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Arquivo mensal: setembro 2011

Foi em março de 2009 que entrei naquela sala, como aluno, pela primeira vez. No ano seguinte, uma grande quantidade daqueles ali presentes engrossaria as fileiras das melhores faculdades de engenharia e medicina do país. Quando o professor entrou, uma saraivada de xingamentos o atingiu. Eram os alunos. Era uma brincadeira, como depois fui saber.

Um dia, um professor explicava, perplexo, porque os vestibulares se encaminhavam na tendência de cobrar um pensamento mais geral, mais ligado a uma capacidade de raciocínio e cultura geral, do que ao hermetismo das fórmulas decoradas e soletradas: era porque, cada vez mais, os alunos que ingressavam nas universidades brasileiras – nas melhores, fique claro – o faziam com uma mentalidade tipicamente infantil. Não deveria causar espanto que os trotes e comemorações mais violentas, danosas, desrespeitosas etc. vinham justamente dessa “elite intelectual”. Não é de se espantar que, um ano depois, o “rodeio de gordas” foi noticiado, chocando a todos. Só se chocou quem não via o óbvio que já estava patente há muito tempo: a classe universitária não é, nem de longe, luminar. Mas como assim? Se as provas de admissão medissem, justamente, o grau de instrução… Como é que os mais bem avaliados pudessem se comportar com tanta ignorância? Essas perguntas deviam apontar para o óbvio, mas há sempre aqueles que se recusam a enxergá-lo, fechando-se em pretensas ideologias – uma delas a “anti-ideologia”. São aqueles que repetem por aí que o Brasil precisa de mais engenheiros e menos poetas, ou coisa que o valha. Imagino o país por eles sonhado: grandes pontes, cortadas por carros velozes cujos motoristas, na casa dos vinte anos, dirigem embriagados e atropelam os que andam pela rua. Assim vivemos.

Por isso soam ridículas as reclamações contra a (volta, diga-se de passagem!) da filosofia no currículo do ensino médio. O fazem com a pretensa justificativa de que isso lesaria o ensino de matemática e “ciências básicas”, já deficitários. Afinal, o Brasil precisaria de engenheiros – aqueles que “pensam com clareza” -, não filósofos – tarântulas das imposturas intelectuais, apáticos e anti-produtivos por excelência -. O Brasil precisa de Paulo Maluf. Precisa de mais salões do automóvel e menos bienais. O Brasil precisa de mais projetistas de carros, para que possamos, finalmente, morrer sufocados. Assim, quem sabe, esse país dê certo.

Ao Gabriel P. que, embora discordando, começou a discussão que gerou esse ensaio.

“A curious thing about the ontological problem is its simplicity. It can be put in three Anglo-Saxon monosyllables: ‘What is there?’ It can be answered, moreover, in a word—‘Everything’—and everyone will accept this answer as true.”

‘On What There Is’
W. V. O. Quine


João Guimarães Rosa não era filósofo, era mais do que isso: Pensador. Não possuir essa alcunha (de filósofo) é, em certo sentido, o maior alívio para o pensamento de alguém. A exigência de clareza e distinção lesa a inteligência porque recusa a vida; vive-se em um mundo de conceitos sem corpos, de signos vazios. A literatura e a poesia, são, em certo sentido, a salvação de alguma filosofia. Tem a força necessária para fazer do barro oco das ideias, através de um sopro divino, homens.

