Rosário – Parte 2

i.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

(Castro Alves, Navio Negreiro.)

Rosa Maria: assim foi chamada. Nome dado, em comum acordo, por seus pais, José e Lucimara. Eram “pais de sangue”, em um sentido mais simbólico do termo: haviam a encontrado em meio ao sangue materno, ao lado da mãe morta. Mas Rosa Maria não sabia – ao menos não de forma clara, distinta, consciente – disso. A intuição, por outro lado, a levava a sabê-lo de alguma forma, o que transparecia no seu comportamento. Era quieta, solícita; tomada de um sentimento de profunda compaixão, sobretudo aos pais, dos quais acreditava-se sempre debitaria, e que fazia de tudo para ajudar. Para ajudá-los a diminuir seu sofrimento. Era assim que ela carregava, internamente, seu estigma: de filha da loucura, do obscuro, do mal. Assim – mas não só.

As crianças, diz-se, são revestidas do maior grau de pureza que pode existir. Isso não significa que sejam essencialmente boas. Pelo contrário, a pureza, que acentua os atos de pura bondade, também é a cor das piores ações infantis. Condenadas a fazer tudo sinceramente, os pequenos podem ser avatares de anjos ou demônios. Além disso, lhes cabe uma sensibilidade supra-natural aguçada, que a idade vai suprimindo em grossas camadas de civilização e poeira. As crianças veem e ouvem mais coisas do que os adultos. Pressentem. E, assim, pressentiram a marca estampada na alma de Rosa. Não haviam como saber, literalmente, a origem – uma violência e uma demente – da menina: não eram nascidos à época e todos calavam àquele respeito. Por não se apresentar um pai, julgaram que cabia à vila cuidar da menina. Ninguém, no entanto, queria o fazer: parecia que a nascida podia carregar em si alguma espécie de mau-agouro, de maldição. Já em vir ao mundo, matara a mãe. Mas o faro das crianças, como já foi dito, era aguçado nesses casos. Podiam até não saber expressar, verbalmente, que havia algo de errado. Mas, no íntimo, se comportavam com a certeza de que havia. E era necessário expurgar aquele corpo estranho.

Formavam-se rodas, grupos de amigos e a ciranda sempre se fazia sem Rosa. É verdade que ela, introspectiva, tímida, devota, nunca se importara – talvez nem mesmo se apercebesse – com o triste quadro de exclusão. Quando eventualmente lhe dirigiam comentários maldosos, atiravam-lhe gravetos e sementes, ela entendia que eram ocasionalidades e que aquele tipo de coisa acontecia a todo mundo, senão em igual medida, de forma parecida. Cabia continuar a viver normalmente. E, assim, foi levando a vida; crescendo em meio aquele pequeno conjunto de casas incrustadas entre morros e mato.

Nesse tempo, só uma coisa realmente a preocupava: seus pais. Principalmente o pai, José. Trabalhava ardorosamente, de sol a sol, na roça. Frequentemente, exausto, sentava na frente da casa e, com um olhar triste, mirava o mundo que se lhe apresentava. Havia algo de inaudito naquele olhar que parecia trazer em si centelhas de um indizível sofrimento. Ninguém, a não ser Rosa, parecia adivinhar isso. Riam dele, zombavam; ele murmurava algo e voltava as costas aos outros. Às vezes dizia que só estava “refletindo”, e que logo retornaria ao convívio dos outros. Mas a filha sabia que não era só isso. Havia algo, uma espécie de laço de sangue, que os permitia guardar, juntos, uma espécie de segredo. E nesses dias em que o pai parecia gemer pelas córneas, Rosa ficava atônita, agitada. Penitenciava-se por não ajudá-lo bastante, aquele bom homem que dava a vida pela família. Talvez isso fosse a fagulha que despertasse em Rosa aquela estranha sensação que é a de ser parte de algo maior que não se sabe bem o quê, mas que todos os outros sabem e silenciam. Talvez por isso fosse tão dedicada ao pai, e visse nele uma espécie de santo.

ii.)

Quem, se eu gritasse entre as legiões de anjos, me ouviria?

(Rainer M. Rilke, Elegias de Duíno)

A menina recém completara os dezesseis anos. Seu corpo florescia, embora sua mente ainda não houvesse se acostumado, de modo algum, à ideia. Era um grande descompasso, que se tornava patente na forma que um e outro – corpo e mente – relacionavam-se. Ainda sim, e talvez até mais por isso, Rosa começava a despertar o desejo nos outros. Aqueles mesmos que atiravam-lhe objetos, agora atiravam-lhe elogios grosseiros e congêneres. Passou-se algum tempo até que ela começasse a compreender o que aquilo significava. Quando descobriu, ou ao menos começou a explorar, aquela nova dimensão de sua existência, foi tomada de um misto de nojo e felicidade. O primeiro, por achar que, de algum modo, aquilo era indevido e que, de algum modo, a misturava aqueles rudes meninos, agora tornados em homens, que ela evitara antes. Também, parecia que profanava a imagem de seu pai. O jogo da sedução envolvia, de certa forma, uma projeção da figura paterna nos outros, o que a deixava incomodada sobretudo porque visualizava seu pai sobretudo como uma espécie de santo, ou anjo, assexuado. No entanto, também havia a felicidade: aquele gosto indescritível de uma espécie de poder que, antes escondido, agora parecia permear seu corpo. Com ele, ela dominava; não era mais a vítima impassível, mas podia pôr os outros a seu serviço.

