O jogo do belo

A ideia da prosperidade norte-americana é, principalmente, visual. Traz, orbitando ao redor de si, as imagens icônicas do jardim com grama aparada, da bela casa, da família modelo e seus carros novos estacionados à porta. É uma espécie de signo tridimensional: como uma moeda, singularmente comporta duas faces. As duas apontam para as mesmas imagens já descritas; a primeira adivinhando nela uma certa beleza; a segunda, com um olhar de terror. A beleza das casas e das vidas americanas de subúrbio – um ideal meio vago – é uma das belezas possíveis; é uma virtude e também um “vício”.

Em “Beleza Americana” (1999) somos confrontados com uma trajetória que provém da própria insuficiência desta beleza. A história se dá assim: é preciso tocar o fundo para, somente então, poder alçar a caminhada para a redenção. “Ali onde mora o perigo, cresce também a salvação”; escreveu Hölderlin.

Duas famílias e algumas personagens mais são o centro de gravidade da história. Cada personagem, sem exceção, parece participar de um destino trágico que é terrivelmente solitário mas, ao mesmo tempo, faz parte de uma epidemia comum, de um mesmo desígnio, com causas semelhantes. Toda a vida, e o filme, parecem apontar para uma dicotomia na existência de cara indivíduo: de um lado, a o exterior que, longe de ser produto da interioridade, é sobretudo uma máscara, uma projeção. O jardim das casas, sempre radiante, esconde as fundações internas, podres. Há uma beleza patente nessa “exterioridade”: é a “beleza americana”. No entanto, há um preço para habitar essa “wonderland“, lugar onde só se vê, na face de todos e no mundo, a perfeição e o bem-resolvido. É que a máscara não se prende à cara por inércia: há que se fazer um enorme esforço para sustentá-la; esforço que acaba por ocupar toda outra esfera do indivíduo: a “interioridade”, por assim dizer. A “interioridade” não é uma espécie de vida espiritual solipsista; pelo contrário, a “interioridade” também abarca os espaços públicos e privados. A diferença é que a zona é mais franca e menos objetificada. É um campo onde, sobretudo, há uma tensão, liberdade e desejo; palavras que são silenciadas na gramática da rotina e da impessoalidade que é assumir papéis arquetípicos da mitologia norte-americana (o pai bem sucedido, a filha modelo, o homem da casa etc.)

No começo do filme, os personagens se encontram numa espécie de letargia, de vida sonâmbula. Concentrando todas as energias em sustentar aquela máscara, acabam se alienando e se esquecendo da própria vida, dos próprios anseios. Ir para um emprego que se odeia já não é mais uma questão, porque foi tão interiorizado, como um mantra, que parece eterno e inquestionável. Dormindo, então, esse sono alienante, um “sopro de vida” retira, por um segundo, a máscara: e a partir de então não haverá volta. É um tema comum: o chamado exterior que desperta a interioridade; a inspiração. É aquela ideia de que o pensador deveria ser “tocado pelo Ser”, e não sair cegamente em busca dele; ideia também da vocação religiosa. Em “Beleza Americana”, o pai da família Burnham é despertado por um estímulo externo: ao ver a amiga da filha – ou seja, ao ser tocado por Eros – subitamente toma conta da infelicidade que havia se tornado sua vida e que o sedava. A modificação súbita e desesperada do pai – que consiste numa volta inconsequente aos hábitos da adolescência – vão impondo aos outros personagens questionamentos semelhantes que se desdobram de formas variadas.

Essa nova personalidade do pai, também uma máscara, porque, falsa, ignora tudo o que existe ao seu redor para assumir um saudosismo ingênuo, acaba conduzindo, por vias tortas, à verdadeira redenção. Mas é preciso se perder completamente para atingi-la. Assim como em Crime e Castigo, é preciso sucumbir, render-se e, somente então, no meio da desgraça, uma nova luz surge. Raskólnikov descobre a possibilidade da vida – uma beleza até então oculta – na prisão, após desistir de tudo e se entregar. O pai, após finalmente atingir seu objetivo, dominar o objeto que desejava, a amiga da filha, enxerga, por analogia, a própria filha, que ele negligenciava constantemente. E morre, assassinado. A voz que fala em off diz que, apenas então, foi possível olhar para a vida com gratidão por cada momento; como se cada pequena coisa fosse uma dádiva incomensurável, carregasse em si uma beleza infinita que é existir. Ricky, namorado da filha, havia percebido isso olhando para um saco plástico voando no ar: o fato, tão trivial, fê-lo descobrir, também, esse inaudito que é um imperativo para enxergar a vida com a maior das gratidões possíveis.

O príncipe Míchkin, personagem central de “O Idiota”, talvez quisesse mostrar isso quando dizia que a beleza salvaria o mundo. A beleza não é o meramente estético, o “bonito”, o jardim com rosas e grama aparada; a beleza é, também a feiura, é a própria existência – individual e articulada – de cada pequena coisa. É a beleza de “ser” simplesmente, conforme cantava Alberto Caeiro; a beleza da singularidade que é existência:

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
(CAEIRO, A.; Poemas Inconjuntos)”

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