Como seu lugar de ofício – a literatura – lhe garante maior liberdade e, por consequência, na sua prosa, o problema ontológico se desdobra como mais complexo que o resumo de Quine. Perguntar: “O que há?” é o inquérito típico do filósofo: é despersonalizado, interpessoal, abstrato. Não se espanta que no ensaio supracitado de Quine diga mais à lógica e à matemática do que ao ser humano, em uma atitude anterior. Atitude da vida. A pergunta feita por Guimarães parte da de Quine – “O que há?” – mas lhe acrescenta fatores: “O que há para quem?”; “Como há para tal indivíduo?”; “O modo de haver da coisa é o mesmo para dois indivíduos distintos?”; “É possível falar em realidade última, acessível ou não aos indivíduos? Ou tudo resulta em ‘interpretações’, de valor igual ou diferente?”. Guimarães se dá ao luxo, portanto, de esquecer a primeira pergunta – “O que há?” – porque para ele isso é o que pode haver de maior importância, mas apenas paralelamente as vidas humanas. As decisões ontológicas enquanto feitas, concretamente, no mundo real. Mas Guimarães também não é sociólogo, sua veia poética nos dá acesso quase que direto aos olhos e ao coração de suas personagens. Lendo seus contos e romances, vemos e sentimos com suas criaturas. Por ser assim, a ontologia rosiana é a mais fundamental – no sentido de anterior, de original – ontologia: é uma ontologia que se dá paralelamente – ou, ainda, imbricada – ao existir humano. Portanto, é poética: o próprio existir o é.

Em “Corpo Fechado”, somos introduzidos a uma problemática ontológica de um ponto de vista prático: existem – ou melhor, funcionam – ou não as artes místicas? Frente a angústia, no momento que antecederia um confronto mortal, Manuel Fulô recorre a Antônio, “curandeiro feiticeiro”, lhe dando a coisa mais cara – a mula Beija-Fulô – em troca da magia de Antônio. O que se segue é improvável: num tumulto que impede o narrador, personagem habitante do conto, de ver o duelo. O desfecho, muito improvável, é a vitória de Manuel sobre o valentão que vinha se bater com ele. Para um homem das luzes, um filósofo conceitualista, a história de nada serve para elucidar o problema ontológico. Se nos livrarmos dessa abordagem restritiva – mas necessária – podemos reler a realidade: que é aquela que se dá para alguém. O corpo de Manuel foi ou não fechado, ou seja, imunizado contra armas de fogo? A pergunta é tão ociosa quanto “Capitu traiu ou não?” – o fato é que na poética da vida aquele fato – o ritual – foi fundamental. Tentar lhe dar outros motivos – “deu segurança a Manuel que, por isso, venceu a luta” etc. – é uma atitude ilegítima: projeta uma estrutura pré concebida da realidade em outros, em Manuel. Porque fica evidente que a superstição, para a personagem, existiu em-si, não como outra coisa, explicável por outros mecanismos. A superstição existe, portanto, enquanto númeno. Mais do que isso, Guimarães Rosa parece nos sugerir: talvez seja arriscado – e arrogante – ir além disso: a dúvida não se resolve em juízos interpessoais, mas no interior profundo da própria individualidade. E, assim, somos condenados a nos debater, enquanto vivos, com as questões problemas que quisermos – e também aquelas que a nós se apresentarem como necessárias -; “Existe um Deus?”, “Qual é o melhor maneira de viver?” etc. Cada vida implica, em si, uma resolução para estas questões. Cada vida resulta em uma ontologia diferente – e isso independe da discussão realismo ou antirealismo.

E um dos mais famosos aforismas do Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein afirma que ” sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Se levarmos a sério tal afirmação, o mistério será para sempre inexprimível. Seu acesso será limitado à via da intuição mística individual, ou mesmo será legado ao ostracismo. Talvez Guimarães concordasse com a afirmação, porque recusasse, em seus escritos, uma solução última para os problemas dessa natureza. No entanto, é através de uma linguagem poética que nos habilitamos a considerar seriamente esse tipo de questão.

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Assim, espera-se justificado o problema da irregularidade do espaço e do tempo em Campo Geral, fundamentado em uma posição antimetafísica por excelência. É um problema análogo ao do questionamento ontológico da mística: em nível absoluto, a ontologia é recusada como um todo. No entanto, como os juízos questionadores fazem parte de uma dimensão fundamental da vida, somos obrigados a formulá-los em outra roupagem: na poética do ser-no-mundo. De mesmo modo, as constituições do tempo e do espaço podem ser abordadas de duas formas: buscando uma espécie de “coisa-em-si”, ou através de uma atitude pessoal para com elas. Guimarães opta pelo segundo, revelando uma verdade inacessível a outro tipo de discurso. Uma verdade que fala, direta e unicamente, à condição humana.