Meditando sobre isso se espantou com sua, até então inédita, capacidade para o que considerava o mal. Isto é, aquele sofrimento deliberado que se infringia aos outros. Nem imaginava, no entanto, que nesse jogo a dominação não estava sempre de seu lado, mas transitava de um para o outro, de jogador para jogador. Tentava, enfim, conter ao máximo aquele tipo de impulso, e se afundava nos afazeres para espantar aquele tipo de pensamento.

Aproximava-se a metade do ano. Rosa se voluntariara para ajudar nos preparativos para uma festividade que a paróquia do lugar ofereceria. Passara o dia todo cozinhando, pendurando bandeiras, montando tábuas; enfim, preparando-se. Ao cair a tarde, quando apenas algumas horas a separavam do início da festa, apareceu o padre e disse-lhe que fosse se arrumar, que ali tudo estava pronto. Ela agradeceu, mas não entendeu muito o que significava aquele “arrumar-se”. Acabou dando de ombros e voltou para casa. A mãe a aguardava na sala, tentando conter um sorriso que, insistentemente, brotava em sua face. Trouxe a filha a um quarto e mostrou-lhe um vestido: preto, quase novo. Disse-lhe que era presente, que era dela. Que ela nunca tivera um vestido, mas estava se tornando mulher e já podia ganhá-lo. Rosa ficou confusa: ao mesmo tempo, muito grata pelo presente, não sabia muito bem para que usá-lo. Afinal, para que, se já tinha roupas boas? Mas a mãe não soube lhe explicar. Disse-lhe que vestisse para a festa e só. Obediente, ela o fez: enrolou-se no tecido já um pouco puído e, olhando-se no espelho, atou uma fita vermelha ao cabelo, fazendo um rabo de cavalo. As pessoas passando na estradinha de terra indicavam: já era hora de ir à festa. Correu, despediu-se da mãe, mas em vão procurou o pai. Foi encontrá-lo nos fundos da casa, contemplando o pôr do sol. “Pai…”, ela disse. Só na segunda chamada ele virou. Inicialmente, o chapéu de palha projetava uma sombra nos seus olhos; quando os viu, no entanto, foi tomada de angústia. Os olhos, costumeiramente tristes, estavam arrasados. Mas José, homem forte que era, logo se recompôs. Ao inquérito da filha respondeu apenas: “Não é nada, não é nada. Agora vá a festa que você vai se atrasar.” Ela, meio desconfiada, acabou assentindo; abraçou-o e saiu correndo pela porta.

***

Corria o tempo. A lua ia alta no céu, cujo negrume, em seu contraponto com a luz das estrelas, só era ofuscado pelo brilho mágico da fogueira. O fogo, diferentemente da luz elétrica, tem um brilho ébrio; seus braços dançam curvas complicadas, como se fossem algum avatar do feminino erotizado. Sua luz, projetada nas caras, traz junto de si uma mesma parte de escuridão. Tudo, iluminado pelo fogo, torna-se, ao mesmo tempo, sombrio. O claro da fogueira é companheiro inseparável da escuridão. A atmosfera é mística. Junto com a bebida, que vai sendo servida em doses generosas, os homens vão se livrando da carga insuportável do “eu”. Vão perdendo suas faces para se unirem a uma massa amorfa de sátiros.

Rosa corre de um lado a outro. Carrega doces, bebidas, salgados. Ajuda a levantar um bêbado que tropeça. Não parou para conversar ou dançar ou beber desde que chegou à clareira onde foi montada a festa. A correria e a proximidade do fogo coraram suas faces. Em um momento, para para respirar. Quando volta a andar, tropeça e cai no chão, sujando a palma da mão com terra. Dirigiu-se então aos fundos, à parte de trás da Igreja, onde havia uma bica com água para se lavar. Ao chegar lá, abre a torneira, deixa a água escorrer pelo seus braços. A água, fria e ágil, percorre a extensão do braço em um resfriamento prazeroso. “A senhorita!” – Era um dos moços da vila, sua camisa meio aberta, a face ruborizada, a voz carregada; tudo era sinais de que a bebida e os festejos tinham surtido algum efeito nele. “Não devia… andar por aí sozinha”. E a tentativa de contorná-lo é interrompida com um empurrão forte, que derruba Rosa no chão. E outro, atrás, “você! Você é filha do Diabo! Ele a tenha!”.

iii.)

Cantai! que a morte é divina!

(Castro Alves; Navio Negreiro)

O corpo de Rosa Maria foi encontrado, na manhã seguinte, matagal adentro, detrás da igreja. Suas vestes rasgadas evidenciavam que ali havia ocorrido um, ou vários, estupros. Sua face, no entanto, trazia um misto de paz e dor. O sangue que brotava de seu corpo deitava-se na terra, ligando-a ao solo natal da forma mais essencial possível. Havia voltado ao próprio berço, à própria Mãe; voltado ao nada, de onde, antes, tinha vindo. Diziam que a sina da menina era essa: a desgraça; que trazia em sua testa a marca da demência. Agora jazia morta. “O mundo… O mundo é dos loucos”, gemiam os olhos infinitos do Pai.

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2 comentários
  1. Primrose disse:

    *Meu comentário foi entregue por escrito

    Só pra dizer de novo.
    Muito bom, Igor. Adorei!

    • Igor disse:

      E, de novo, valeu! Assim fica com uma marquinha aqui! =)

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