ernst, o jovem disse:

    Hegel está certo quando diz (mais ou menos assim) que todo filósofo se pretende o último, o arrebatador, o finalizador da filosofia. Mas, diz o idealista, depois dele virão outros, porque, assim como não existe vácuo de poder, haver-se-á que tomar o espaço do jogo da filosofia. E, caro Lebrun, se alguém mimado decide bater no tabuleiro e destruir o jogo, a filosofia não está morta, porque sua carne é tão abstrata quanto esse tal de poder.
    É justamente quando tudo parece acabado, que ela se renova, porque ‘onde mora o perigo é onde há salvação’: e nesse sentido, nem sei se é tanto uma ‘reabilitação’ da filosofia, pois não se trata de uma volta do antigo, mas de uma outra filosofia. O Jogo ‘filosofia’ é sempre o mesmo, sendo outro.

  2. Igor disse:

    Ernst, o jovem :

    Hegel está certo quando diz (mais ou menos assim) que todo filósofo se pretende o último, o arrebatador, o finalizador da filosofia. Mas, diz o idealista, depois dele virão outros, porque, assim como não existe vácuo de poder, haver-se-á que tomar o espaço do jogo da filosofia. E, caro Lebrun, se alguém mimado decide bater no tabuleiro e destruir o jogo, a filosofia não está morta, porque sua carne é tão abstrata quanto esse tal de poder.
    É justamente quando tudo parece acabado, que ela se renova, porque ‘onde mora o perigo é onde há salvação’: e nesse sentido, nem sei se é tanto uma ‘reabilitação’ da filosofia, pois não se trata de uma volta do antigo, mas de uma outra filosofia. O Jogo ‘filosofia’ é sempre o mesmo, sendo outro.

    Sim, é verdade que, senão todos, a maioria dos filósofos sempre se pretendeu o “finalizador”, em certo sentido. Como a filosofia é um jogo sem regras e sem fim – um “war” sem objetivos, se quiser – evidentemente enquanto existirem pessoas dispostas a jogarem, ela continua.

    Por outro lado, o “fim da filosofia” talvez seja outra coisa que não esteja diretamente ligada a isso. O “fim da filosofia”, como eu o tomo, é o esvaziamento da capacidade filosófica, e isso tem a ver não só com o discurso em si, mas com a forma pela qual a filosofia se dá, sobretudo no meio universitário. É o caráter de “instituição” da universidade moderna que, de certa forma, vai virando o tabuleiro ao chão. Carnap dizia que a filosofia (entendida como metafísica) é um conjunto de pseudo-problemas: porque nada do que é dito pode ser confirmado ou negado com base no mundo. Justamente o tabuleiro. Mas, o caráter de “custoxbenefício”, mais o “desenvolvimento” cobrado etc. acaba por transformar – colocar rédeas, talvez – no fazer filosófico. É a filosofia tornada em análise lógica das proposições e sentenças – isso e tão somente isso.

    A ‘reabilitação’, nesse sentido, seria a observância de certos aspectos das filosofias antigas que permanecem elipsados pela tara do método. Claro que não é simplesmente voltar ao passado, misto de saudosismo e ignorância: é, na verdade, construir o futuro tendo em vista, também, o passado. É a ideia do Kant de fazer a filosofia – arquitetônica – com as ruínas dos edifícios alheios. Parece que estão ignorando alguns tijolos e dando um valor excessivo a outros.

    Mas, talvez, seja só a dificuldade de transcender o momento histórico de minha parte. Talvez também tivessem achado, na época de Descartes, que a filosofia tinha terminado aí.

  3. gabriel disse:

    Ótima leitura, cara.

    Ver:

    – Supertramp (antes deles, Webber) em Logical Song: “they sent me away to teach me how to be sensible, logical, (…) but at night, when all the world is asleep, the questions run too deep for such a simple man (…) I know it sounds absurd, but please tell me who I am”

    – N’O Jogo da Amarelinha, do Cortázar, se não me falha a memória também há uma discussão similar e a conclusão: “mas é preciso viver” (posso estar confundindo, é até provável que esteja, mas a coincidência me saltou).

  4. gabriel disse:

    Achei:
    “Probablemente la única áncora de salvación sea la ciencia, el uranio 235, esas cosas. Pero además hay que vivir.”

  5. Igor disse:

    Há um erro – dentre vários outros – notável nesse texto: afirmar que Feyerabend foi quem deu início ao Materialismo Eliminativo.

  6. Julia disse:

    “O que Descartes queria era alinhar os estudos metafísicos a uma certeza que só encontrava par na geometria; converter, então, a filosofia numa cadeia de raciocínios que fosse inquebrantável e irrespondível. Uma filosofia primeira e definitiva.”

    A filosofia é a instituição da compreensão através da palavra, absolutamente tributária ao desdobramento fático (histórico) de um povo. Pensadores são apenas os verdadeiramente esforçados no que concerne à tarefa de instituir na linguagem (no sentido de trazer à compreensão e de inaugurar nela algo que já é) o “enquanto tal” do desdobramento histórico de seu povo, para que a partir daí, possa tal instituição ser pensada e destinada na linguagem. Enquanto houver esforço genuíno de compreensão (e menos falatório), haverá o aclaramento das questões essenciais concernentes à existência e o pensamento filosófico permanecerá.
    No que concerne à psicologia, que possamos dedicar só o pequeno tempo de reflexão próprio à ela e outros métodos do nosso tempo.

    • Igor disse:

      Cara visitante (porque são raríssimos aqui os desconhecidos, te pergunto: te conheço? :P),

      Tenho algumas ressalvas ao seu comentário.

      Primeiro, quanto a sua definição de filosofia: evidentemente – e até porque grande parte do que se chama filosofia consiste em um esforço auto-referente – muitos discordariam dela. Sobretudo nesse sublinhar da relação com um tempo histórico ou algo assim. E como você encaixaria esses dissonantes? Como ignorantes de sua própria tarefa; como engrossadores do caldo “falatório”; ou como não-filósofos, no final das contas? Isso me leva a segunda pergunta: se o pensamento filosófico é assim debitário do seu tempo, os problemas filosóficos também não o seriam? Ou permaneceriam, os mesmos, elevados numa espécie de éter imutável? Porque os problemas “concernentes à existência” podem ser concernentes a existência em determinado tempo, ou a uma existência em geral. Como o Rorty diz, mais ou menos (cito de cabeça), que, depois de Hegel, o problema passou de um geral “o que é existir” para um “o que é ser um homem europeu no séc. XIX” etc. Sua defesa parece convergir para essa posição, a histórica; mas sua conclusão parece, a despeito disso, ser a primeira.

      Por último, no que concerne a psicologia, acho que ela, em hipótese alguma, devia ser tomada como “método de seu tempo”, embora traga, inegavelmente, as marcas dele (como a filosofia, a literatura, a física etc.)

      Só um último parêntesis: eu não gosto desse meu texto, escrito “vomitado”, sem muito pensar. Discordo de muito do que disse; acho que boa parte está mal escrita, também. Antes de defendê-lo, estou tentando clarear sua posição.

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