And Time with us was always popular.
When have we not preferred some going round
To going straight to where we are?

(Our Bias; W. H. Auden)

Campo Geral, de Guimarães Rosa, é a narrativa da infância – e seu término – do menino Miguilim, que “morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-D’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em pouco remoto, no Mutúm.” É uma história que apresenta com maestria a possibilidade da perfeita articulação entre forma e conteúdo na literatura, marca característica da prosa rosiana que, aqui, é levada às últimas consequências. Pode-se dizer que em Campo Geral, o primeiro dos grandes contos que compõe os dois volumes de Corpo de Baile, a própria articulação do texto nos diz mais do que as unidades de sentido que são as frases. Nesse contexto, a figura do narrador ocupa um papel central.

O narrador de Campo Geral é uma mistura de narrador que está fora do mundo do livro, que apenas narra o que acontece, com um fluxo de consciência constante, influência da própria personagem central. Assim, a configuração espaço-temporal – ou seja, os focos narrativos, a espacialização da obra e como tudo se desenrola num tempo não é exata. Pelo contrário, é uma figura mimética dos olhos, mente e coração de uma criança – Miguilim. E assim se configura a prosa do livro, abordando diversos assuntos um atrás do outro, com viradas bruscas no pensamento quase que inexplicáveis. Somos remetidos a uma forma mais originária do ocupar-se com o mundo: forma que é encantada constantemente; forma que atenta a tudo, porque tudo se mostra como importante, como mágico. Portanto, não é de se espantar que o narrador focalize o passarinho na gaiola e, sem que se tome nota da mudança, esteja, subitamente, falando de outra coisa qualquer – o irmãozinho correndo na terra, por exemplo. Essa solução elimina a incoerência que assalta grande parte da prosa literária: que é supor uma ordem rigorosa e bem delineada do raciocínio, que se assemelha a demonstração de um teorema já pronto. Que é construir um romance psicológico que termine em quod erat demonstrandum.

Digna de nota, também, é a constituição espacial. A literatura tipicamente realista apresenta minuciosas descrições espaciais, de precisão e ordem geométricas. O espaço é um absoluto; suas distâncias se apresentam como claras e evidentes para o narrador, o que acaba se estendendo, pelo menos na impressão, a todas as personagens do mundo da ficção. Parece, na verdade, que elas não habitam no mundo, condição existencial essencial a todo Ser. Ao contrário, se imagina que possuam uma espécie de visão sem perspectiva, uma forma de planta planificada das coisas. As personagens veem o mundo como se tivessem os olhos de Deus. Já em Campo Geral, o espaço se constitui como o faria para alguém que dele falasse, no sentido duplo que a afirmação comporta. Que dele falasse: ou seja, que sobre ele falasse; mas, também, que dele falasse: que, de dentro dele, estando nele, falasse. E que o fizesse por categorias infantis. Onde haveria um mapa em sua exatidão; tem-se poesia, errância. E as distâncias já não são mais numéricas, cambiáveis, equivalentes: são antes qualitativas, vividas. O mar, figura que se instaura no imaginário de Miguilim, não está a várias fazendas de distância. O mar está a uma distância inalcançável. De modo análogo, a roça está a uma distância que não é de tantas léguas, mas passando pela floresta, caminho que só pode ser feito com uma certa maturidade. A passagem até a roça não é um caminho métrico, é uma transição existencial que se dá através da lírica.

O tempo também não é um compassado de uma só cadência; é um tempo orgânico, maleável. Se parece menos com um metro do que com um fluido viscoso que escorre pelos dedos em velocidades diferentes. O relógio ideal é a tela de Dali. Em uma ocasião Miguilim tenta contar o tempo. A própria tomada de consciência de sua passagem já é incerta e com um objetivo que turva mais as coisas. Trata-se de uma contagem regressiva para a morte, combinada com Deus por Miguilim. No trecho, a passagem do tempo não se dá em horas e minutos, mas em acontecimentos, em coisas. Assim é o tempo: material, concreto, mas ao mesmo tempo etéreo, misterioso, amorfo.